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Conceitos Principais da abordagem freudiana

PSICANÁLISE EM SIGMUND FREUD

3.2.2 Conceitos Principais da abordagem freudiana

Segundo Fadiman e Frager, o pressuposto fundador do pensamento freudiano é que “o corpo é a fonte básica de toda experiência mental” (1986, p. 6). A força motriz desta experiência, encontra-se na libido (desejo ou anseio) ou sexualida-de, concepção básica que não está ligada apenas à reprodução e genitália, mas engloba-as e transcende-as, buscando, além do prazer sensível, a prazerosidade de ordem superior, através da sublimação. Este é um processo de canalização da energia dirigida à sexualidade, para outras realizações, de natureza artística, inte-lectual ou cultural. Esta energia sublimada é responsável pela civilização, quando aproveitada para os instintos da vida. A sublimação inclui em seu processo uma iNTErATividAdE: registre no Moodle, no seu “Diário”, as impressões sobre este documentário.

sAiBA mAis: para saber mais sobre Sigmund Freud:

recomendamos que você assista “Análise de uma mente” um documentário biográfico de Sigmund Freud. Disponível em:

<https://www.youtube.com/watch?v=-op3s6s-yw4>. Acesso em: outubro de 2017.

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disciplinação metódica do desejo, voltada à rigidez das atividades humanas e às expressões socialmente úteis. Deriva daí o que conhecemos por cultura e, em uma rápida alusão à cultura ocidental, emerge também daí a fragmentação que esface-la a própria corporeidade humana e suas possibilidades de realização através de uma personalidade sadia. No entanto, aprofundar-se na problemática existencial do mundo contemporâneo requer alguns conceitos fundamentais para a com-preensão dos processos mentais e sua íntima relação com o sentir e agir humano.

O pensamento freudiano afirma que nada ocorre por acaso, muito menos os processos mentais. Há uma causa para cada pensamento, memória revivida, sen-timento ou ação. Cada evento mental é determinado pela intenção consciente ou inconsciente e é determinado ainda por fatos precedentes. Procurando descrever os elos ocultos que ligavam um evento consciente a outro, Freud parte do fato in-contestável da consciência. No entanto, o consciente é apenas uma pequena parte da mente, incluindo tudo o que estamos cientes em um dado momento. É a ponta de um iceberg. Freud queria ir além, avançar nas regiões da consciência menos expostas e exploradas, denominadas inicialmente por ele de pré-consciente e in-consciente. Parte então da premissa de que há conexões entre todos os eventos mentais, presentes no inconsciente. Ali residem elementos instintivos, os princi-pais determinantes da personalidade, as fontes de energia psíquica e as pulsões, ou instintos. O pré-consciente, por sua vez, seria uma parte do inconsciente que poderia se tornar consciente com facilidade. Um exemplo refere-se às porções de memória acessíveis, que podem ser evocadas com certa facilidade. É como uma vasta área de posse das lembranças de que a consciência precisa para desempe-nhar suas funções (FAdimAN; FrAgEr, 1986, p. 8). Posteriormente, Freud reviu sua teoria da personalidade, chegando à formulação em termos de id, ego e superego.

Ao descrever os instintos básicos, primeiramente Freud delimitou duas forças antagônicas, a sexual, fisicamente gratificante, e a agressiva ou destrutiva. Poste-riormente, desenvolveu um conceito global, definindo estas forças como mante-nedoras da vida ou incitadoras de morte ou destruição. Ambas pressupõem dois conflitos instintivos básicos, biológicos, contínuos e não-resolvidos. Isto não é necessariamente visível na vida mental, pois a maioria de nossos pensamentos e ações são movidos por uma combinatória de ambas.

Os instintos são canais através dos quais a energia pode fluir, obedecendo leis próprias. Cada instinto geral tem uma fonte de energia específica. Os instin-tos de vida, através da sublimação, orientam para realizações individuais e so-ciais. Os instintos de morte, ou instintos destrutivos, cumprem sua tarefa muito menos visivelmente do que os instintos de vida e, por isso, sabe-se bem me-nos sobre eles, exceto que, inexoravelmente, cumprem sua missão. Toda pessoa morre, o que levou Freud, de acordo com Hall e Lindzey (1973, p.54) a afirmar que “a finalidade de toda vida é a morte”, convencendo-se que a pessoa tem, inconscientemente, o desejo de morrer.

Os argumentos de Freud em favor do conceito do desejo de morte, envolvem uma antropologia psicológica. Partindo do surgimento da matéria viva, pela ação das forças cósmicas sobre a matéria inorgânica, passando pelo desenvolvi-mento dos mecanismos de reprodução, Freud define o princípio da constância, pois este governava a existência dos seres dotados de vida.

A vida, disse Freud, não é senão um meio para se chegar à morte. Perturbada em sua existência estável, a matéria orgâni-ca procura retornar ao estado de quietude. O desejo de morte no ser humano é a representação psicológica do princípio da constância. O impulso agressivo é um importante derivativo dos instintos de morte. A agressividade é a autodestruição voltada contra objetos substitutivos. Uma pessoa luta contra outra e torna-se destruidora, porque seu desejo de morte é bloqueado por forças dos instintos de vida e por outros obs-táculos em sua personalidade que resistem aos instintos de morte. A primeira guerra mundial convenceu Freud de que a agressão era um motivo tão dominante quanto o sexo (HAll;

liNdZEY, 1973, p. 54-55).

Os instintos de vida e de morte e seus derivados podem agir em grupo, neutra-lizar-se mutuamente ou trocar de posição. Por exemplo, o amor pode substi-tuir o ódio e vice-versa. Uma rápida análise de nossa sociedade contemporânea propicia-nos uma gama de exemplificações deste entrejogo entre vida e morte, entrelaçando o individual e o coletivo em uma dinâmica que não é outra, senão a do próprio progresso.

O instinto, ou pulsão, em geral, é considerado por Freud (1981), como uma espécie de elasticidade das coisas vivas, um impulso restaurador de coisas exis-tentes no passado, conduzido a um fim específico por perturbações exteriores.

São, portanto, pressões que dirigem um organismo para fins particulares. Não são padrões herdados de uma animalidade inferior, mas algo genuinamente humano, que são a causa original de toda atividade. Segundo Foulquié e Deledalle (1969, p.

208), “essa força ou essa energia vital, esses impulsos congênitos são, na origem, indiferenciados, diferenciando-se à proporção que aparecerem, no indivíduo, no-vas funções orgânicas ou mentais”. Hall e Lindzey (1973, p. 51) conceituam o ins-tinto como um quantum de energia psíquica, na medida daquilo que é necessário para acionar a mente. A somatória dos instintos constitui a totalidade energética, de ordem psíquica, de que dispõe a personalidade.

É importante sublinhar que a manifestação conduzida pelo princípio do prazer não pode ser ortodoxamente interpretada como uma tendência sexual, lembrando que a sublimação é um processo fundamental e normal, que evoca a corporeidade humana, profundamente desejante, dinamizada pela necessida-de. O desejo age como motivante do comportamento, sendo os instintos os fa-tores propulsores da personalidade, determinando a direção que aquele deverá tomar. As necessidades são de ordem interna, portanto, é impossível ao indiví-duo ignorá-las, tal como faz muitas vezes com os estímulos externos, importan-tes sob determinadas condições de ansiedade. O sujeito desejante é explicita-do na concepção de Freud acerca explicita-do self. O self é o ser total: corpo, instintos, processos conscientes e inconscientes. O fluxo dinamizador da pulsão original, quando não reprimida, assoma o corpo todo, tornando-se incumbência do ego usar o intelecto para planejar meios seguros e adequados de satisfação. O uso do intelecto depende inteiramente da capacidade e força do ego, para apoiar e

favorecer essa mesma força (FAdimAN; FrAgEr, 1986, p.26).

O princípio da realidade impede Freud de cair na armadilha do idealismo: a produtividade do indivíduo saudável, sob o princípio da eficiência e competitivi-dade, deve orientar-se para serviços de qualicompetitivi-dade, sob uma expectativa de sucesso e reconhecimento; o amor deve ser semisublimado e a libido inibida para manter--se em harmonia com as sanções sociais à sexualidade. No entanto, estas mesmas circunstâncias carregam em si a possibilidade da realização da liberdade ou a ideia de tal possibilidade. Essa ambiguidade é inerente à dinâmica que entrelaça instin-tos de vida e instininstin-tos de morte. O estilo neofreudiano joga esta ambiguidade para uma pseudocrítica, que acaba por cair em uma promessa que banaliza os valores transcendentes do gênero humano. Ao assumir a repressão em seu sentido estrito, Freud deixa evidente a permanente tensão em que vive o homem contemporâ-neo. As contradições geradas nesta tensão coexistem com a possibilidade de que a sociedade se torne mais construtiva e é a combinatória de ambas as forças que aponta para possíveis saídas para o conflito existencial humano.

É importante destacarmos que para Freud a ação humana envolve uma com-plexidade maior que o impulso inicial que desencadeia a necessidade de agir. De acordo com Fadiman e Frager (1986, p. 9), os instintos humanos apenas iniciam a necessidade da ação, não a predeterminam e nem lhe dão a forma final. As possíveis soluções individuais é a somatória do seu “desejo” mental, necessidade biológica inicial que pode ou não ser consciente e uma variedade de ideias an-teriores, hábitos e opções disponíveis. O instinto caracteriza-se por quatro com-ponentes (HAll; liNdZEY, 1973, p. 51-52; FAdimAN; FrAgEr, 1986, p. 8): uma fonte, condição ou necessidade emergente do corpo; uma finalidade, de redução ou remoção da excitação corpórea até que nenhuma ação seja necessária, dando ao organismo a satisfação desejada no momento; a pressão ou impulso, que é a quantidade de energia ou força usada para a satisfação ou gratificação do ins-tinto, determinada pela intensidade ou urgência da necessidade subjacente e, finalmente, o objeto de um instinto, que é qualquer coisa, ação ou expressão que permite a satisfação da finalidade original.

A psicodinâmica da ação envolve ainda o jogo tensão-redução. O ciclo com-pleto de comportamento, repouso-tensão-atividade-repouso, é denominado modelo de tensão-redução (FAdimAN; FrAgEr, 1986). As tensões são resolvidas pela volta do corpo ao nível de equilíbrio, existente antes do surgimento da ne-cessidade. Freud (1981), explicita que o modelo mental e comportamental saudá-vel, tende a reduzir a tensão a níveis aceitáveis. Enquanto persiste a necessidade, a pessoa continuará buscando atividades redutoras da tensão.

Procurando as causas dos pensamentos e comportamentos, pode-se lidar mais adequadamente com uma necessidade que está sendo imperfeitamente satisfeita por um pensamento ou comportamento particular, envolvendo um trabalho analítico. Por outro lado, vários pensamentos e comportamentos, pa-recem não reduzir a tensão, pelo contrário, apapa-recem para provocá-la, ou ainda gerar pressão ou ansiedade, indicando que a expressão direta de um instinto foi bloqueada. A personalidade autônoma, cuja existencialidade plena e criadora orienta-se plenamente para a gratificação e realização é privilégio de poucos. A contemporaneidade demonstra que a personalidade se orienta para um modelo

reativo padronizado, formatado nos jogos de poder e funções e por sua mecânica técnica, intelectual e cultural.