Tendo em vista que a Educação Ambiental pode ser capaz de transformar as relações entre o ser humano e o ambiente, e que a escola é um importante instru- mento de disseminação destas novas ideias, resta refletirmos até que ponto este ideal será possível diante do currículo construído ou reproduzido por nossas esco- las.
Cabe investigarmos como a Educação Ambiental se faz presente no currículo escolar nas diferentes áreas do conhecimento e como ela é trabalhada. Conteúdos programáticos afastados da realidade vivida pelos educandos de nada servirão para que se desenvolvam habilidades necessárias para perceber e procurar resolver pro-
blemas ambientais presentes. Portanto, os objetivos de projetos voltados para a EA devem sempre estar atrelados às diferentes realidades sociais, políticas, culturais e ecológicas presentes na região ou localidade em que se está inserido(a).
Podemos perceber que muito do material utilizado pelas escolas, para traba- lhar em suas aulas, se originam de textos e livros didáticos que desconhecem as características e problemas locais, já que são produzidos para serem trabalhados em todo o País, deixando a desejar no que se refere aos problemas vivenciados por cada escola.
Assim, podemos considerar a necessidade de cuidado ao se adotar um livro didático e de não torná-lo único instrumento a ser utilizado. Seguir apenas o livro seria como reproduzir o que o mesmo propõe, sem considerar o contexto do aluno, suas vivências, seu dia-a-dia.
Temos que trabalhar com problemas globais, mas sempre considerando tam- bém os locais. De acordo com Dias (1999):
Primeiro trabalhamos o nosso ambiente interior, as nossas posturas e decisões, depois o nosso entorno pessoal, nosso ambiente familiar, nosso ambiente escolar, nosso ambiente de trabalho. O entorno desses ambien- tes, o pátio da escola, o entorno imediato da escola, o bairro, a cidade, a re- gião, o Estado, o Pais, o continente, O Hemisfério, o Planeta, o Cosmos ...! (DIAS, 1999, p. 32)
Torna-se evidente, assim, que o currículo precisa partir da realidade dos es- tudantes, procurando sensibilizá-los para os problemas presentes, ajudando-os a compreenderem por que os mesmo acontecem, despertando seu senso crítico, o que os fará posicionarem-se e agir de forma diferente. Um currículo assim, irá cola- borar para a formação de cidadãos comprometidos e atuantes, dispostos a lutarem para que aconteçam mudanças.
Mas estas mudanças somente serão possíveis através de uma nova escola e de um novo currículo. Estes, construídos de forma coletiva e participativa, procu- rando abordar conhecimentos necessários para a interpretação dos problemas que acontecem a nossa volta e na busca de novos valores, que estarão contribuindo pa- ra o desenvolvimento de novas formas de nos comportarmos e agirmos frente ao ambiente.
Ainda de acordo com Dias (1999), a EA deverá promover uma ligação mais próxima entre os processos educacionais e a realidade, pensando seus conheci- mentos e ações em torno de problemas comunitários, proporcionando uma análise
desses problemas sob uma perspectiva interdisciplinar e global. Ele ainda salienta que:
Precisamos moldar um processo educacional diferente, voltado para a libertação, para a compreensão do todo, para a participação, ação, mu- dança e reconstrução! O ser humano precisa reeducar-se, perdido que está no emaranhado dos interesses econômicos e políticos que geraram um mo- delo baseado no lucro, no consumo crescente e na exploração generalizada dos recursos naturais e na espoliação das pessoas. (DIAS, 1999, p. 40)
Com base no exposto até o momento, as escolas precisam rever e ajustar seus currículos visando atender as necessidades de um Planeta que está agonizan- do. Desta forma, todas as áreas do conhecimento necessitam focar questões rela- cionadas ao ambiente e desenvolvimento sustentável. É urgente que o currículo co- mo um todo abranja esta temática, e dentro de seus “conhecimentos mínimos”, para que a mesma não fique sempre em segundo plano, apenas trabalhada aleatoria- mente durante a realização de algum projeto envolvendo o tema. Este trabalho re- quer uma abordagem sistêmica e interdisciplinar, juntando todas as áreas do conhe- cimento, todos os envolvidos na escola e na comunidade, em prol de um Planeta mais sadio para a atual e as futuras gerações.
Também não podemos deixar de lembrar que promover a Educação Ambien- tal em todos os níveis de ensino e disciplinas faz parte de legislação específica para esta área. De acordo com a Lei nº 9.795/99 que institui a Política Nacional de Edu- cação Ambiental, em seu art. 1°:
Entende-se por educação ambiental os processos por meio dos quais o indivíduo e a coletividade constroem valores sociais, conhecimentos, habi- lidades, atitudes e competências voltadas para a conservação do meio am- biente, bem de uso comum do povo, essencial a sadia qualidade de vida e sua sustentabilidade (2002).
A Educação Ambiental no ensino formal, de acordo com o art. 9° da Lei n° 9.795/99, refere-se aos processos educativos que ocorrem nas escolas em todos os níveis e modalidades de ensino, acrescentando em seu art. 10° que não deve ser implantada como disciplina específica, mas trabalhada de modo a estabelecer uma relação entre todas as disciplinas o que propicia a compreensão da temática ambi- ental de forma mais plena, procurando construir uma nova mentalidade que ajude o homem a melhorar a forma como vem se relacionando com a natureza.
Também é importante ressaltarmos que os Parâmetros Curriculares Nacio- nais (PCNs) apresentam o meio ambiente como um “tema transversal”, o qual deve ser trabalhado em todas as disciplinas no período de escolaridade obrigatória.