Educar é crescer. E crescer é viver. Educação é, assim, vida no sentido mais autêntico da palavra. (TEIXEIRA, 1971, p.57)
Os acordos internacionais contribuíram para a implantação da lógica gerencialista, constituindo o PDDE, na sua concepção, estruturação e gestão, pela perspectiva da otimização de recursos, das ações focalizadas e da realização de parcerias privatizantes. Ainda que o PDDE tivesse como objetivo a redução das desigualdades regionais no sistema educacional brasileiro, sua lógica pautava-se na perspectiva de que as escolas buscassem recursos privados com o FNDE ocupando um lugar de mera suplementação dos recursos.
Apesar de um dos objetivos do PDDE consistir na redução das desigualdades socioeducacionais mediante a transferência direta de recursos financeiros para a escola, é importante reconhecer que a União empreende uma pequena participação nos investimentos para a promoção da melhoria pedagógica e manutenção da infraestrutura, nas redes de ensino municipal e estadual e educação especial privada.
Contudo, superar as desigualdades regionais presentes no sistema educacional brasileiro exige que a União exerça o protagonismo frente à política de financiamento, sob o risco de se fragilizar o pacto federativo previsto na legislação brasileira. Assim se observa um centralismo e a necessidade de se implantar um financiamento baseado no custo aluno qualidade.
De fato, o processo de transferência direta de recursos financeiros para as escolas pretende garantir a eficiência, a transparência e o controle da União sobre as políticas de financiamento, mas sem comportar um processo de participação dos que estão envolvidos na execução da proposta educacional. Além de reduzidos, os recursos financeiros advindos da União se constituem por definições previamente estabelecidas pelo poder central, distanciando- se das proposições de municípios e estados, da diversidade de um país com dimensões continentais como o Brasil e do pluralismo sociocultural que marca o sistema educacional.
A análise do estudo buscou questionar o PDDE como modelo de investimento direto da União nas escolas da região Norte e especificamente em Roraima. De maneira geral, percebeu- se que a criação de UEx’s permitiu que mecanismos heterônomos proporcionassem a consolidação de critérios de responsabilização da gestão, para implantar uma nova concepção de AED, com proposta democratizante, mas que não dá uma verdadeira gestão autônoma da escola, e sim institui uma política ideológica que fomenta a iniciativa privada na escola.
Em que pesem os argumentos democratizantes, promotores do processo de descentralização do sistema educacional, a política de financiamento da educação pública brasileira pouco modificou as condições históricas que prevalecem na realidade socioeducacional de Roraima.
Considerando o processo sócio-histórico de ocupação da região Norte, destaca-se que o PDDE necessita estar articulado com outras ações, para superar os desafios e das possibilidades colocadas para a gestão dos sistemas de ensino e unidades escolares. Isso pode ser verificado quando se analisa os dados de Roraima. O PDDE pouco atende ao objetivo de reduzir as desigualdades em Roraima. Neste estado, a maioria das escolas são rurais e indígenas, ressentindo-se das exigências impostas que, ao contrário de viabilizar condições de financiamento, tornam-se um empecilho para que o recurso chegue às escolas.
Isso implica dizer que os processos educacionais expressam as condições históricas de constituição socioeconômica presentes na região Norte. Portanto, é importante considerar, sobretudo em relação ao financiamento, a necessária articulação entre os processos educacionais e as condições históricas da formação social brasileira, que necessariamente não passa somente pelo investimento, mas todo o conjunto de ações para a qualidade do ensino, como o destacado por Dourado, Oliveira e Santos (2007).
Assim, o financiamento dos processos educacionais articulado às especificidades das regiões brasileiras pode resultar na superação das desigualdades, mas é preciso compreendê-lo frente aos desafios estruturais de cada localidade. Pode-se considerar que a concepção e operacionalização tenha se estabelecido aquém da formulação de um objetivo tão abrangente como a redução das desigualdades, porque o PDDE cumpria mais o preceito político-ideológico de controle e de contenção de recursos do que a melhoria da qualidade dos sistemas de ensino em que se encontram educadores (as) e educandos (as).
Portanto, observou-se que o PDDE tem um discurso de redução das desigualdades quanto ao seu objetivo, mas não criou condições necessárias para alcançá-lo. Por outro lado, pode ter sido ao longo dos anos, contaminado com ideias de mercado e responsabilização, e que se tornou muito mais importante. Neste sentido, o PDDE tem uma ligação com a teoria do capital humano, enquanto tratar a educação como mercadoria e benefício individual, e que acaba prejudicando a ideia de educação como direito social.
Neste sentido o programa implementou valores de mercado na administração escolar e de responsabilização, no entanto, este modelo não pode colocar a educação sob à lógica do processo individual. Contudo, as escolas são um bem público, e o PDDE vem propagando uma ideia de escolas para uma cultura de mercado, mas não enquanto finalidade social.
Em Roraima, observa-se que nas escolas rurais, principalmente as situadas em áreas indígenas, possuem especificidades muito particulares, não consideradas pelo PDDE, devido aos procedimentos normativos e às exigências de responsabilização da gestão das escolas para a criação de UEx’s, mas este modelo de financiamento desconsidera as particularidades regionais para a obtenção de recursos públicos advindos do PDDE, que são desconsideradas. O programa precisa respeitar e se adequar ao modelo. Além disso, buscam induzir a gestão das escolas públicas à realização de parcerias privatizantes, que negligenciam a realidade histórica, social, econômica e política de Roraima, assim como de toda a região Norte.
Assim, o financiamento educacional das escolas deve considerar várias outras medidas para a redução das desigualdades, inclusive pelo próprio PDDE.
As condições educacionais da região Norte e, especificamente de Roraima, demonstram que a centralidade que o PDDE assumiu para a política de financiamento distancia-se das possibilidades de minimização das desigualdades regionais no Brasil. O PDDE deixa de beneficiar muitos alunos, sendo que muitas escolas de Roraima e da região Norte não tem acesso a este financiamento. Para a conquista de universalização da educação pública, gratuita e socialmente referenciada, é preciso atender às necessidades de infraestrutura e manutenção para a superação das desigualdades; assim, o PDDE precisa estar articulado com outras ações. Observou-se que muitas escolas apresentam dificuldades na administração da UEx. Existem ainda as escolas que, por inadimplência e falta de apoio governamental tanto em nível federal quanto estadual e municipal, encontram dificuldades para se tornar aptas a receber e gerenciar o recurso advindo do PDDE.
Observa-se, portanto, a necessidade de um atendimento mais específico por parte do FNDE, ao considerar as desigualdades regionais. Sobretudo no caso de Roraima, são muitas as contradições a serem superadas, que apontam para a necessidade de um financiamento venha a garantir o ensino público gratuito e de qualidade, respeitando as especificidades regionais.
Sem considerar as condições sócio-históricas que marcam a caracterização rural e indígena das escolas públicas roraimenses, as exigências tanto em relação ao estabelecimento de UExs quanto à imposição de normas, critérios e processos revelam que o PDDE se constitui como instrumento que restringe, e não que potencializa, a qualidade de ensino. Os dados demonstram que os recursos do PDDE são ínfimos e que pouco atendem à realidade da educação pública roraimense, evidenciando que, de fato, seu objetivo de redução das desigualdades regionais era inócuo. Maior interesse cumpria o fator político e ideológico de fomentar UEx’s, que incentivassem relações privatistas por dentro da gestão dos sistemas e das unidades escolares.
O caráter redistributivo e suplementar constitucionalmente previsto tende a assumir um sentido que tangencia os objetivos de equalização das oportunidades educacionais e do padrão mínimo da qualidade de ensino. E a hegemonia neoliberal tornou as políticas sociais como não exclusivas do Estado, ou seja, a Reforma retirou direitos, sob a alegação que a publicização traria melhora na educação com financiamento direto das escolas. Acontece que onde as desigualdades são maiores, como na região Norte, muitas escolas ficam sem o recurso, impedindo a superação destas desigualdades.
Além disso, verificou-se o desrespeito à legislação a partir de 2013, quanto ao financiamento da gestão escolar para a redução da redução das desigualdades socioeducacionais regionais, através do PDDE, pois os recursos são oriundos da quota-federal do salário- educação, conforme previsto no artigo 15, inciso I, da Lei nº 9.424, de 24 de dezembro de 1996 e art. 9º, inciso I, Decreto nº 6.003 de 28 de dezembro de 2006, que regulamenta o § 5º do art. 212 da Constituição Federal de 1988.
As conclusões prosseguem em relação às análises já realizadas, às perspectivas e aos desafios do PDDE, o qual é proposto como mecanismo de redução das desigualdades. Salienta- se que o PDDE serviu como instrumento de reforço político-ideológico da hegemonia neoliberal de otimização de recursos, de focalização das demandas e de descentralização da gestão.
Nesse sentido, seu objetivo de redução das desigualdades regionais foi negligenciado, considerando a região Norte e, especificamente, o estado de Roraima, como expressões de uma política que se distância de um projeto democrático-popular de educação e de sociedade, voltado aos interesses da classe trabalhadora.
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