2.3 O RISCO SOCIAL
2.3.2 Concepção moderna de risco social
O que se busca na concepção moderna122 e até pós-moderna do risco é equacionar os dois elementos nos quais esses conceitos de apoiam: o indivíduo e a sociedade. Armando de Oliveira Assis apresenta seus argumentos com uma provocação de que a ciência histórica demonstra que o homem vive em coletivo, afastando, desde o início, uma concepção individualista:
Não estamos em condições de afirmar se algum dia o homem viveu só. Mas o que a ciência história já demonstrou, e é aceito sem constatação, é que o homem, na marcha para a sociedade atual, veio agrupando-se segundo moldes cada vez mais complexos, a saber: primeiro construindo o grupo familiar, em seguida compondo tribo, e, afinal, radicando-se, organizando as nações.123
Decidido pelo superior valor da sociedade em detrimento do indivíduo, Assis acredita que a sociedade é, ou deverá ser, um instrumento adequado a proporcionar ao indivíduo a satisfação de certas aspirações naturais: representa o clima que lhe permite a integração de umas tantas virtudes pessoais. Não importa que o homem apenas recentemente tenha chegado a essa conclusão; o instinto profundo que o levou a agir de tal modo reside numa razão explicativa mais que suficiente.
Aqui a sociedade atua como uma proteção do indivíduo, uma carapuça que serve para protegê-lo. No entanto, o que atinge a sociedade também atinge o indivíduo; e, se o que atinge o indivíduo se reflete na sociedade, esta não poderá deixar de ressentir.
122 Para Giddens, a modernidade refere-se a estilo, costume de vida ou organização social que emergiram na Europa a partir do século XVII, os quais, ulteriormente, se tornariam mais ou menos mundiais em sua influência. (GIDDENS Antony. As consequências da modernidade. São Paulo:
Unesp, 1991. p. 11).
123 ASSIS. Armando de Oliveira. Em busca de uma concepção moderna de “risco social”. In:
BALERA, Wagner (Coord). Revista de Direito Social. Ano 4, abr./jun., n. 14. Porto Alegre: Notadez, 2004. p. 155.
De forma mais aguda, a teoria proposta para a concepção moderna do risco social atua com um condutor de necessidades,124 de forma em que a ameaça a uma das partes, a um dos componentes (indivíduo), fatalmente ameaçará a toda coletividade, “os males individuais devem ser tratados pela sociedade como focos de infecção”.125
Para Wagner Balera, “a concepção moderna de risco social nasce nesse instante: o da assunção, pelo Estado, do papel garantidor da proteção social dos trabalhadores”.126
A atuação do Estado na proteção dos direitos sociais127 depende não somente da existência/previsão, mas também da ocorrência das necessidades sociais. Cumpre destacar que as necessidades criam o arcabouço de situações de proteção por parte do Estado.128
124 Armando de Oliveira Assis trabalha a ideia de risco social de forma coletiva, por isso prefere chamar tal contingência de “necessidade social”. Dessa forma, o risco social que representa cada pessoa só é social aquela fração que, se atingida, ponha em perigo a sociedade. Mas, com dissemos, essa fração será maior ou menor segundo o país ao qual se refira, assim como, dentro de uma mesma nação, variará para menos ou para mais de conformidade com a época em que seja considerada. Essa variação poderá, até, atingir a mesma pessoa, pois em certas emergências as necessidades podem ser momentaneamente mais prementes que as sobrevindas de uma causa persistente ou, quando menos, de longa duração. Em suma, atender-se-á a necessidade mínima do momento que passa, aquela que, por suas repercussões, se constitua em real e verdadeira
“necessidade social” (ASSIS. Armando de Oliveira. Em busca de uma concepção moderna de “risco social”. In: BALERA, Wagner (coord.). Revista de Direito Social. Ano 4, abr./jun., n. 14. Porto Alegre:
Notadez, 2004. p. 166).
125 ASSIS. Armando de Oliveira. Em busca de uma concepção moderna de “risco social”. In:
BALERA, Wagner (Coord). Revista de Direito Social. Ano 4, abr./jun., n. 14. Porto Alegre: Notadez, 2004. p. 158.
126 BALERA, Wagner. Noções preliminares de direito previdenciário. 2. ed. São Paulo: Quartier Latin, 2010. p. 156.
127 No caso da previdência social essa proteção é realizada com o pagamento de benefícios e a prestação de serviços, assim dispostos na Lei n.º 8.213/91: “Art. 1º A Previdência Social, mediante contribuição, tem por fim assegurar aos seus beneficiários meios indispensáveis de manutenção, por motivo de incapacidade, desemprego involuntário, idade avançada, tempo de serviço, encargos familiares e prisão ou morte daqueles de quem dependiam economicamente”.
128 No caso específico da previdência social, Daniel Pulino define que “Por força do que dispõe o art.
201 da Constituição, a previdência social deve atender à cobertura dos eventos doença, invalidez, morte e idade avançada, além de outros especificados nos demais incisos e parágrafos desse dispositivo. Dessa forma, a proteção dos indivíduos, na previdência social brasileira, é feita em atenção à numeração legal de contingências sociais específicas que produzem determinadas situações de necessidade social. Contingências que hão de estar, assim, tipificadas na lei previdenciária”. (PULINO, Daniel. A aposentadoria por invalidez no direito positivo brasileiro. 1.
ed. São Paulo: LTr, 2001. p. 39).
As necessidades sociais, no sistema protetivo brasileiro, ganham importância pelo seu papel de selecionar, filtrar, escolher quais os riscos que, uma vez acometendo o segurado, poderão gerar uma contraprestação do Estado na forma de serviço ou benefício. Com isso, as contingências sociais atuam num papel instrumental, tornando-se situações previamente tipificadas e aptas a gerar uma necessidade social e, consequentemente, uma manifestação na forma de benefício, por parte do Estado.
No entanto, essa concepção ditada pela Carta de 1988, inspirada na universalidade de cobertura e do atendimento, onde o Estado assume o papel de provedor do bem-estar atuando como braço forte diante das necessidades sociais, ainda não foi plenamente implementada, muito pelo contrário, existe uma grande deficiência dos serviços sociais prestados a sociedade em todas as áreas.
Mais especificamente, no que concerne aos sistemas de seguridade social que, Wagner Balera ensina:
Pode-se dizer, foram apresentados como a promessa final e acabada da modernidade em favor dos trabalhadores e dos pobres em geral, o fracasso resultou evidente. Surge então, a pós modernidade como o momento histórico que permite a retomada do ideário da seguridade social e a indicação dos caminhos possíveis para a libertação de todas as necessidades de que padecem as pessoas humanas.129
Diante de tal ineficiência estatal e dos novos riscos impostos por uma sociedade pós-moderna embalada por efeitos de magnitude global, Wagner Balera130 bem define o posicionamento da efetividade dos direitos sociais no Brasil quando afirma: “o Brasil é o lugar no qual, ao mesmo tempo, ainda não foram implementados os rudimentos de um verdadeiro Estado de Bem-Estar e já se avizinha o risco global da universalização do desemprego”.131
129 BALERA, Wagner. Noções preliminares de direito previdenciário. 2. ed. São Paulo: Quartier Latin. 2010. p. 162.
130 BALERA, Wagner. Noções preliminares de direito previdenciário. 2. ed. São Paulo: Quartier Latin. 2010. p. 174.
131 A pós-modernidade chega para se instalar definitivamente, mas a modernidade ainda não deixou
Por seu conteúdo potencialmente agressivo, o desemprego representa o maior risco social da sociedade pós-moderna, etapa que define o momento histórico que estamos atravessando. É sobretudo nesse sentido que se faz notar o perverso contraste entre necessidades e recursos: quanto maiores as primeiras, menores os segundos. Por outras palavras: as necessidades em geral decorrem principalmente de insuficiência de recursos.132
Desta forma, a pós-modernidade expressa a superação do modelo moderno de organização da vida e da sociedade, que propõe uma reanálise da atuação da sociedade diante de suas mazelas.133