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4 LEITURA E COMPREENSÃO DE TEXTO: processos cognitivos e

4.1 Concepções de leitura e suas implicações para aprendizagem

Este capítulo tem como objetivo identificar a concepção de leitura adotada pela formação continuada de professores através dos programas ofertados pelo MEC. Iremos abordar neste tópico as concepções que nortearam a prática pedagógica para o ensino de leitura. Desse modo, foi importante elaborar uma discussão, para se identificar uma concepção de leitura, como também o modelo de leitura. É necessário compreendermos como a formação do professor veio se constituindo ao longo dos anos.

Para tanto, é importante abordarmos as concepções de língua, sujeito, texto, leitura e leitor, a noção dessas concepções demonstra como o ensino de leitura se configura em cada uma delas.

As diferentes concepções de leitura demonstradas, a seguir, estão vinculadas à concepção de linguagem apresentada por Geraldi (2012), Marcuschi (2008), Koch e Elias (2010), Koch (2011), entre outros. A partir do que foi pesquisado, é importante que os professores conheçam as diferentes concepções de leitura também através da teoria.

Iniciamos pela concepção de língua como representação do pensamento, “o que significa que os estudos realizados sob essa perspectiva se voltam para o percurso psíquico da linguagem, porém sem relacioná-la com as estruturas sociais” (CAVALCANTE, 2008, p. 01). Essa concepção, conforme Geraldi (2012, p. 41), “ilumina, basicamente, os estudos

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Além desses, podemos citar: Silveira (2008). Os aspectos políticos e sociais; culturais, psicológicos, físicos e situacionais; ideológicos; históricos e etnográficos; semióticos; cognitivos e sociocognitivos; pedagógicos e instrucionais.

tradicionais. Se concebermos a linguagem como tal, somos levados a afirmações – correntes – de que pessoas que não conseguem se expressar não pensam”.

Logo, a concepção de linguagem como expressão do pensamento considera texto “como um produto – lógico – do pensamento (representação mental) do autor, assim o que cabe ao leitor/ouvinte é captar essa representação mental” (KOCH, 2010, p. 09-10). Nessa concepção, o texto é visto nessa concepção com um produto. Nessa concepção, de acordo com Koch (2011, p. 13), corresponde a um sujeito psicológico, individual, dono de sua vontade e de suas ações. Trata-se de um sujeito

visto como um ego que constrói uma representação mental e deseja que esta seja “captada” pelo interlocutor da maneira como foi mentalizada. Nesse sentido, o texto é visto como simples produto do pensamento (representação mental) do autor que apresenta para seu leitor captar a representação mental, juntamente com as intenções (psicológica) do produto, exercendo um papel passivo (KOCH; ELIAS, 2010, p. 10).

Por isso, o ouvinte não questiona o texto, apenas exerce seu papel passivo recebendo suas informações. De acordo com a concepção representação do pensamento, o sujeito “é psicológico de comportamento individual e fica sujeito ao sistema linguístico” (KOCH, ELIAS 2010).

Segundo as autoras o trabalho de leitura com foco no autor, é entendido como a “atividade que capta ideias do autor, sem levar em consideração as experiências e os conhecimentos do leitor” (KOCH; ELIAS, 2010, p. 10). Nessa perspectiva, a leitura, de acordo com Orlandi (1993), pode ser parafrástica ou polissêmica, que se caracteriza pelo reconhecimento (reprodução) de um sentido que supõe o texto (dado pelo autor). Esse tipo de leitura se baseia na recepção das informações dadas pelo autor.

A leitura caracteriza-se pela reprodução do sentido; com isso, o leitor simplesmente reconhece e não vai além dos sentidos que estão explícitos no texto. O leitor não compreende o que foi silenciado nos textos, pois, para ele, o silêncio não é compreendido como um processo de construção da significação.

Diante dessa discussão, o lugar do leitor não poderia ser outro a não ser passivo, pelo fato de sua participação durante a leitura de um texto meramente captar ideias do texto, estando o foco da leitura voltado para o autor e suas intenções.

Para dar continuidade à discussão à concepção de língua como instrumento de comunicação, o que significa discutir a língua a partir do código. De acordo com Cavalcante (2008, p.02), essa concepção considera a “noção de língua como um sistema abstrato, um

fator social, geral, virtual, cujas estruturas se completam, se superpõem e se relacionam”. Dessa maneira,

a língua era compreendida como um sistema homogêneo composto de vários níveis hierarquicamente distribuídos: fonológico, morfológico, sintático e semântico. Analisada como uma entidade abstrata, enquanto estrutura, a língua era observada sob o ponto de vista do sistema e o que se reconhecia nela era a forma e não o uso (MARCUSCHI, 2008, p. 59).

Nessa concepção, a língua “é estudada em suas propriedades estruturais e autônomas. Neste caso, é tomada como código ou sistema de signos e sua análise desenvolve-se na imanência do objeto” (MARCUSCHI, 2008 p. 56). Ou seja, seu estudo era inseparável do objeto que é a língua. Conforme Koch (2010), nessa concepção, o sujeito assume posições de predomínio e assujeitamento, dissociando o contexto e a situação, como também os aspectos sociais e históricos.

predomínio, senão exclusividade, da consciência individual no uso da linguagem. O sujeito da enunciação é responsável pelo sentido. Enquanto, a segunda posição, como demonstra Possenti (1993, apud Koch 2011, p. 14), o indivíduo não é dono de seu discurso e de sua vontade: sua consciência, quando existe, é produzida de fora e ele pode não saber o que faz e o que diz. Quem fala é um sujeito anônimo, social, em relação ao qual o indivíduo que, em dado momento, ocupa o papel de locutor é

dependente e, repetidor (KOCH, 2010, p. 14-15).

Na perspectiva, o sujeito é considerado, de acordo com Koch (2010), assujeitado ao sistema, caracterizado por uma espécie de não consciência. O princípio explicativo de todo e qualquer fenômeno e comportamento individual repousa sobre a consideração do sistema linguístico.

Conforme Koch e Elias (2010, p. 10), nessa concepção o sujeito é caracterizado como passivo, não utiliza seus conhecimento durante a leitura, pois as informações que ele precisa estão explícitas no texto. Nessa concepção o leitor tem a função de reconhecer o sentido das palavras e estruturas do texto.

Na concepção de língua a partir da visão estruturalista, o texto é visto como simples produto da codificação de um emissor a ser decodificado pelo leitor/ouvinte, bastando a este, para tanto, o conhecimento do código, já que o texto, uma vez codificado, é totalmente explícito (KOCH, 2010 p. 16). Nessa perspectiva, Marcuschi (2008) afirma que a escola trata o texto como um produto acabado funcionando como um container, onde se “entra” para pegar coisas.

Logo, tendo essa perspectiva de texto, o trabalho com leitura, segundo Kleiman (2008), está “correlacionado com a concepção escolar de ensino à medida que objetiva o domínio do individual do código” tornando-se a leitura uma atividade “mecânica de recuperação de informações do texto, tratada como um fim em si mesmo, uma simples aquisição de técnica. Valoriza o texto e minimiza a importância do leitor” (MACHADO, 2012, p. 61).

Sendo assim, a leitura é uma atividade que exige do leitor o foco no texto em sua linearidade, o reconhecimento do sentido das palavras e estruturas do texto. Segundo Koch, Elias (2010, p. 10), leitura é entendida como atividade de captação de ideias do autor sem levar em consideração as experiências e os conhecimentos do leitor, a ele (leitor), cabe o reconhecimento das intenções. O papel do leitor, portanto nessa concepção, é o mesmo da concepção anterior: passivo.

E, por fim, julgamos importante discutir é a concepção de língua interacional. Nessa perspectiva, influem considerá-la como lugar de interação humana. “Por meio dela, o sujeito que fala pratica ações que não conseguiria levar a cabo, a não ser falando; com ela o falante age sobre o ouvinte, constituindo compromisso e vínculo que não preexistiam à fala” (GERALDI, 2012, p.41).

Considerando a interação humana, conforme Bakhtin/Volochinov (1992), a língua se constitui em um processo ininterrupto, realizado através da interação verbal, social, entre interlocutores, não sendo um sistema estável de formas normativamente idênticas.

Nessa concepção os interlocutores realizam mentalmente suas atividades e, essas são conduzidas pelo sujeito para o meio social. Entendemos de acordo com Fuza (et al. 2011) que, na verdade, o que ocorre é que as situações ou ideias do meio social são responsáveis por determinar como será produzido o enunciado. Desse modo, a formação da expressão depende das condições sociais, assim, temos o social interferindo no individual. Essa visão dialógica da língua faz com que esta seja considerada “como uma ação orientada para uma finalidade específica [...] que se realiza nas práticas sociais existentes, nos diferentes grupos sociais, nos distintos momentos da história” (BRASIL, 1998, p. 20).

Assim, os sujeitos são vistos como agentes sociais, pois é por meio de diálogos entre os indivíduos que ocorrem as trocas de experiências e conhecimentos. O texto passa a ser considerado o próprio lugar da interação e os interlocutores, como sujeitos ativos que – dialogicamente – nele se constroem e são constituídos (KOCH, 2010, p. 17).

Visto, dessa forma, os sujeitos ativos, dialogicamente, se constroem e são construídos no e pelo texto, este considerado o próprio lugar da interação e da constituição

dos interlocutores. Nessa perspectiva, a leitura, é vista como uma atividade interativa altamente complexa de produção de sentidos. A leitura, nessa concepção, tem foco no autor- texto-leitor. No trabalho desenvolvido por Koch e Elias (2010), leitura é considerada como uma atividade de produção de sentido. Assim, a leitura não se prende aos elementos linguísticos, requer a mobilização de um vasto conjunto de saberes no interior do evento comunicativo. As experiências e os conhecimentos do leitor são fundamentais, não sendo, portanto, passivo. No processo de compreensão do texto, o leitor também atribui sentidos que advêm de conhecimentos outros que não necessariamente são os linguísticos.

Concordamos com essa perspectiva de leitura, que tem como foco a interação do autor-texto-leitor, embasada no dialogismo de Bakhtin, nessa concepção, a leitura é entendida como a atividade de captação das ideias do autor, deixando de levar em conta as experiências e os conhecimentos do leitor; já a que tem o foco no texto, é uma atividade que exige do leitor o foco na linearidade do texto, naquilo que está dito, posto.

A partir da concepção sociointeracionista, o processo da leitura ocorre por uma atividade em que o aluno produz sentido(s), agindo também como construtor desse sentido por interagir com o autor através do texto. Para alcançar a compreensão da leitura por essa que a concepção, o aluno poderá se utilizar das estratégias de leitura que auxiliam neste processo, de acordo com Solé (1998) são: seleção, antecipação, inferência e verificação.

Sendo assim, as estratégias de leitura surgem nos mais diversos tipo de leitura, e seus objetivos devem estar relacionados diretamente com as práticas discursivas em que os sujeitos estão inseridos: leitura por informação, leitura acadêmica, por prazer, por deleite, leitura para consulta (dicionários, catálogos), leitura por obrigação (manuais, bulas), leitura que caem em mãos (a exemplos dos panfletos) ou nos são apresentados aos olhos (outdoors, cartazes, faixas).

Considerado texto como evento, na concepção sociointeracionista, ele se encontra em permanente elaboração ao longo de sua história e das diversas recepções pelos diversos leitores. De acordo com Marcuschi (2008), língua é uma atividade sócio-histórica, cognitiva e sociointerativa, que assim se caracteriza como textual-discursiva na perspectiva sociointerativa, que considera o texto tanto em seus aspectos organizacionais como em funcionamento sob o ponto de vista enunciativo.

Nessa perspectiva, o leitor produz sentidos através das atividades orientadas por sua bagagem sociocognitiva. Portanto, ao considerar o leitor e seus conhecimentos, ele levar em conta o fato de que eles são diferentes entre si, o que implica aceitar que haja uma pluralidade de leituras e de sentidos em relação a um mesmo texto.

Ao considerarmos as concepções de língua no contexto educacional, elas de alguma forma se apresentam na prática docente. Assim, os professores devem, antes de qualquer atividade em sala de aula, considerar, segundo Geraldi (1996), que toda e qualquer metodologia de ensino relaciona-se a uma opção política que envolve teorias de compreensão e de interpretação da realidade com mecanismos usados em sala de aula.

Abaixo apresentamos um quadro-síntese com as concepções discutidas anteriormente. NOÇÕES 1 2 3 Língua Representação do pensamento Estruturalismo Instrumento de comunicação Processo de sentido e de interação entre os interlocutores Sujeito Individualista, responsável, passivo de fala representação mental do seu

pensamento. Produto de codificação e de decodificação do pelo leitor/ouvinte. Entidade psicossocial, agente.

Texto Produto lógico da representação mental do autor Produto de codificação de um ensino e decodificado pelo leitor/ouvinte Lugar da interação em que os interlocutores ressignificam sentidos. Leitura Parafrástica/interpretação mental do autor Parafrástica/decodificação do código Polissêmica

Leitor Passivo Passivo Ativo

Quadro 1: síntese das concepções de língua.

Observamos, a partir do quadro, que as concepções representação do pensamento e instrumento de comunicação podem ser consideradas como limitadores de atividades, pois consideram a participação do sujeito passivo durante a leitura do texto e a compreensão da leitura como parafrástica. Enquanto a concepção sociointeracionista se diferencia das demais concepções, por considerar o sujeito da interação e produtor de sentido, adquirido num processo de interação. Assim, percebemos que ler implica um ato de querer se informar e formar posições críticas, caminhos decisivos, formar opiniões possíveis na realidade social.

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