À luz da grande variedade de espiritualidades cristãs ativas hoje, algumas das quais são inadequadas ou até mesmo deformadas, é absolutamente necessário que voltemos às nossas raízes em Jesus e à comunidade inspirada pelo seu Espírito no primeiro século para reorientar a nossa própria espiritualidade.
Em contraste marcado entre muitas espiritualidades tradicionais, a Bíblia não permite as distinções que normalmente fazemos entre o interno e o externo, ou entre o espiritual e o material, ou entre acreditar e fazer. Para muitos, a comunidade de Madre Teresa de Calcutá é um exemplo de uma espiritualidade autenticamente cristã. Para Madre Teresa, tocar os intocáveis era tocar o corpo de Cristo. Amar de maneira altruísta era, para ela, um tipo de oração. Ela não parou de orar para servir, ela também não parou de servir para orar. Uma espiritualidade autêntica abrange o todo.
A cruz de Jesus é o modelo mais claro de uma espiritualidade autenticamente cristã. Ela é ao mesmo tempo um sinal de identificação absoluta com Deus e uma expressão da solidariedade de Deus com a humanidade. Na cruz, o Espírito de Jesus está refletido da forma mais clara.
É essa espiritualidade que os seus discípulos são chamados a praticar. A cruz é simultaneamente a oração de intercessão mais eloquente ao Pai em nome da humanidade, e a resposta mais clara e poderosa de Deus aos poderes do mal.
Na cruz de Jesus, e na cruz suportada pelos seus seguidores, encontramos a própria essência da espiritualidade cristã.
Uma espiritualidade cristã verdadeiramente autêntica, portanto, não será disforme. Ela terá formas verdadeiramente visíveis e salvíficas. A espiritualidade cristã é o processo de seguir a Jesus Cristo sendo inspirado pelo Espírito no contexto de uma vida compartilhada com a comunidade messiânica. Por essa razão, a espiritualidade cristã é trinitária: é vivida em dependência absoluta de Deus o Pai, orientada em direção ao modelo de Jesus, e vivida sob o impulso e a inspiração do Espírito Santo.
Uma espiritualidade verdadeiramente cristã – como a que vemos refletida na comunidade messiânica do primeiro século – está sobretudo enraizada na graça de Deus e expressa concretamente em seguir a Jesus. Isso significa que toda a nossa vida é vivida no poder do Espírito do próprio Jesus Cristo. Uma espiritualidade verdadeiramente cristã será nutrida e compartilhada no contexto da comunidade do Cristo vivo. Da perspectiva bíblica a ideia de um “santo solitário” não é uma possibilidade.
Por fim, uma espiritualidade verdadeiramente cristã será encarnada na missão – missão de Deus no mundo executada com clareza e poder únicos pelo Jesus de Nazaré, vivendo pelo impulso e a inspiração do Espírito de Deus.
Para aqueles de nós que compartilhamos a tradição anabatista radical, é especialmente interessante notar os pontos que se sobrepõem entre os anabatistas do século XVI e a espiritualidade da comunidade de cristãos primitivos do primeiro século. O mesmo pode ser dito a respeito dos
herdeiros de outras tradições cristãs, igualmente radicais em sua espiritualidade enraizada em Jesus Cristo e na comunidade messiânica do primeiro século. A espiritualidade que caracterizou o movimento anabatista dependia da intervenção poderosa do Espírito do Cristo ressurreto. Mas o que mais diferenciava os anabatistas das outras tradições eram sem dúvida suas práticas e entendimento de Igreja – para eles, a participação na comunidade cristã era absolutamente essencial. As dimensões ricas e variadas dessa participação refletiam-se nos quatro símbolos de comunidade que marcaram a espiritualidade coletiva dos anabatistas.
Através do batismo os anabatistas se comprometiam a seguir a Cristo, a “andar na ressurreição,” e a viver na
“obediência da fé” conforme eles mesmos confessavam.
Mas eles também se viam completamente incumbidos a participar da missão de Deus no mundo. E isso, em contraste marcado com outras tradições, era privilégio de todos os cristãos, não simplesmente do clero. No batismo, os anabatistas também se comprometiam a receber e oferecer conselho e disciplina de acordo com a “ordem de Cristo” (Mt 18.15-20), e eles se comprometiam ao compartilhamento mútuo – ajudando uns aos outros com as suas necessidades materiais bem como espirituais. Em suas celebrações da Ceia do Senhor, os anabatistas renovavam os seus votos de seguir a Jesus até mesmo ao ponto de entregar as suas vidas por outros seres humanos, assim como Jesus entregou a sua vida.
Eles confessavam que Jesus não deveria apenas ser reverenciado com salvador ou como o Juiz Final, mas também como o Senhor a ser seguido em uma vida de discipulado diário. A sua espiritualidade era marcada por essa visão. A sua participação no reinado de Deus, no qual Jesus já era Senhor, levou os anabatistas a adotar uma espiritualidade caracterizada por justiça e paz, assim como Jesus havia proclamado e praticado. Tudo isso levou os anabatistas a adotarem, em um nível notável para a sua época, uma espiritualidade marcada pela vocação missionária indicada no seu entendimento a respeito do batismo.
Os herdeiros espirituais da Reforma Radical do século XVI certamente não têm o monopólio sobre esse tipo de espiritualidade. Todos aqueles que são trabalhadores no vinhedo do Senhor têm contribuições a fazer para com a recuperação da espiritualidade cristã refletida na vida da Igreja primitiva. Nem a ortodoxia, nem a heterodoxia passam automaticamente de uma geração a outra. Assim, cada nova geração tem a oportunidade e a responsabilidade de envolver-se mais uma vez em diálogo mútuo em sua busca pelas novas formas que uma espiritualidade autenticamente cristã tomará em seu meio.
No sentido de que uma espiritualidade cristã consiste em seguir a Jesus de Nazaré sobre o impulso do Espírito, há apenas uma espiritualidade. Porém, no sentido de que cristãos buscam seguir a Jesus cada um em seu próprio contexto histórico, é possível que haja uma diversidade de espiritualidades cristãs. Essas diferenças são encontradas na
variedade de contextos históricos, geográficos e culturais nos quais o discipulado é praticado. Todas as nossas espiritualidades, sem exceção, podem ser enriquecidas – graças a Deus! – através das contribuições de irmãos e irmãs de outras tradições.
Sem dúvida, os elementos essenciais de uma espiritualidade autêntica que notamos em Jesus e na Igreja primitiva serão de longa validade. Dentre outras coisas eles incluirão um papel vital do Espírito, uma vida de igreja que é comunal, corporativa, verdadeiramente transformadora, um entendimento de Cristo e da salvação que são verdadeiramente salvadores – isto é, nos reconciliando com Deus e com outras pessoas, incluindo nossos adversários – e relacionamentos comunais marcados pela justiça e paz que caracterizam uma vida debaixo do reinado de Deus.
Essa é a comunhão restaurada da nova criação que proclamamos em obras e palavras na vocação missionária da qual compartilhamos.