Esta pesquisa tornou possível considerar que a questão da dignidade da pessoa humana é assunto comum tanto para a Doutrina Social da Igreja, através de suas encíclicas pastorais e sociais quanto pela doutrina do Direito. Ambas as instituições se esforçam sobremaneira para atingir o maior grau possível de eficiência e eficácia no esforço para garantir à pessoa humana todas as considerações otimamente possíveis, através de princípios e conceitos. Também não querem perder o foco das concretas efetivações desses princípios e conceitos, buscando sempre atitudes das pessoas sejam governantes, pensadores, políticos, lideranças comunitárias, enfim, toda comunidade internacional, nacional ou local.
A Igreja contribui de duas formas: primeiramente apresenta aos seus fiéis a questão religiosa do homem criado à imagem e semelhança de Deus, como o fundamento maior e único para se dar fundamento ao conceito de dignidade humana. Entende essa forma como princípio normativo. Num segundo momento, ela apresenta à sociedade, às suas governanças e lideranças, o princípio da lei natural pelo qual a pessoa humana possui sua dignidade por essência ontológica da sua prerrogativa como ser racional.
O Direito, por sua vez, veio aprofundar o desenvolvimento histórico do pensamento religioso e filosófico, assim como o núcleo ético dos costumes para conceituar a questão da dignidade da pessoa humana e suas possíveis formas de efetivação numa determinada comunidade social, com tempo e espaço diferenciados nos diferentes momentos históricos da sociedade.
Sob esse raciocínio, pode-se dizer que a Igreja privilegia o conceito religioso de pessoa humana, apenas utilizando a filosofia para explicá-lo, explicitá-lo e apresentá-lo à sociedade laica. Quanto ao Direito, ele se preocupa menos com a filosofia fundante do conceito de pessoa humana e se apóia preferencialmente na análise histórica da compreensão do conceito e das formas de fazer com que tal conceito seja efetivado na prática. Essa opção, pode-se dizer, deve-se à evolução histórica do conceito. A aplicação da dignidade humana só atingiu uma razoável fundamentação filosófica com as idéias inerentes ao Iluminismo americano, francês
e alemão no século XVIII, notadamente em 1789, quando da Declaração Francesa dos Direitos do Homem e do Cidadão e, mais concreta e socialmente reconhecidos, após os horrores da Segunda Guerra Mundial em virtude das violações dos direitos fundamentais da pessoa humana praticados no período em questão e que resultou na Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948.
Por conseguinte, a pesquisa permitiu entender a importância da dignidade da pessoa humana na história, no seu conceito e transcendência, tornando-se possível organizar didaticamente algumas das principais idéias expostas sobre o seu papel no mundo atual, sua primazia, centralidade, valor supremo e o modo como ela serve para estruturar o estado democrático de direito em geral. Esforça-se para um raciocínio jurídico na resolução de problemas em casos concretos, seja da doutrina social da igreja católica, seja da doutrina do direito.
A dignidade da pessoa humana, como postulado previsto no artigo 1º, inciso III, da Constituição Federal 1988, constitui um vetor de aplicação dos direitos e garantias fundamentais, embora seu conceito seja ainda questionado por parte da doutrina ou doutrinadores, mas é aceita pela maioria seja no âmbito nacional seja no internacional, em constituições e declarações, mesmo no cristianismo. Essa influência advém, principalmente, por causa dos direitos e deveres de todos os seres humanos pregoados pela doutrina social da igreja católica.
A aplicação e efetivação da dignidade da pessoa humana no caso concreto requerem conteúdos mínimos. O valor intrínseco é o elemento do qual decorre que todas as pessoas são um fim em si mesmas e não um meio. Aqui se encontra sua condição singular. Do valor intrínseco decorrem direitos fundamentais como o direito à vida, à liberdade, à igualdade física e psíquica. Já a autonomia da vontade é o elemento ético de autodeterminação, de fazer escolhas existenciais básicas e valorações morais, seja na dimensão privada ou pública, na espiritual ou material, na doutrina social da igreja católica ou na doutrina do direito.
Proporcionou-se também um momento de discussão e relação da dignidade da pessoa humana na doutrina social da Igreja Católica e o Direito. Na discussão, tratou-se do valor da transcendência, os binômios espiritual e material, histórico-cultural. Já na relação, apresentou-se o direito natural, valor absoluto, ordem social e bem comum, como elementos comuns das duas instituições pesquisadas.
A pesquisa ofereceu condições para dizer que a dignidade da pessoa humana é reconhecida como um postulado normativo de aplicação das demais normas constantes dos direitos e garantias fundamentais, constituindo um vetor de aplicação de tais comandos constitucionais. Também ela serve para a doutrina social da igreja católica, pois se refere à integridade total do ser humano; portanto, chegou o momento de os juristas, filósofos e teólogos trabalharem com mais efetividade a aplicação da dignidade da pessoa como forma de garantir e alicerçar a máxima efetividade dos direitos e garantias fundamentais asseguradas às pessoas em um estado democrático de direito.
Da pesquisa, portanto, resultou parecer possível responder que tais iniciativas primam a conceituação da pessoa humana em princípios filosóficos de média profundidade, colocando como epicentro apenas questões sociológicas de historicidade e minimizando princípios filosóficos de lei natural. Isso para se falar em questões menores, pois, se for querer iluminar-se pelos princípios e conceitos da doutrina social da Igreja haverá de ceder à concepção superior de que a dignidade da pessoa humana está no fato de que homem foi criado à imagem e semelhança de Deus e que, desse princípio, emana tudo o que a ele diz respeito, bem como de todas as iniciativas necessárias para que a sua dignidade seja respeitada e efetivada através de políticas e ações concretas de realização no tempo e no espaço de ontem, de hoje e de sempre.