4. INTEGRAÇÃO REGIONAL
4.2 Conceitos multi-disciplinares de integração
O termo integração é amplamente usado em diversas ciências, e com algumas idéias são comuns a todas as áreas. Esta seção explorará em maior profundidade as integrações social
e econômica, devido ao grau de profundidade que o tema foi alcançado por elas pela sua relevância junto a integração regional.
4.2.1 Integração social
Historicamente a sociedade foi voltada para servir ao homo economicus, termo amplamente usado pelos pesquisadores na área de economia, cuja autoria é incerta. Este indivíduo é tipicamente do sexo masculino, saudável, nativo do lugar de estudo, adulto, proprietário de bens e poder, age considerando vantagens econômicas e voltam suas ações para seus interesses pessoais.
Mas a sociedade não é composta apenas por homo economicus. Existem diversos outros grupos com interesses e necessidades distintas (como idosos, mulheres, pobres, deficientes físicos), muitas vezes deliberadamente alijados dos benefícios produzidos pela comunidade. Em última instância, cada pessoa na sociedade tem interesses e necessidades distintas para o seu bem estar. No século XX, principalmente nas sociedades ocidentais, foram alcançadas diversas conquistas pelos movimentos que buscam maior inserção na sociedade destes grupos discriminados (Integração Social). Pois quanto maior a integração maior o desenvolvimento social.
A Organização das Nações Unidas (1995) define integração social como a criação de uma sociedade para todos, em que seus indivíduos tenham direitos e responsabilidades, tenham papéis ativos na comunidade, sejam respeitados em suas particularidades e apoiados a superarem suas restrições. Para tanto é sugerido que os governos sejam claros nas ações tomadas e que estas beneficiem a coletividade respeitando as individualidades. Devem ser oferecidas igualdades de oportunidades e deve-se buscar a estabilidade, evitando-se conflitos.
A seguir, um resumo das ações públicas em prol da integração social propostas pela Organização das Nações Unidas (1995) são apresentados:
a) responsabilidade governamental e plena participação da sociedade: promoção e proteção dos direitos humanos e liberdades fundamentais, incluindo o direito de desenvolvimento dos indivíduos e sua interdependência. Deve ser avaliado o impacto das políticas sobre todos os indivíduos, respeitando suas características. O
fluxo de informação e os laços sociais devem ser reforçados. O acesso aos serviços prestados pela sociedade deve ser universal. Especial atenção aos indivíduos mais fragilizados na estrutura social;
b) valorização da diversidade: estímulo à tolerância e convivência com a diversidade. Políticas de remoção de barreiras e de uso da diversidade não como um problema, mas como um maior número de oportunidades de interações;
c) igualdade e justiça social: políticas para redução das disparidades no acesso aos benefícios produzidos pela sociedade. Tratamento justo a todos os indivíduos;
d) atendimento às necessidades especiais: identificação e atendimento de necessidades específicas dos indivíduos, não apenas atendendo-o em suas demandas, mas também permitindo que este se insira plenamente no circuito produtivo e decisório da sociedade;
e) redução da criminalidade: políticas voltadas à prevenção e combate às práticas prejudiciais à sociedade, dificultando a ação de elementos nocivos. Também é necessária a reabilitação tantos das vítimas quanto de criminosos para que estes possam contribuir com a sociedade;
f) valorização das famílias: considerada unidade mais básica da estrutura social, a família merece políticas de valorização e proteção.
4.2.2 Integração econômica
Lakshmanan et al. (2001) destaca que um terço do comércio mundial acontece dentro das redes globais de produção, em relações inter-regionais. Vasconcelos (2001) indica que no ano de 1999 o comércio interestadual brasileiro movimentou mais de 450 bilhões de reais (valores da época). O acesso a mercados externos (sejam municípios, estados ou países), é oportunidade estratégica para que os lugares possam oferecer sua produção e obter bens e serviços demandados, incrementando ainda a produção de todos os envolvidos. Apesar das oportunidades comerciais encontradas nos circuitos econômicos inter-regionais, Mussa (2000) ressalta o risco de se entrar nestes circuitos sem o devido preparo. A intensa concorrência pode degradar a economia de uma região em vez de fazê-la crescer. Além de medidas internas de fortalecimento da economia, a integração econômica vem sendo uma prática cada vez mais adotada pelos lugares para enfrentarem os desafios do cenário econômico inter-regional.
São várias as definições sobre integração econômica. MERCOSUL (2004) conceitua integração econômica como o conjunto de medidas de caráter econômico e comercial que têm por objetivos promover a aproximação e, eventualmente, a união entre as economias de dois ou mais países. Souza (1994) conceitua integração, num sentido mais amplo, como “articulação de regiões dentro ou fora de um país, assim como as partes de um conjunto de indústrias no interior ou fora de complexos industriais”. Bello (2001) define que integração econômica é o ajuntamento de dois ou mais sistemas econômicos de maneira harmoniosa que o todo formado possibilite um desempenho superior à configuração anterior, onde estes sistemas atuavam sozinhos.
Para Souza (1994), entretanto, não há integração econômica perfeita entre regiões e setores econômicos. São necessárias estruturas de conexão para permitir os efeitos de propagação econômica. Estas conexões são de vários tipos (setoriais, comunicação e transportes, por exemplo). Nos países subdesenvolvidos esta integração é fraca, com conexões frágeis. Já as economias desenvolvidas apresentam forte integração interna entre seus setores, com interações contínuas e circuitos de propagação da produção, tanto setorial como espacialmente. As redes de transporte e de informações são as principais infra-estruturas de conexão. Segundo Schiff, e Winters (2003) e Mussa (2000), outros graves obstáculos às interações regionais são as barreiras naturais (por exemplo, cadeias de montanhas, rios, desertos) e barreiras artificiais (como normas técnicas, culturais, fito-sanitária, leis trabalhistas, direitos autorais). Posto que as tecnologias de transporte e comunicação têm conseguido superar cada vez mais as barreiras naturais, é nas barreiras artificiais que se concentram hoje os maiores esforços para a integração regional.
Souza (1994) observa ainda que a integração econômica espacial mostra-se efetiva quando as relações econômicas se intensificam no espaço ocupado. Em vez de se pensar apenas em fluxos setoriais, pensa-se em fluxos entre as regiões. Medidas políticas, legais, fiscais, estruturais e operacionais são aplicadas para aumentar a circulação destes fluxos. Mussa (2000) e Lakshmanan et al. (2001) apontam três fatores como determinantes no incremento das relações econômicas globais (conceito que pode ser estendido para as relações regionais): i) aperfeiçoamentos nos transportes e comunicação (acessibilidade); ii) maior alcance de oferta dos bens (decorrente da redução dos custos de produção, transportes e comunicação); iii) políticas públicas voltadas para o incremento das relações (incentivo às interações e redução de barreiras). Mussa (2000) destaca ainda o papel de três importantes
dimensões da Integração Econômica: i) migrações humanas; ii) comércio de bens e serviços; iii) movimento de capital e integração de mercados financeiros. Todos estes fatores e dimensões atuam de maneira interdependente e auto-relacionada e devem assim ser considerados ao se pensar em planejamentos de crescimento econômico.
Um fenômeno regional surgido especialmente a partir do século XX foi o dos blocos econômicos internacionais. Diferentemente das alianças dos séculos anteriores, que priorizavam acordos militares ou contratos pontuais a respeito de alguns produtos, os blocos modernos se caracterizam por serem multi-setoriais (abrangendo aspectos como os ambientais, trabalhistas, políticos, econômicos) e por serem de diferentes graus de comprometimento e interdependência. Schiff, e Winters (2003) e Suranovic (2004) apontam como principais tipos de blocos econômicos: a) acordos preferenciais de comércio; b) áreas de livre comércio; c) mercado comum; d) união alfandegária; e) união econômica; e f) união monetária. Bello (2001) aponta ainda que quanto maior a profundidade da integração maior a interdependência entre seus elementos, buscando sinergias que minimizem as suas respectivas limitações. Assim, a união de blocos de países funciona como mecanismo compensatório de deficiências e de complementaridade.
É importante lembrar que os blocos devem acordar qual o objetivo esperado, o grau de integração a que estão dispostos e definirem políticas voltadas para tanto. Schiff, e Winters (2003) descreve algumas recomendações para estas políticas, merecendo destaque o incremento da competitividade regional, respeito às particularidades dos envolvidos, clareza na definição dos programas e sustentabilidade das políticas sob cenários adversos. Os princípios e conceitos de integração econômica apresentados devem ser observados nas relações externas e internas nas regiões envolvidas. Por mais robusta que seja a integração externa de uma região, se ela também não for robusta internamente pode gerar desequilíbrios que tragam prejuízos “de dentro”, chegando até a “implodir” a integração externa.