2 REFERENCIAL TEÓRICO
2.2 A QUALIDADE DE VIDA NAS CIDADES
2.2.1 Conceitos de qualidade de vida
De acordo com Urzúa e Caqueo-Urizar (2012), a noção de qualidade de vida pode ser rastreada até os Estados Unidos, após a Segunda Guerra Mundial, como uma tentativa de pesquisadores da época em saber a percepção das pessoas sobre se eles tinham uma boa vida ou se sentiam financeiramente seguros.
Para Wilheim e Deák (1970), a qualidade de vida está́ ligada à satisfação de aspectos objetivos representados pela renda, emprego, objetos possuídos e qualidade da habitação, dentre outros. Já na concepção de Dalkey (1972), a qualidade de vida está unida a aspectos tais como felicidade e bem-estar.
Desse modo, seria mais coerente se fossem considerados fatores com real significado para o indivíduo e não aqueles fatores prescritos como sendo socialmente bons (RIBEIRO e VARGAS, 2001). A qualidade de vida inclui as dimensões psicológicas e sociológicas, como:
habitação adequada; a participação em atividades culturais, de entretenimento, tempo para leitura; satisfação nas relações interpessoais e um bom convívio familiar; o conhecimento e os recursos para se adaptar aos tempos de mudança, a igualdade de oportunidades para influenciar na direção e na velocidade das mudanças (LO e FABER, 1997).
De fato, como explica Turkoglu (2015), a qualidade de vida é certamente um conceito multifacetado e interdisciplinar, frequentemente usado na mídia e pelos políticos, mas desafia a definição precisa. Muitas vezes, é difícil diferenciar entre as noções de qualidade de vida, bem-estar, satisfação e felicidade (MORATO, 2003).
Ao longo dos anos, o estudo da qualidade de vida atraiu a atenção de pesquisadores de uma ampla gama de disciplinas acadêmicas. Segundo Turkoglu (2015), o conceito também teve uma forte influência sobre as tendências sociais e políticas aplicadas a vários campos, como o planejamento urbano e regional, a promoção da saúde, a pesquisa sobre deficiência, indicadores sociais e pesquisa econômica e de saúde mental.
Como ressaltam Ülengin et al., (2001), diferentes resultados são obtidos nos estudos de qualidade de vida, devido às diferenças na escolha dos conjuntos de variáveis, na atribuição de pesos às variáveis, da abordagem adotada, das metodologias usadas, e a homogeneidade das unidades geográficas de análise em que as pesquisas são baseadas.
Historicamente, os estudos de qualidade de vida tendem a examinar indicadores objetivos que refletissem a condição humana, como seus dados de emprego, a incidência de mortalidade e morbidade e as taxas de criminalidade. Esses estudos foram lançados durante o movimento dos indicadores sociais nos anos 1970 e recentemente resumidos em Investigating Quality of Urban Life: Theory, Methods and Empirical Research (MARANS e STIMSON, 2011).
No entanto, durante o último meio século, estudiosos argumentaram que a "qualidade" de qualquer entidade tem uma dimensão subjetiva que é perceptiva e que tem uma realidade objetiva. Em seu livro abrangente sobre o bem-estar, Kahneman, Diener e Schwartz (1999) indicam que a experiência de qualidade de vida dos indivíduos está inserida no contexto social e cultural do avaliador.
Zapata e Romero (2010) salientam: embora a qualidade de vida possa ser determinada por fatores objetivos, sua manifestação essencial é apreciada na ordem subjetiva, resposta de uma relação dialética entre o objetivo e o subjetivo. Em outras palavras, a qualidade de vida objetiva e percebida são dois elementos agregados que interagem no indivíduo, e sua interpretação depende dos valores que subsistem e dos eventos que surgem em seu ambiente (WATANABE, 2005; GALÁN, 2012).
No entanto, apesar da complexidade do tema, Vizcaíno e Fernández (2009) advertem que há três premissas a serem consideradas para avaliação: a primeira diz respeito à satisfação reconhecida pelo indivíduo, o segundo às condições de vida em que a pessoa subsiste e a terceira a uma experiência percebida dos dois anteriores.
Nesta ordem de ideias, é necessário especificar que o grau de desenvolvimento alcançado por uma sociedade obedece a indicadores socioeconômicos que detalham o estado geral da economia de uma nação, mas também devem considerar as relações sociais que mantêm e prevalecem a existência concreta de pessoas (CARPIO et. al. 2000).
De mais a mais, Ardila (2003) argumenta que as principais dimensões do caráter objetivo que devem ser levadas em consideração para o estudo da qualidade de vida devem se referir aos seguintes aspectos: bem-estar emocional; riqueza material e bem-estar material; saúde; trabalho e outras formas de atividade produtiva; relações familiares e sociais; segurança e integração com a comunidade.
Por outro lado, seria importante considerar aspectos subjetivos relacionados às pessoas nos fatores de intimidade, expressão emocional, segurança percebida, produtividade pessoal e saúde percebida (CANTÚ-MARTÍNEZ, 2015). Aliás, o autor elaborou um quadro que sintetiza alguns conceitos sobre qualidade de vida e as diferentes interpretações sobre as condições objetivas e subjetivas citadas.
Quadro 2 – Enunciados de qualidade de vida
Enunciado Referência
O conceito de qualidade de vida [...] está globalmente associado às condições materiais em que se desenvolve a existência de indivíduos e, mais especificamente, com a experiência pessoal que resulta das referidas condições.
CASTAÑEDA citado em (RODRÍGUEZ e GARCÍA, 2005, p. 51-52)
A qualidade de vida é simplesmente a soma de todas as coisas que as pessoas coletivamente consomem, quer através de gastos públicos, quer porque não são comparáveis de forma alguma.
(JACOBS, 1996, p. 393-394)
Considera a qualidade de vida como um agregado de componentes objetivos e subjetivos. Cada componente inclui sete aspectos: bem-estar material, saúde, produtividade, privacidade, segurança, lugar na comunidade e bem-estar emocional.
A qualidade de vida é o resultado da interação complexa entre fatores objetivos e subjetivos; as primeiras constituem as condições externas: econômicas, sociopolíticas, culturais e ambientais que facilitam ou dificultam o pleno desenvolvimento do homem, de sua personalidade. Os segundos são determinados pela avaliação que o sujeito faz de sua própria vida.
CABRERA et. al. (citado em GARCÍA - VINIEGRAS, 2005)
Como um conjunto de coisas desejáveis nem sempre reconhecidas pelo mercado, que, como a sustentabilidade, tem dimensões econômicas, sociais e ambientais. Abrange aspectos como renda, condições de trabalho e habitação, saúde e educação, relações de raça e gênero, segurança, condições ambientais, oportunidades recreativas, coisas que como um todo podem ser vistas como padrão de vida geral.
JOHNSTON citado em (SÁNCHEZ - MADARIAGA, 2004)
A qualidade de vida é um estado de satisfação geral, derivado da realização do potencial da pessoa. Tem aspectos subjetivos e aspectos objetivos. É um sentimento subjetivo de bem-estar físico, psicológico e social. Inclui, como aspectos subjetivos, intimidade, expressão emocional, segurança percebida, produtividade pessoal e saúde objetiva. Como aspectos objetivos, bem-estar material, relações harmoniosas com o ambiente físico e social e com a comunidade, e saúde objetivamente percebida.
(ARDILA, 2003)
Fonte: Cantú- Martínez, 2015, p. 13.
Além disso, de acordo com Torres Tovar (2010), a qualidade de vida é construída social e coletivamente e os próprios indivíduos intervêm, considerando os diferentes cenários pessoais, familiares, institucionais e comunitários. Portanto, o autor argumenta que a qualidade de vida é plural e não singular, no sentido de que a qualificação da sensação de existência é criada pelo indivíduo com suas múltiplas determinações geradas pela sua história ontogenia.
Assim, pode-se observar que a qualidade de nossas vidas tem muitas dimensões, incluindo relacionamentos pessoais (família, amigos), empregos, situação financeira, saúde, lazer, entre outros. E mais, aqueles de nós interessados nas cidades e no meio ambiente em geral devem estar conscientes de que se vive em diferentes lugares, cada um dos quais tem numerosos atributos ambientais e esses lugares também são importantes para a nossa qualidade de vida (TURKOGLU, 2015).
Portanto, o próximo ponto é apresentar alguns exemplos de medições e indicadores de qualidade de vida urbana.