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1 Considerações Finais
Percebeu-se, nesta pesquisa, que o estudo do comportamento do gato doméstico é muito complexo, visto abranger aspectos inúmeros locomotor, sensorial, territorial, alimentar, social, sexual, de comunicação, entre outros que podem ser abordados de várias maneiras; além de ser uma espécie com hierarquia social pouco definida e bastante variável, e de grande adaptabilidade na convivência com a própria espécie e espécies diferentes, e no meio ambiente em que vivem. Esta riqueza informações dificulta classificar padrões comportamentais nesta espécie e generalizá-los, exigindo, assim, um grau maior de observação, identificação e interpretação dos dados em estudo.
O estudo comportamental de gatos de população (que vivem em grupo) talvez seja a forma mais simples e eficiente de se entender melhor esta espécie, por se tratar de uma amostra relativamente fixa no que de refere ao meio em que vivem e aos membros que a compõem; contribuindo, desta forma, para esclarecer relacionamentos desta espécie com outras, principalmente com a espécie humana.
A preocupação com o bem-estar dos gatos, neste trabalho, teve origem na observação do número crescente de animais que são abandonados pelas ruas e, quando não morrem atropelados, envenenados ou por maus tratados, são submetidos a viver, muitas vezes por toda uma vida, confinados em abrigos de animais. Alguns têm a sorte de serem adotados, mas muitos destes retornam aos abrigos, pois quando um proprietário decide adquirir um gato possui, de forma inerente, expectativas de um relacionamento específico com este, estando grande parte do abandono deste animal vinculada à falta de conhecimento do comportamento e/ou manejo da espécie.
Um aspecto aqui identificado na relação social destes animais com o ser humano é que, definitivamente, os gatos não nos consideram uma ameaça, nos diversos aspectos comportamentais inerentes à espécie, nem tampouco um membro de sua espécie que possa despertar competitividade de qualquer tipo territorial, sexual, maternal, alimentar , nos considerando, certamente, bons e eficientes parceiros dividindo alimento, abrigo, afagos, funções (cuidados com as crias, defesa territorial) e quem sabe “professores”, o que é bastante recompensador e justifique algumas mudanças em seus padrões comportamentais para se adaptarem a esta relação tão benéfica para ambas as partes. Uma destas adaptações pode ser percebida no comportamento “pseudo-dependente” direcionado ao ser humano, o que os leva a se comportarem como eternos filhotes querem se alimentar com alguém ao
139 lado, pedem colo para “amassar pãozinho”, mendigam carícias, convidam para brincar com objetos, solicitam cuidados com a pelagem (escovações), etc.
Vale ressaltar que neste trabalho de pesquisa observou-se que gatos semiconfinados com acesso à rua, quando comparados aos confinados, semiconfinados sem acesso à rua e aos não confinados, mostraram-se mais instáveis emocionalmente. Eles exibiram ser mais predispostos ao estresse que os demais; é como se as diferentes e variadas condições às quais estão sujeitos (com as quais lidam) quando encontram-se confinados em um momento e não confinados em outro, os deixassem mais inseguros, como se as mudanças fossem muitas e rápidas e o tempo insuficiente para estas serem “processadas”e “administradas” adequadamente.
Percebeu-se, também, que os traços comportamentais vocalização, insegurança e agressividade foram os mais difíceis de serem mensurados, devido às suas inserções em diferentes aspectos comportamentais e situações. Que a cor da pelagem tem, com certeza, influência no temperamento do gato, mas de certa forma não afeta a sua relação social com outros gatos e com pessoas. Possivelmente contribuam de forma significante para sua sobrevivência procriação, caça, defesa territorial, defesa das crias, exploração e conquista territorial, entre outras. Talvez tudo isso se justifique pela própria estrutura social da espécie.
Apesar de já ter sido observada há décadas em mamíferos, o estudo da correlação do temperamento com a cor da pelagem em gatos foi bastante difícil neste estudo, por não haver trabalhos científicos suficientes que abordem este tema; tendo sido necessário buscar trabalhos em outras espécies, nas quais esta correlação já é mais conhecida.
Identificar, nestes animais, traços comportamentais no seu relacionamento social com outros gatos e com seres humanos é grande aliado, juntamente com o conhecimento do manejo e comportamento da espécie, para o sucesso nas adoções destes, escolhendo-se um animal cujo perfil temperamental mais se adéque ao estilo de vida de seu novo “parceiro” humano. Neste contexto e contribuindo para tal, o uso do questionário “Perfil Temperamental de Gatos de Abrigo” quantificou traços comportamentais individuais observados nos animais e na relação entre eles e com pessoas, proporcionando a definição do “Perfil Comportamental” desta população.
Esta pesquisa, como muitas outras na área de comportamento felino, trás alguns fatos já conhecidos, outros pouco estudados e outros novos. Uma contribuição importante foi o estudo dos traços comportamentais na relação social de gatos de abrigo sem raça definida com outros gatos e seres humanos conhecidos e desconhecidos. A identificação da correlação
140 do temperamento com a cor da pelagem e a definição do perfil temperamental do gato sem raça definida segundo a cor de sua pelagem, trouxe resultados científicos novos ao estudo do comportamento nesta espécie.
Este trabalho trás também como contribuição um questionário que identifica o perfil temperamental de gatos domésticos, individualmente, o qual pode ser usado na construção de um perfil comportamental de gatos na relação social com outros gatos e com seres humanos; podendo ser aplicado a qualquer população ou indivíduo desta espécie, determinando, também, características temperamentais referentes à cor da pelagem deste animal. Informações sobre o perfil temperamental contribuem para o bem-estar da espécie no convívio com outras espécies assim como em ambientes diferentes.
Sabe-se da origem genética do temperamento, entretanto estudos futuros mais detalhados (como os existentes em ratos, camudongos e raposas) são necessários, no que se refere à influência do temperamento na cor da pelagem (genética da cor: alelos, recessão, dominância), para que se possa conhecer e definir características temperamentais nas diversas cores de pelagens de gatos. Talvez, ainda, o padrão de distribuição da cor da pelagem locais do corpo em que se distribuem as cores e o percentual em que se encontram possa também ser fator marcante na cor da pelagem e sua correlação com o temperamento do gato doméstico, devendo ser considerado em trabalhos futuros.
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