É uma realidade que o trabalho dos enfermeiros se mostra cada vez mais complexo, com maior responsabilidade, o que lhe exige para além de uma sólida formação de base, uma aprendizagem contínua, profissionalizante e competência para agir em função dos contextos de trabalho.
A exigência de cuidados do doente crítico implica que a equipa garanta a segurança dos procedimentos de enfermagem. As inúmeras técnicas invasivas utilizadas no diagnóstico, na monitorização e no tratamento associado ao doente crítico exigem ter sempre presente a preocupação com o controlo da infecção. Nesse sentido, a passagem pela CCI foi essencial para nos diferentes estágios promover um ambiente seguro através de estratégias de garantia da qualidade e de gestão do risco, não só para segurança do doente, como também de todos os profissionais. Por sua vez, a passagem pela UCI e pelo SU permitiu a observação de qualificações muito específicas que são necessárias ao EEEMC, entre elas a rapidez para agir e assertividade que se exige perante o doente crítico. Para que essas qualificações concorressem para as competências específicas que procuro, em algumas ocasiões, foi necessário programar certos momentos de distanciamento dos procedimentos técnicos para que a capacidade de reflectir sobre as situações de trabalho e chegar aos diagnósticos de enfermagem fosse possível, pois tal como refere Fernandes (2007) aprender através da experiência apela sempre à exploração/argumentação do próprio conhecimento sobre a acção.
Benner (2001) comenta que aprender a ser enfermeiro, é aprender a encontrar os outros em vários estados de vulnerabilidade e de sofrimento, o que exige abertura e uma aprendizagem experiencial ao longo do tempo. De facto, independente da experiência profissional que detinha à chegada a este ensino clínico, perante os doentes críticos a quem prestei cuidados senti necessidade de ajustar comportamentos, não só no domínio da técnica mas também sobre todas as outras dimensões da pessoa que é alvo dos cuidados. Ao longo dos diferentes estágios considerei importante manter um desenvolvimento profissional que privilegia-se uma enfermagem autónoma com ênfase no desenvolvimento da capacidade para o diagnóstico e intervenções de enfermagem, por oposição a uma pratica que nos convida à modelagem e socialização com esquemas de trabalho pré-definidos.Tendo por base a formação teórica que recebi ao longo deste
curso de pós licenciatura e a bibliografia que consultei para dar resposta às necessidades que se apresentaram como novidade para mim, procurei não me centrar exclusivamente na componente técnica dos diferentes procedimentos que experimentei. Para tal, privilegiei aspectos importantes do domínio do exercício profissional que vão muito além da técnica, nomeadamente, a comunicação com os doentes e familiares, a escuta activa, o respeito pela privacidade e o sigilo profissional, por sua vez partes integrantes da relação de ajuda que a vertente teórica da disciplina de Enfermagem defende.
Entendendo por competência o estado de desenvolvimento/aquisição de conhecimento, habilidades, energia, experiência e motivação necessárias para responder de forma adequada e responsável aos imperativos profissionais da profissão de enfermagem (Roach, 1997), considerei que o ensino clínico se revestiu de grande importância, facilitando a consciencialização gradual dos diferentes papéis que o EEEMC é chamado a desenvolver e das competências requeridas para o seu desempenho. O principal desafio foi conceber dispositivos de reflexão sobre os sistemas de trabalho que permitissem a promoção do desenvolvimento cognitivo, manifesto por uma aprendizagem transformadora do próprio e do colectivo. As experiências significativas que este relatório procura retratar tornaram possível a apropriação activa do saber científico integrado ao saber da experiência, tendo permitido momentos de aprendizagem e partilha intensa que possibilitaram atingir os objectivos propostos e concretizar as actividades planeadas. Neste processo de aprendizagem tendo sido provocada a minha curiosidade foi possível o desenvolvimento do meu espírito de descoberta, a exploração das razões e a construção de novas lógicas de pensamento, básicas à obtenção de competências requeridas para o meu desempenho como EEMC e necessárias ao desempenho autónomo e eficaz que produza reflexos na qualidade dos cuidados e na segurança das práticas junto dos doentes.
A integração aos diferentes campos de estágio, entendida como o conhecimento da estrutura física, recursos materiais e humanos; o acolhimento por parte dos profissionais e a minha forma de estar perante um ambiente que me era desconhecido, foi facilitada pela disponibilidade das equipas que me receberam, manifesta tanto no interesse pelos objectivos do estágio em si, como pelo meu desempenho ao longo do mesmo.
Não sendo este curso de pós licenciatura um fim mas um meio, a consciencialização das dificuldades que surgiram permitirá no futuro uma maior
abertura para novas iniciativas ou ajuste de comportamentos, promovendo deste modo a evolução para a prestação de cuidados mais seguros e de maior qualidade. Até ao momento, a motivação, curiosidade e desejo de aprendizagem dispendidos neste ensino clínico, assente numa responsabilização activa e na capacidade crítico reflexiva, permitiu-me desenvolver competências que traduzem uma aprendizagem de um modo fundamentalmente auto-orientado e autónomo, dando-me ferramentas que considero que conduziram de forma contínua o meu processo de auto-desenvolvimento pessoal e profissional, garantindo alterações permanentes e consistentes na minha prática do cuidar com aumento da sua qualidade.
Finda esta etapa, tendo as dificuldades inicialmente previstas sido superadas, a elaboração deste relatório foi um processo gratificante que me permitiu demonstrar um papel activo no processo de construção do conhecimento.