OS ESTUDOS DO JORNALISMO
1.1 CONCEITOS E TEORIAS DO JORNALISMO
1.1.2 Conceitos relevantes
A verdade, a liberdade, a notícia, a parcialidade e a objetividade são valores que têm grande importância para o jornalismo. No caso do primeiro, é uma das bases do jornalismo, algo que, em geral, o jornalista tem a função de buscar. A liberdade é uma espécie de ideal de muitos jornalistas, tanto a liberdade da sociedade por meio de direitos a serem conquistados, quanto a liberdade de expressão, necessária àqueles que exercem a profissão. Os demais valores citados acima ganham enfoque na maneira como o jornalismo é produzido.
A liberdade é um conceito muito importante ao jornalismo. A história do jornalismo é marcada por diversos jornalistas que estiveram e estão à frente da luta pela liberdade, a qual propicia a independência e a autonomia dos produtores de notícias diante dos outros atores sociais, afirma Traquina (2005). O jornalismo pode existir em um ambiente sem liberdade, ainda que sua prática se torne mais difícil, restrita ou, ainda, perigosa.
Mesmo sem considerar a liberdade de imprensa como algo completamente bom, visto que a aprecia mais pelos males que ela evita do que pelos bens que faz, Aléxis Dé Tocqueville (2005, p. 204) afirma:
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De acordo com Wolf (1987), os valores-notícia são critérios de seleção dos elementos dignos de serem incluídos na notícia, a partir de todo o material disponível à redação. Dessa maneira, funcionam como referência para a apresentação do conteúdo, sugerindo aquilo que deve ser prioritário e salientado na notícia, assim como o que não deve receber tanta atenção. São entendidos como regras práticas que orientam o conhecimento profissional do jornalista e guiam os mesmos em suas atividades diárias de seleção do que é noticiável e o que não é.
A soberania do povo e a liberdade de imprensa são, pois duas coisas inteiramente correlativas. A censura e o voto universal são ao contrário, duas coisas que se contradizem e não podem encontrar por muito tempo nas instituições políticas de um mesmo povo.
No Brasil, a liberdade como um bem social é garantida na Constituição Federal de 1988,2 assim como a liberdade de expressão e de comunicação (BRASIL, 1988). Da mesma maneira, a liberdade de imprensa e também a verdade fazem parte dos fundamentos do Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros da Federação Nacional dos Jornalistas (2007):
Art. 2º Como o acesso à informação de relevante interesse público é um direito fundamental, os jornalistas não podem admitir que ele seja impedido por nenhum tipo de interesse, razão por que:
I - a divulgação da informação precisa e correta é dever dos meios de comunicação e deve ser cumprida independentemente da linha política de seus proprietários e/ou diretores ou da natureza econômica de suas empresas;
II - a produção e a divulgação da informação devem se pautar pela veracidade dos fatos e ter por finalidade o interesse público;
III - a liberdade de imprensa, direito e pressuposto do exercício do jornalismo, implica compromisso com a responsabilidade social inerente à profissão;
IV - a prestação de informações pelas organizações públicas e privadas, incluindo as não-governamentais, deve ser considerada uma obrigação social;
V - a obstrução direta ou indireta à livre divulgação da informação, a aplicação de censura e a indução à autocensura são delitos contra a sociedade, devendo ser denunciadas à comissão de ética competente, garantido o sigilo do denunciante.
Como pode ser observado, o Código de Ética da Fenaj vincula a liberdade de imprensa à função social do jornalista brasileiro, colocando-a como um direito e um dever a ser cumprido no exercício da profissão. É um valor que deve ser compartilhado entre os jornalistas e deve estar acima dos interesses das empresas de comunicação.
No Brasil alguns jornalistas foram grandes defensores da liberdade nos momentos em que a ditadura e a censura foram instaladas no país. Muitos, como o jornalista Vladimir Herzog – morto na década de 1970 ao ser torturado pela ditadura militar –, perderam a vida ao resistir a um sistema que cerceava a liberdade de imprensa e dos cidadãos (SODRÉ, 1983; BAHIA, 1990; ALVES, 1989).
De acordo com McQuail (1987) no nível de uma sociedade, a liberdade deve significar uma ausência de leis ou controles que limitem ou ofereçam direcionamento às atividades dos
media. O autor afirma que a maior parte da imprensa comercial é livre neste aspecto, mas não necessariamente em outros. Ressalva que no nível da organização jornalística, a liberdade é geralmente limitada pelo controle exercido por proprietários e gerentes sobre os editores e
destes sobre os seus subordinados – jornalistas, fotógrafos, escritores, artistas etc. – no que, muitas vezes, são organizações burocráticas e hierárquicas.
Ao trazer o conceito para as demandas atuais e capitalistas do jornalismo, Traquina (2005) ressalta ainda que a liberdade propicia a independência e autonomia dos veículos de comunicação, essenciais para garantir outra característica importante no jornalismo: a credibilidade. A credibilidade é essencial para a sobrevivência ideológica e econômica dos veículos de comunicação, pois é baseado nela que as empresas jornalísticas conquistam seu público.
Por sua vez, a notícia é o principal produto do jornalismo. É em função de conseguir boas notícias que o jornalista trabalha, contudo existem outros valores que a envolvem. Para Tuchman (1978, p. 1), “a notícia é uma janela para o mundo”. Segundo a autora, a notícia tem para nos dizer o que queremos, precisamos e devemos saber. Molotoch e Lester (1993) acreditam que as notícias são responsáveis por nos contar aquilo a que não assistimos diretamente e oferecem existência e relevância a acontecimentos que seriam remotos em outras circunstâncias. De acordo com esse conceito, Lage (1982, p. 36) afirma que a notícia é “o relato de uma série de fatos a partir do fato mais importante, e este, de seu aspecto mais importante”. O autor afirma, ainda, que a notícia é composta de uma organização relativamente estável (componente lógico) e elementos escolhidos de acordo com critérios de valor essencialmente cambiáveis que se organizam na notícia (componente ideológico).
Segundo Almeida (1998), a notícia resulta da seleção de informações que estão disponíveis, por meio de “um processo instruído pela cultura, bem como por objetivos estratégicos de lucro e poder político, censurados explicitamente pelo Estado através de leis, e pela ética socialmente aceita pelos meios de comunicação” (ALMEIDA, 1988, p. 32).
De forma parecida, as notícias também são definidas como “o resultado de um processo de produção, definido como a percepção, seleção e transformação de uma matéria- prima (os acontecimentos) num produto (as notícias)” (TRAQUINA, 1993, p. 169). Nesse contexto, os acontecimentos representam a diversidade de matérias-primas e a estratificação dele consiste na seleção daquilo que será tratado, ou melhor, do que é noticiável, explica o autor.
A notícia, assim como ajuda a contextualizar a cultura, depende dela para fazer sentido. Segundo Schudson (1993) as notícias são convencionais. As convenções, segundo o autor, ajudam a tornar as mensagens compreensíveis, de forma que se adapta ao mundo social dos leitores e escritores, pois as convenções de uma sociedade ou tempo não são aplicáveis a outra em diferente período. De uma maneira mais mercadológica, Schlesinger (1993, p. 177)
afirma que “a estrutura competitiva que define a notícia como uma mercadoria perecível exige uma estrutura de produção baseada no valor do imediatismo (immediacy) e nos horizontes temporais de um ciclo diário”.
Ao abordar a questão da parcialidade, Hackett (1993) afirma que a opinião subjetiva do repórter ou de uma organização jornalística em um relato factual constitui a parcialidade noticiosa. O conceito de parcialidade é desenvolvido como o oposto da objetividade, que será apresentado em seguida neste capítulo. A parcialidade era uma prática comum nos periódicos até o século XIX, quando eram muito usados para apoiar partidos e ideologias políticas. A partir do surgimento de um novo jornalismo, em que se passou a separar os fatos das opiniões, e da industrialização da imprensa (TRAQUINA, 2005), com a qual as empresas jornalísticas passaram a buscar um público mais amplo e diversificado – ambos no século XIX –, a parcialidade passou a ser criticada e evitada pelos jornais. No Brasil, essa prática ocorre até meados do século XX, conforme será discutido no próximo capítulo.
Hackett (1993) aponta quatro pressupostos ligados à investigação de parcialidade jornalística: 1) a notícia pode e deve ser objetiva, equilibrada e refletir a realidade social; 2) as atitudes políticas dos jornalistas e editores são fatores determinantes da parcialidade jornalística; 3) a parcialidade do conteúdo noticioso pode ser percebida através de métodos de leitura; 4) a forma mais importante de parcialidade é o favoretismo, propositado ou não, em relação a um candidato, partido, posição política ou grupos de interesses, em detrimento de outros.O autor afirma que o conceito de parcialidade tem dois momentos: um deles é a falta de equilíbrio entre os pontos de vistas diferentes e o outro é a distorção tendenciosa e partidária da realidade. Por isso argumenta que ela pode ser evitada com o uso equilibrado de pontos de vistas antagônicos nas notícias.
Contudo, a maior crítica aos estudos baseados na parcialidade é que alguns autores (TRAQUINA, 2005; TUCHMAN, 1993; HALL et al., 1993; HACKETT, 1993) dentre outros afirmam que não é possível produzir uma notícia completamente imparcial, que reflita fielmente a realidade. O ritmo de trabalho, as interações dentro das organizações (TUCHMAN, 1978), as demandas organizacionais (EPSTEIN, 1974) dentre outras questões podem contribuir com algum grau de parcialidade da informação. Os caminhos propostos para diminuir a parcialidade das notícias e torná-las o mais equilibradas possível, é que se busque aplicar alguns pressupostos da objetividade.
Nesse sentido, é importante discutir o conceito de objetividade. Ele surgiu entre os anos 1920 e 1930, num momento em que a credibilidade jornalística estava abalada em função da ação persuasiva da propaganda durante a Primeira Guerra Mundial e devido ao
surgimento das relações públicas como profissão, relata Traquina (2005). O conceito está baseado na necessidade de separação dos fatos e opinião, que ocorreu ainda no século XIX com o surgimento do novo jornalismo. A partir da década de 1930, os jornalistas passaram a utilizar as regras e procedimentos criados para cumprir a objetividade como uma forma de fugir da dúvida e da incerteza existentes naquele período no mundo, afirma o autor.
De acordo com Soloski (1993), para os produtores de notícia a objetividade não significa que eles são observadores imparciais dos acontecimentos, mas que buscam e relatam os fatos da maneira mais imparcial e equilibrada possível. Hackett (1993, p. 105) afirma que o ideal da objetividade propõe que
os fatos possam ser separados das opiniões ou juízo de valor e que os jornalistas consigam uma distanciação relativamente aos acontecimentos do mudo real cujo significado e verdade eles transmitem ao público através de uma linguagem neutra e competentes técnicas de reportagem. Assim, os media noticiosos ofereceriam o resumo fiel dos acontecimentos mais noticiáveis do dia – os mais relevantes e interessantes para o público.
Traquina (2005) critica o uso do conceito da objetividade apenas como uma negação da subjetividade. Ao considerar essa bivalência, o valor é criticado, pois, conforme afirmado anteriormente, diversos autores desacreditam na possibilidade de se produzir notícias completamente imparciais, sem alguma subjetividade seja do jornalista, da organização ou das fontes. Dessa maneira, para o autor, a objetividade é “uma série de procedimentos que os membros da comunidade interpretativa utilizam para assegurar uma credibilidade como parte não interessada e se protegerem contra eventuais críticas a seu trabalho” (TRAQUINA, 2005, p. 139). Ainda de acordo com o autor, a objetividade também é relevante como uma forma do jornalista reivindicar legitimidade.
Para Tuchman (1993, p. 74), a objetividade pode ser vista “como um ritual estratégico que protege os jornalistas dos riscos da profissão”. Segundo a autora, ao seguir os procedimentos da objetividade, os jornalistas podem neutralizar as críticas. Em casos de procedimentos incorretos em uma notícia que gerem processos, a organização jornalística também terá sua reputação comprometida, ressalva a autora. Dessa maneira, por proporcionar mais cuidados na produção da notícia, a objetividade é vista como vantagem para as organizações empresariais.
Para realizar o ritual da objetividade, o jornalista deve utilizar alguns procedimentos, evitando processos e contestações das informações publicadas. Tuchman (1993) destaca os principais procedimentos: verificação das informações obtidas, apresentação de possibilidades
de conflito, ao trabalhar com ao menos duas fontes que representem lados (ou opiniões) opostos sobre uma questão; apresentação de provas auxiliares para fortalecer uma afirmação; uso das aspas para a declaração dos entrevistados, tirando a responsabilidade do repórter sobre as afirmações entre aspas; e a estruturação da informação em uma sequência apropriada, procedimento que inclui o uso da pirâmide invertida3 e do lead.
Com o uso de tais procedimentos, os acontecimentos podem ser publicados de maneira segura como fatos que não requerem explicações sobre seu significado, afirma Soloski (1993). Traquina (2005) ressalta que a objetividade está relacionada ao papel do jornalista de manter certa distância dos agentes sociais, trabalhar de maneira honesta e sempre em busca do equilíbrio nas notícias e é referência às bases do comportamento dos profissionais seja nas empresas de comunicação, seja no setor público.