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CAPÍTULO IV: POLÍTICAS PÚBLICAS EDUCACIONAIS PARA A

4.1 CONCEITUALIZANDO DIVERSIDADE NA ANTROPOLOGIA

termos gerais; autri, por outro lado, poderia se traduzir pelo “próximo” a outra pessoa) existe o próximo - esse que não é eu, esse que é diferente de mim, mas que posso compreender, ver, assimilar

96 Para compreensão, neste trabalho, políticas públicas segue a perspectiva da

autora Cláudia Vianna (2015): como “Estado em ação”. De acordo com a autora:O governo assume, por determinado período, as funções do Estado por meio de programas e planos que envolvem diferentes órgãos públicos, organismos e instâncias da sociedade relacionadas à política implementada (HÖFLING, 2001 apud VIANNA, 2015, p.03)

94 – e também o outro radical, (in)assimilável, incompreensível e inclusive impensável. (BAUDRILLARD, 2002).

A Antropologia, como uma ciência das diferenças sociais e culturais, reflete o comportamento do ser humano em sociedade. Aprendemos com ela a compreender que a ação humana é um fenômeno observável e passivo de análise, tendo as culturas como objeto central de estudo.

É, portando, a partir de uma reflexão sistemática sobre as diferenças, do encontro com o outro, que a antropologia, paulatinamente, constitui-se como uma ciência, através de um conhecimento relativista (DaMatta, 2000).

Para a reflexão deste ponto, irei trazer como corpus de análise os importantes debates de uma publicação organizada por Vânia Cardoso (2008)97. Nas descrições da obra, um dos painéis de discussão no Colóquio Antropológico da UFSC98, “Antropologia, Educação e Diversidade”, buscou discutir sobre a normatização e institucionalização de formas de saber.

No livro a que me refiro, Antonella Tassinari (2008) e Karine Pereira Goss (2008) tencionaram a “diversidade” no campo da educação: a primeira, a partir de uma perspectiva indígena, e segunda, analisando as políticas de ações afirmativas para estudantes negros universitários.

Nos dois textos, a diversidade emergiu como questão central de debate, mesmo que não tenha sido problematizada como categoria analítica. A presente afirmativa, estruturante neste capítulo, condiz com o questionamento da antropóloga Miriam Grossi,

Como em suas publicações sobre gênero, Grossi buscou remeter as reflexões daquele colóquio a um questionamento de possíveis “naturalizações” no debate sobre diversidade (CARDOSO; MOTTA, 2008, p. 26).

97 CARDOSO, Vânia Zikán (2008).

98 Reconhecendo a diversidade de antropologias que é praticada na atualidade, o

Programa de Pós Graduação em Antropologia Social da UFSC realiza, desde 2006, os “Diálogos Transversais em Antropologia” (DTA), contextualizando a interdisciplinaridade do fazer antropológico.

95 Compreendi que, assim como o conceito de “cultura” é caro para a Antropologia, a própria categoria “diversidade” não é diferente. Apoiando-me na prerrogativa da autora Manuela Carneiro da Cunha (2009) sobre a utilização do conceito de cultura (com aspas e sem aspas), é possível analisar os possíveis deslocamentos conceituais da categoria “diversidade”. Dentro de uma perspectiva antropológica, a diversidade foi constituída na relação com o “outro”.

Esse aspecto relacional foi forjado, inicialmente, sob um olhar etnocêntrico - perspectiva em que se coloca determinada etnia como norma – e explicado pela corrente evolucionista como uma desigualdade de estágios existentes no processo de evolução, em uma visão de mundo eurocêntrica.99

Posteriormente, essa diversidade passou a ser vista sob a égide da diferença. Para Brandão (1986), o diferente e a diferença são partes da descoberta de um sentimento que, armado pelos símbolos da cultura, nos diz que nem tudo é o que eu sou e nem todos são como eu sou, em torno de uma diversidade que nos informa e que nos constitui como sujeitos de uma relação de alteridade.

Alteridade que se constrói na tensão entre esses dois polos – o muito próximo, que se confunde consigo mesmo, e o muito distante, que se apresenta como uma espécie inteiramente nova, de uma cultura irredutível àquela do pesquisador (FONSECA, 2004). O “outro” deixa de ser o exótico e passa a ser visto como diferente, exigindo um olhar de dentro ou, como se diz em Antropologia, captando “o ponto de vista do nativo” (LAPLANTINE, 2000).

A especificidade da Antropologia, portanto, advém crucialmente dessa necessidade metodológica de apreender o “ponto de vista do outro” muito a partir da imersão no contexto que se pretende compreender. É a experiência do trabalho de campo (a própria pesquisadora coletando e interpretando seus dados etnográficos) que constitui a marca distintiva da Antropologia. Essa especificidade reside na possibilidade que a antropóloga tem de refletir sobre sua própria sociedade (PEIRANO,1995; VELHO, 1978; CARDOSO DE OLIVEIRA, 2000).

De acordo com Pierre Sanchis (1999), é a partir do encontro com o “diferente” que posso questionar os meus padrões de compreensão do mundo, de valorização e de comportamento. Trata-se de um caráter

99Autores de referência da perspectiva evolucionista: Lewis Henry Morgan

(1818-1881), Edward B. Tylor (1832-1917) e James Frazer (1854-1941). Para um maior aprofundamento ver o livro Evolucionismo Cultural: Textos de Morgan, Tylor e Frazer, organizado pelo antropólogo Celso Castro.

96 reflexivo, que é resultado do encontro com diferenças, compreendendo- as, questionando os nossos valores, modos de vida, de compreensão do mundo,

É a busca de uma resposta sistemática a esse problema que vai definir, no início, uma atitude, mais tarde, uma reflexão sistemática, enfim, uma ciência: a etnografia, etnologia – ou antropologia. (SANCHIS, 1999, p. 24).

Mas é importante analisar, como nos diz Neusa Gusmão (2008)100, a dimensão política para compreensão da Antropologia como campo disciplinar, no passado e no presente. Assim, nascida durante os séculos XIX e XX, esse encontro com a “diferença”, ou melhor, com a diversidade sociocultural dos povos coloniais, tinha uma visão evolucionista e etnocêntrica.

Não obstante, no século XX, conforme a autora, a Antropologia rompe com essa perspectiva da alienidade (o outro de meu mundo como não humano), passando para a perspectiva da alteridade (o outro está no meu mundo e existe em relação a ele), um reconhecimento que ocorre a partir do conceito de cultura,

Apesar da não plena consciência do outro, há, no interior desse pensamento, o reconhecimento da condição humana do outro, ainda que dele pouco ou nada se conheça” (GUSMÃO, 2008, p. 60). A autora Neusa Gusmão (2000) tencionou os desafios de se trabalhar a diversidade (social e cultural) na escola. Na perspectiva da “diferença” – dos “outros” – a autora pontua questões antropológicas sobre as formas de compreensão de si e do outro, a partir desta reflexão sobre alteridade – espaço permanente de enfrentamento, tensão e complementariedade - em uma perspectiva relacional marcada por questões de hierarquia e poder, pois

O que está em jogo é a diferença do outro e sua identidade, que exige que se abdique daquilo que se é, para assumir a identidade do eu, como modelo

100 Neste artigo, a autora Neusa Gusmão realiza uma importante revisão histórica

97 a ser imitado[...] A história dos homens é feita num jogo de imagens expressas num espelho de muitos ângulos, em que a diversidade se mostra em seus muitos significados e, permanentemente, nos desafia, pois tem por base o fato de que a relação entre o eu e o outro é sempre conflitiva e marcada por instâncias diferenciadas de poder. (GUSMÃO, 2010, p. 13)101.

Problematizando um pouco mais, Tomaz Tadeu da Silva (2000) analisa que a produção social da identidade e da diferença é resultado de um processo de produção simbólica e discursiva. São criações sociais e culturais, não podendo ser compreendidas fora da cultura, isto é, dos sistemas de significação nos quais adquirem sentido - discursivos e simbólicos.

A diversidade, portanto, poderá ser assim entendida nas distintas possibilidades de expressão e vivência social das pessoas, dadas por aspectos de orientação sexual, gênero, sexo, faixa etária, raça/cor, etnia, pessoa com deficiência, entre outros, reforçada a partir de determinados contextos sociais e de valores pré-estabelecidos em determinada sociedade.

Dessa forma, gênero, raça/etnia, sexualidade, geração, etnia dentre outros são vistos como “marcadores sociais da diferença” (BRAH, 2006), que versam sobre pertença e, muitas vezes, como um dispositivo de lugares socialmente demarcados e hierarquizados.

Mesmo que seu princípio verse sobre a liberdade da pessoa em expressar-se conforme suas concepções, respeitando as orientações distintas de outros/as indivíduos, compreendemos que a “diversidade” se encontra permeada por relações de poder. A sociedade tende a padronizar sujeitos, impondo coercitivamente ao indivíduo regras e normas, sem respeitar as individualidades, coagindo-os a limitar as expressões das suas diferenças.

101 Para a autora, a escola é, em si, um espaço de sociabilidade, devendo ser vista

não pela diferença ou mesmo diversidade, mas sim pela perspectiva da alteridade: é “um espaço de encontros e desencontros, de buscas e de perdas, de descobertas e de encobrimentos, de vida e de negação da vida. A escola por essa perspectiva é, antes de mais nada, um espaço sócio-cultural.” (GUSMÃO, 2010, p.18).

98 4.2 “O OUTRO” NO CAMPO DA EDUCAÇÃO

Assim como a escola é um espaço pluralizado, o conceito de “diversidade” e “diferença”, no campo da Educação, é também polifônico, envolto em um emaranhado de marcadores sociais. De acordo com o texto oficial do MEC,

Trata-se das questões de classe, gênero, raça, etnia, geração, constituídas por categorias que se entrelaçam na vida social, mulheres, afrodescendentes, indígenas, pessoas com deficiência, populações do campo, de diferentes orientações sexuais, sujeitos albergados, em situação de rua, em privação de liberdade, de todos que compõem a diversidade que é a sociedade brasileira e que começam a ser contemplados pelas políticas públicas. (BRASIL, grifo meu, 2013, p. 7).

Interessante análise do autor Carlos Skliar (2003) sobre este “outro” na educação. Na perspectiva da diferença, alteridade, diversidade e os outros “outros”102, o autor pontua três questões presentes nos discursos pedagógicos sobre uma possível pedagogia da diversidade:

1) trata-se, por acaso, de um outro que nunca esteve aqui? 2) trata-se, de um outro que volta somente para nos contar as suas histórias de discriminação e exclusão? ou 3) trata-se , talvez, de um “eu escolar” que, simplesmente, se dispõe a hospedar e/ou se inquieta somente pela estética de sua própria hospedagem, mas que não se interessa pelo outro? (SKLIAR, 2003, p. 37)

Essa importante indagação provoca a pensar sobre quem são esses “outros” que constituem essa diversidade103. Para o autor,

102 É possível reconhecer no texto importantes diálogos com autores como

Derrida (2001) e Baudrillard (2002).

99 Tudo é possível com a mudança na educação: a insistência é uma única espacialidade e em uma única temporalidade, mas com outros nomes; a infinita transposição do outro em temporalidades e espacialidades homogêneas; a aparente magia de alguma palavra que se instala pela enésima vez, ainda que não nos diga nada; a pedagogia das supostas diferenças em meio a um terrorismo indiferente; chamar ao outro para uma relação escolar sem considerar as relações do outro com outros; e a produção de uma diversidade que apenas se nota, apenas se estende, apenas se sente. (SKLIAR, 2003, p. 39).

Miskolci e Leite Jr. (2014) analisaram, a partir de três edições do Curso Gênero e Diversidade na Escola (GDE), que é preciso superar o conceito de diversidade para a utilizar, assim, o conceito de diferença, pois “diversidade” mascara conflitos por meio de uma compreensão horizontal das relações de poder,

Surge assim o principal desafio de lidar com as diferenças: compreender que isso é uma das características das sociedades democráticas e que as divergências podem tanto apontar para o conflito como para o diálogo criativo e transformador. No contato com as diferenças podemos- inicialmente – estranhar alguém, mas também reconhecer nesse encontro algo positivo: a chance de aprender. Apostamos na possibilidade de fazer do encontro com a alteridade uma experiência positiva e transformadora para todos (as). (MISKOLCI; LEITE JR, 2014, p. 10).

Essa perspectiva da diferença, apresentada pelos autores, vai além da visão multiculturalista, onde a sociedade reconhece a heterogeneidade mantendo as diferenças de forma harmônica. A partir desta perspectiva da diferença, compreendemos as relações de poder, tendo como pano de fundo uma sociedade com espaços de divergência entre diferentes perspectivas e valores.

Ana Paula Vencato (2014), em diálogo com Miskolci E Leite Jr. (2014), sinaliza para uma educação para a igualdade pautada na constituição de relações de respeito, “primando pelo reconhecimento do outro como agente e sujeito de uma prática pedagógica transformadora”,

100 buscando romper com um “jogo complexo de hierarquias” (VENCATO, 2014, p. 20) que institui lugares diferenciados para indivíduos diversos, construindo fossos de desigualdades que são reproduzidos no ambiente escolar (LOURO, 1999).

Reflete-se que o ponto central das discussões sobre diversidade é a percepção, a reflexão e a atuação sobre os mecanismos sociais que transformam as diferenças em desigualdade, excluindo, assim, sujeitos que não se encaixam da norma do instituído, fomentando hierarquias a partir desse complexo conceito polifônico que é “diversidade”.

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