3 A SOLTEIRICE MASCULINA NO ARRANJO HISTÓRICO LOCAL
3.1 Raízes da solteirice masculina na Região de Campanha Gaúcha
3.1.2 Concentração da posse da terra: sesmarias e estâncias
A questão agrária no município de Alegrete gerou e continua gerando conflitos sociais. Por volta da terceira década do século XVIII, as sesmarias começaram a ser distribuídas no território do Rio Grande do Sul, como forma de buscar o povoamento da região de fronteira, que era estratégica para o governo luso-brasileiro, e para promover a criação de gado vacum em estâncias34. A terra foi doada a militares e tropeiros, conforme Pesavento (1984). Nesse contexto, as sesmarias eram uma forma de pagar pelos serviços militares prestados ao império. Na verdade, em muitos casos, o que se fez não foi povoar, porque a terra já estava povoada, mas sim expulsar os posseiros que ali viviam para estabelecer quem interessava à coroa, como apontam Farinatti (2007) e Santos (2003). Encontramos, na coletânea feita por Santos (2003), uma referência de Silveira (1909) às sesmarias de Alegrete, sendo que a maioria das sesmarias listadas teria três léguas, mas duas tinham nove léguas e uma, de um major, dez léguas. Essa situação condiz com a constatação de Garcia (2005) de que, por vezes, as regras para doação de sesmarias não foram cumpridas, sendo que os próprios militares, que eram responsáveis pelo processo, tinham áreas muito maiores do que as que oficialmente deveriam ter.
A carta de Sesmaria concedida a Thomas Ferreira Dalle, em 1815, no território do atual município de Alegrete, traz alguns elementos importantes e pode ser utilizada para discutir algumas questões sobre as sesmarias. O documento, assinado pelo Marquês de Alegrete, governador daCapitania, refere-se à concessão de uma área de uma légua de frente por três de fundos, com delimitações naturais, a
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A diferenciação entre estância e fazenda é trazida por Xavier (1969). A estância representaria uma comunidade em torno da família do estancieiro, já a fazenda é definida como “a simples exploração da propriedade rural, sem vínculos comunais ou familiares” (XAVIER, 1969, p. 76). Na verdade, o autor coloca os conceitos como dois polos, entretanto, há uma evolução temporal entre eles, sendo que as suas características não são totalmente diferenciadas.
um posseiro para estabelecimento de fazenda de criação de gado. Em contrapartida, a área deveria ser povoada em até dois anos, o que seria provado por meio do pagamento do dízimo à Igreja Católica. Nesse prazo, deveria ser feita a medição e demarcação da área. Também estava entre as obrigações conservar a área e plantar árvores e abertura de caminhos públicos, não vender para pessoas eclesiásticas, ceder área para formação de povoado, quando fosse o caso, e não vender ou trocar os campos sem autorização do governo.
Garcia (2005), em estudo sobre a questão agrária em Alegrete no período entre 1830 e 1880, destaca que o latifúndio não se formou sobre terra de ninguém, e que a terra foi apropriada desigualmente através das doações de sesmarias, da violência e da fraude documental35 no território do município. A autora diz que a origem do latifúndio na região está nas doações de sesmaria, no alargamento das estâncias sobre terras do poder público e dos outros, pequenos criadores, para utilizar o seu termo.
Se hoje existe o receio por parte de alguns grandes latifundiários do município de que suas terras sejam “invadidas” por “sem-terra”, o que temos no século XIX é justamente o processo contrário: diversos conflitos judiciais nos revelam que pequenos produtores tiveram seus campos absorvidos pela apropriação ilícita dos grandes estabelecimentos. Ao comparecerem frente ao juiz para apresentarem as suas versões dos fatos, pequenos criadores atribuíam ao poder local de vizinhos ricos e poderosos o fato de estarem sendo despejados das terras que, segundo eles, ocupavam a décadas (GARCIA, 2005, p. 180).
Garcia (2005) não menciona casos de revogação de concessão de sesmaria por descumprimento de regras em Alegrete. Entretanto, a autora relata um caso claro de descumprimento de regras, sendo quea sesmaria não foi povoada nem medida, e a área foi vendida para um padre (três situações não permitidas). Houve um processo judicial aberto por um padre em 1824 para retirar dois posseiros. A compra ocorreu em 1822, quando não havia respaldo legal para a venda de terras, que pertenciam à Coroa. Um desses posseiros deixou a área ao longo do processo. O sesmeiro era um capitão que recebeu a sesmaria em 1814. O padre dizia, no processo, que o capitão não povoou a sesmaria porque estava em campanha, e que agora ele se vê impedido de povoar porque ali estão “intrusos”. Um dos réus deixou a terra durante o processo, e outro se manteve na área. Apesar de o comprador
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assumir que o sesmeiro descumpriu quase todas as condições para a concessão da sesmaria, e de testemunhas confirmarem que os réus viviam na área, o réu foi condenado a desocupar a área, destruindo seu rancho e retirando os animais, além de pagar todos os custos do processo. O pequeno criador, que além da sua casa tinha uma mangueira para o gado, cerca de sessenta cabeças de gado e alguns cavalos, foi obrigado judicialmente a deixar a terra.
Cabe referenciar mais um caso, também relatado por Garcia (2005), para que se entenda algumas formas injustas de obtenção de terra no município. Um sesmeiro, tenente coronel, abriu um processo contra um homem que seria seu sócio na criação de gado, mas não queria deixar seus campos após o fim do contrato. O réu provou que a área ocupada por ele era fora da área concedida pela carta de sesmaria de 1814, e seria terra devoluta. Assim, denominando-se posseiro, acusou o tenente coronel de fraude. No início do processo, o réu pediu tempo ao juiz para conseguir um advogado de fora da cidade para defendê-lo, já que o único dali era patrono do sesmeiro, o que não foi atendido, e ele ficou sem advogado. Depois de três anos, o tenente coronel venceu a disputa de terra contra o posseiro, e o então juiz de direito da comarca que assinou a sentença foi o mesmo advogado e patrono do sesmeiro. Ao réu coube desocupar a terra e pagar os custos do processo. Na sentença, o juiz dizia que o réu reconhecia a posse do sesmeiro, e nada teria apresentado que o livrasse do despejo, embora as informações fossem inverídicas (GARCIA, 2005).
Alguns pequenos criadores de gado tentaram lutar na justiça por seus direitos, mas muitas vezes o poder dos oponentes sesmeiros vencia (GARCIA, 2005). Esses dois casos são ilustrativos das relações de poder então estabelecidas nessa sociedade.36 Nessas condições, como confrontar com esses “senhores da terra e da guerra”37
? Um dado que pode dar uma ideia da magnitude da concentração fundiária em Alegrete era a existência de uma fazenda com 39.204 hectares, em 1834, conforme Garcia (2005). Os resultados dessa apropriação injusta e das relações de poder que garantiram a sua reprodução ao longo do tempo, têm reflexos na realidade agrária atual do município, no qual extensas
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Em Molas (1982), também encontramos referência a casos de conflitos agrários entre estancieiros e pequenos produtores na Argentina, onde o segundo grupo era vítima de injustiças como o incêndio de suas casas.
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fazendas contrastam com propriedades familiares com pouca terra. A dominação simbólica da agricultura patronal sobre a agricultura de caráter familiar vem sendo reproduzida há vários séculos no território do município. “O campo da produção simbólica é um microcosmos da luta simbólica entre as classes [...]” (BOURDIEU, 1989, p. 12).