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Conciliando a lei com o costume – O tempo escolar

Capítulo II – ORGANIZANDO A VIDA ESCOLAR

2.4 Conciliando a lei com o costume – O tempo escolar

Uma questão que teve de passar pelo crivo da racionalidade foi o horário de início das aulas: a abertura das aulas às dez horas da manhã era o horário do almoço dos alunos, o que atrapalhava a pontualidade e a freqüência. Firmino Costa, no boletim Vida Escolar de 1º de agosto de 1907, refletindo sobre esse inconveniente, escreveu49:

Nada mais fácil que antecipar o almoço, poderão dizer-nos. Não é tal. Alem de ser sempre difficil mudar habitos antigos, viria isso alterar outras occupações relacionadas com a hora da refeição. Acontece, pois, que o menino, querendo ser pontual, ficará quase sempre sem almoço, ou almoçará ás pressas, o que é nocivo á saude. (VIDA ESCOLAR, p. 1, 1º ag. 1907)

A solução, para Firmino Costa, estaria em mudar o horário do início das aulas para as onze horas, como acontecia em São Paulo, “conciliando a lei com o costume”, pois a lei deveria combater os costumes prejudiciais à sociedade.

Uma nova racionalidade passa a configurar outra visão na utilização do tempo e do espaço escolar que, medidos, cronometrados e controlados, deveriam demonstrar o caráter de modernidade que se queria imprimir a partir da Reforma João Pinheiro. Firmino Costa

49

Em seu primeiro relatório de 29 de janeiro de 1908, Firmino Costa reapresentou, com as mesmas palavras, a necessidade que via na mudança do horário do início das aulas.

compartilhava esses ideais, defendendo o despontar de uma nova escola que, dirigida por princípios racionais e úteis, garantiria uma boa freqüência:

A escola [...] firmada no amor e na justiça para com os alumnos, funccionando em hora apropriada, respirando alegria e conforto, por certo attrahirá grande frequencia. E em certos dias terão os meninos razões especiaes para comparecer, como no dia do exame mensal, no da entrega dos boletins, no da distribuição de cartões de boas notas, no da apuração dos mesmos cartões, no dia deste ou daquelle brinquedo, etc.

(VIDA ESCOLAR, p. 1, 1º ag. 1907)

Firmino Costa, com atitudes racionais para o tempo escolar, sugeria que o período de férias, de feriados e dias santos fosse preenchido com outras atividades:

Férias

Em vez de férias longas, como há, que são muito prejudiciaes ao ensino e desnecessárias aos alumnos do curso primário, todos em geral residentes na sede escolar, eu estou que seria preferível houvesse quatro feriados durante o anno – feriados do Natal e Anno Bom, da Semana Santa, de S. João e de S. Pedro, da Independência Nacional. E assim também dever-se-iam considerar feriados os dias santos, que isso apenas importa em reconhecer um facto.Entretanto não approvo os feriados de quintas-feiras, que sem razão alguma vieram perturbar o ensino. Para pôr mais em evidencia a quantidade de feriados nas escolas publicas, basta attender a que neste anno, si descontássemos dias santos, quintas-feiras, domingos e dias de festa nacional, haveria I94 dias de aula contra 170 dias feriados!

(MINAS GERAES, 29 dez. 1909)

Prescrevendo os horários do tempo escolar que foram impostos aos professores, diretores, alunos e até mesmo às famílias pelos regulamentos de ensino, Faria Filho analisa que “esse processo ocorre no interior de um movimento social de racionalização do tempo, próprio às relações capitalistas que se estabeleciam”. (FARIA FILHO, 2000, p. 71)

Mas essa racionalização não aconteceu de uma hora para outra, sendo que uma reforma concreta voltada para o ‘tempo’ que se estendia desde a idade certa para iniciar o ensino primário, a extinsão da quinta-feira como feriado e à mudança do horário de início das

aulas, aconteceu somente em 1910, tendo sido anunciada pelo Secretário do Interior Estevão Leite de Magalhães Pinto, em um relatório apresentado ao Presidente do Estado, Wenceslau Braz Pereira Gomes:

[...]

No relatorio do anno passado, salientei que algumas reformas vinham sendo reclamadas para o dec. 1960, de 1906 pelo dec. 2.375, de 11 de janeiro do corrente anno, fizeram-se naquelle as seguintes modificações de detalhes: estabeleceu-se uma Segunda época de matricula, no inicio do 2º. Semestre escolar, – o minimo de 7 annos para a admissão dos alumnos nas escolas; alterou-se, de accordo com a lei que feriou as quintas feiras o numero de aulas que constituiam a frequencia legal e mudou-se para das 11 ás 3 o horario escolar.[...]

(MINAS GERAES, 04 e 05 jul., 1910)

Se essa racionalização temporal era aplicada para organizar o início das matrículas, o período de férias, a data dos exames finais e o término do ano letivo, escapava ao seu domínio e controle como os pais e os alunos viam e utilizavam esse tempo. Conscientizando e chamando a atenção, em um artigo denominado “Aviso aos paes”, sem autoria e publicado no boletim Vida Escolar, levantou o problema da pontualidade que, se não utilizada racionalmente, causaria muitos transtornos:

A impontualidade é um mal, que precisa de ser combatito entre nós; ella desorganiza por completo todo o trabalho; ella causa prejuizos e desgostos aos que chegam tarde e aos que ficam esperando; ella é uma grosseria que todos devemos evitar.

Ajudem-nos, pois, os paes, mandando seus filhos para o Grupo á hora marcada e não deixando assim que elles percam tempo tão precioso qual o do estudo. (VIDA ESCOLAR, p. 1, 1º maio 1908)

Não era permitida a entrada de alunos que chegassem depois do horário marcado para o ínicio das aulas e, para ser considerada legal sua freqüência mensal, ele deveria ter 19 presenças, podendo ter de 11 a 12 faltas, fora os dias santos e feriados. Esses dados vinham no

boletim do aluno, que recebia nota de freqüência, cabendo aos pais verificar se seus filhos alcançaram o número legal de dias. Portanto, das famílias dependiam também a regulamentação do tempo e, conseqüentemente, a ordem no espaço escolar. Tempo e espaço, intrinsecamente ligados, contavam com a ajuda dos pais para seu funcionamento:

[...] O que não póde ser é o pae deixar de acompanhar a educação do filho: é esse um de seus primeiros deveres. Amar ao filho não é só dar-lhe de comer e de vestir, não é só tratar delle nas doenças, é também preparar-lhe a intelligencia para as luctas da vida, seguindo com todo interesse e constancia o trabalho do menino na escola. (VIDA ESCOLAR, p. 1, 1º maio 1908)

Parceiras na educação e proteção da infância, escola e família deveriam trabalhar unidas para preservar o que era de direito e próprio do mundo das crianças: estudar e brincar. Conciliando esses dois tempos, na sala de aula e no pátio de recreio, conquistando os alunos, e ao mesmo tempo formando-os.

No relatório de 1913, num item específico denominado “Publicações”, Firmino Costa escreveu ao secretário do Interior apresentando a publicação para uso das escolas de “dois trabalhos didacticos”, um referente a uma coleção de cartões escolares, “Colecção F.C.”, e o outro, o seu primeiro livro a ser publicado pela imprensa oficial do Governo Estadual, O

Ensino Popular. Explicando de que constavam os cartões, o diretor declarou:

A ‘Collecção F. C.’ comprehende cem cartões escolares, de 0,m32 por 0,m25, proprios para as paredes das aulas e divididos em dez series de dez cartões cada uma, versando sobre os seguintes assumptos: maximas e pensamentos; preceitos de hygiene; escriptores brasileiros; lingua patria; instrucção civica; o corpo humano; as plantas; chorographia do Brasil; historia do Brasil, chorographia e historia do Estado de Minas Geraes. Offereço ao Estado a referida collecção, afim de que elle mande reimprimir para as escolas os exemplares necessarios, si v. exc. julgar o meu trabalho proveitoso ao ensino primario. (COSTA, 1914, p. 10-11)

Visitando uma das ex-diretoras do Grupo Escolar Firmino Costa, Ester de Carvalho Pereira, obtivemos cinco cartões que indicam ser dessa coleção e que aqui expomos, demonstrando a chamada de que os próprios filhos deveriam cobrar uma atitude de seus pais:

FIGURA 3 – Reclames Escolares n.2 / Série Verde / Grupo de Lavras Fonte: Arquivo Particular de Ester de Carvalho Pereira

Mas nem sempre esses direitos foram respeitados e, contra o tempo, muitos pais tinham pressa em ver os seus filhos já formados ou trabalhando, como escreveu Firmino Costa em seu livro O Ensino Popular:

Ha certos Paes, não faz mal dizer, que tratam a instrucção com muita pressa. Querem que seus filhos se livrem quanto antes da escola primaria, afim de poderem ir auxilial-os. É preciso que o menino trabalhe, ganhe dinheiro, e não convém aprender muito. Ou então tem elle de seguir carreira, e não póde demorar-se no estudo primário. Normalista aos 15 annos, bacharel aos 18, medico aos 19, eis o que parece, alguns Paes ambicionam para os filhos.Será isso conveniente ao futuro das crenaças?

(COSTA, 1913, p. 79)

O diretor, dividindo em duas partes essa sua introdução, primeiramente tratou da parte referente ao trabalho infantil, que a seu ver significava uma resistência à nova cultura escolar, sendo prejudicial à freqüência dos alunos na escola. Utilizando o serviço das crianças, os chefes de família matriculavam seus filhos ou protegidos, mas não os deixavam freqüentar regularmente a escola. Firmino Costa chegou a citar alguns fatos acontecidos com alunos do Grupo, para ilustrar e comprovar a exploração das crianças:

Um pobre pretinho, por exemplo, frequentava o Grupo, onde ia aprendendo com vantagem, quando sua protectora o tirou da escola para elle ficar em casa pageando creança. Por essa fórma, com umas roupinhas baratas e com uns pratos de comida, dá-se ao coitado do pretinho uma protecção valiosissima, fazendo delle um analphabeto, um tolo! (VIDA ESCOLAR, p. 1, 15 dez. 1907)

Intercalando esse exemplo com os escritos da parte do livro O Ensino Popular denominada A pressa, o diretor apresentou tempos distintos e próprios da idade: tempo para as ocupações escolares, para brincar e ainda ajudar em algum serviço em casa. Mas sacrificar todo o tempo da criança por um trabalho remunerado, trocando “a escola por alguns nickeis”, satisfazendo o egoísmo dos pais, para Firmino Costa era formar trabalhadores medíocres e ignorantes.

No boletim Vida Escolar, de 15 de outubro de 1908, um caso envolvendo trabalho infantil e freqüência foi apresentado, e transcrito na íntegra:

- Um pequeno e euPorque Você não vem á escola, Virgilio? ‘Estou ajudando papae a plantar roça.’

- Mas, Você faz mal em não vir á escola.

‘Então o sr. acha que eu não devo ajudar o papae?’

- Sim, Você deve prestar a elle os serviços proprios de sua idade e que não prejudiquem a frequencia da escola.

‘Assim como o papae quer, eu vou aprendendo a trabalhar e a ganhar.’ - É cedo para isso, Virgilio, tudo tem o seu tempo.

‘Papae disse que quanto antes, melhor.’

- Neste caso elle devia plantar roça dois mezes atraz afim de fazer colheita quanto antes.

‘Isso é outra coisa...’

- Qual outra coisa, Virgilio. Do mesmo modo que o milho tem seu tempo de plantar e de colher, porque de outra fórma deixa de nascer ou dá pouco, assim é o menino.

‘Então eu sou igual ao milho?’

- Eu explico melhor a Você. Esse crioulo José Felippe, que ás vezes trabalha para seu pae é um bobo – vive suando no cabo da enxada para ganhar dez tostões por dia.

‘O Sr. acha pouco?’

- Os dez tostões não chegam para elle tratar da familia e para comprar roupa, tanto que o coitado anda muito mal vestido. Porque é que elle não procura ganhar ao menos tres mil réis, Virgilio?

‘Não sei...’

- É porque elle somente sabe capinar e não entende de mais nada. Não é assim?

‘É assim mesmo.’

- Pois, Virgilio, Você vai indo no mesmo caminho do José Felippe; elle desde crioulinho andou ajudando o pae na roça e não frequentou escola. Eu segui outro caminho em meu tempo de menino: não falhava da escola, si bem que esta fosse ruimzinha em comparação do Grupo. Agora, Você escolha, ou continue fazendo como o José Felippe, capinando roça desde pequeno, ou faça como eu, vindo á escola emquanto é tempo. Entendeu, Virgilio?

‘Eu vou fazer como o Sr.’ - Então não falhe mais, ouviu? (VIDA ESCOLAR, p. 4, 15 out. 1908)

Além do racismo evidente, – “um pobre pretinho” e “esse crioullo” – o diálogo aconteceu entre uma criança e uma pessoa mais velha, um ‘senhor’, que pode ter sido o diretor ou um professor do Grupo Escolar.

Para Firmino Costa, era condenável aceitar a pressa de alguns pais de tirar seus filhos da escola antes que concluíssem o ensino primário, pois estariam sacrificando o futuro da própria família. Ele não via nenhuma utilidade no trabalho de uma criança ignorante, que

recebia qualquer pagamento pelo seu serviço e ainda mais o entregaria todinho para alguém: “O trabalho é nobilíssimo, ninguem contesta, mas o estudo é tambem um trabalho, e é o trabalho do menino em edade escolar.” (COSTA, 1913, p. 79)

Sendo a instrução primária a base de qualquer outro estudo, o diretor também condenava quem deixava o curso primário para ir fazer o curso ginasial ou o normal, pois em ambas as situações haveria um prejuízo futuro, seja financeiro, seja de aprendizado, previa o “amigo sincero da infância”, (COSTA, 1913, p. 80) que assim se autodenominava.

Para o controle e a contagem do tempo, o relógio passa a significar um objeto de fiscalização da pontualidade dos alunos, chegando mesmo a ser sugerido pelo diretor, em seu relatório de 1917, que fosse colocado “um regulador publico no predio escolar, cessando, por esta fórma, as desculpas baseadas nas differenças dos relógios”, (MINAS GERAES, 8 fev. 1918, p. 2) necessidade que poderia estar surgindo nas situações de tentativas de enganar o porteiro e burlar o horário.

2.5 “A ESCOLA MODERNA DEVE SER CARINHOSA”

A passagem de uma escola na qual era permitido castigar fisicamente os alunos que não tivessem bom comportamento ou até mesmo um bom desempenho escolar para outra em que deveria prevalecer a educação das crianças fundamentados no respeito, seria importante para atrair as crianças e manter a frequência.

Os professores deveriam, a partir da reforma de 1906, conquistar o prestígio perante os pais dos alunos, seja pela competência, seja também pelo carinho, fazendo da escola um

prolongamento do próprio lar. (MINAS GERAES. Regulamento da instrucção primaria e normal do Estado de Minas, 1906, p. 6)

Defendendo esse argumento, Susanna Alvarenga, professora de uma turma da oitava escola do sexo masculino, escreveu no boletim Vida Escolar de 15 de agosto de 1908 um artigo denominado “O carinho na Escola”, recordando a época em que os alunos eram castigados e viam os professores “com terror e aversão”, o que contribuía para faltarem à escola, pois eles não queriam estar em “contacto com aquelles que os maltratavam”.

A seu ver, houve uma mudança na maneira de educar os alunos, que passaram a ser tratados com “carinho e delicadeza”, sentindo prazer em freqüentar as aulas, aprendendo mais, pois não tinham receio de pedir uma explicação, pois eram atendidos pelos professores com interesse e boa vontade.

Procurando demonstrar que a escola era uma extensão do próprio lar do aluno, Susanna Alvarenga fez a seguinte abordagem:

O menino que em casa está habituado á doçura, chega á escola, encontra o mesmo trato, affeiçôa-se ao mestre e acaba por devotar-lhe sua inteira estima. Aquelle que, maltratado pelo pae, recebe carinho na escola, da mesma maneira que o outro ou mais que elle preferirá passar todo o tempo nesse logar de prazer a regressar ao lar. (VIDA ESCOLAR, p. 2, 15 de ago. 1908)

Com atitudes de carinho por parte dos professores convencidos de sua missão, as escolas transbordariam de crianças com rostos alegres e cheios de gratidão pelo bem recebido, concluiu a professora, mostrando uma prática pedagógica que certamente colocava em uso com seus alunos em sala de aula.

Antonio Baptista dos Santos, inspetor, em 1910, num de seus relatórios, referindo-se ao trabalho realizado por Firmino Costa no Grupo Escolar de Lavras, registrou, além de uma boa disciplina e ordem, a seguinte observação:

Em seu devotamento pela causa do ensino, que tomou sob a accepção de um verdadeiro sacerdocio, encontra facilmente o meio de conseguir a ordem e a disciplina no estabelecimento, no qual baniu qualquer especie de castigos violentos, de que usam alguns pedagogos retrogrados como instrumento disciplinador. Possue espirito sereno e é bom e carinhoso para com docentes e discentes.

(SECRETARIA DO INTERIOR, SI 3346, 1910)

Atitudes de carinho, educação e bem-querer deveriam fazer parte também da vida dos alunos fora da escola. Da coleção de cartões escolares, criados pelo diretor Firmino Costa com a finalidade de formação, encontramos a seguinte recomendação de bom comportamento que deveria ter um aluno:

2.6 REALÇANDO OS MÉRITOS DOS ALUNOS: O PRÊMIO COMO DISTINTIVO