Considerações Finais, Limitações e Apontamentos para o Futuro
Ao longo deste estudo buscamos informações que permitiram caracterizar as principais modificações empregadas ao ambiente competitivo de jovens entre 11 e 14 anos de idade, em competições realizadas no ano de 2016, no estado de São Paulo, Brasil.
Dentre as principais modificações, percebemos que as adaptações orientadas ao momento defensivo do jogo são predominantes, tendo como principal objetivo a oferta de espaços defensivos mais amplos, uma vez que as percepções dos entrevistados justificam a adoção destas estratégias como forma de promover um jogo mais dinâmico e que possibilite maio êxito e aprendizagem ofensiva, aspecto mais ajustado aos interesses de jovens desta faixa etária segundo os estudos encontrados para discutir estes achados.
Treinadores e árbitros justificam a restrição percebida nos regulamentos ao uso do sistema defensivo 6:0, por entenderem que este tipo de organização defensiva faz predominar a defesa sobre o ataque, por meio de condutas defensivas que limitam a possibilidade de exploração dos espaços defensivos e que interferem significativamente na dinâmica do jogo, pois afetam aspectos relacionados à oferta de possibilidades de se pontuar a agir no jogo, influenciando negativamente a possibilidade de engajamento dos jovens.
Mesmo assim, conscientes destes aspectos, treinadores são apontados como responsáveis por agir de forma contraditória a estes pressupostos movidos pela necessidade de vencer. Apesar dos treinadores serem os responsáveis pela escolha das modificações implementadas aos regulamentos estudados, o sentido pedagógico preterido pelas modificações por eles inseridas nas competições perde sentido devido às transgressões e atitudes que buscam obtenção de vantagens competitivas realizadas por eles mesmos.
Diante das fragilidades encontradas nestes regulamentos, que estão diretamente associadas ao uso do sistema defensivo obrigatório, aos momentos de cobranças de tiros livres e aos momentos de assimetria numérica típicas do jogo de handebol, um círculo vicioso de condutas contrárias aos objetivos pedagógicos propostos se instaura nestas competições.
Entendemos que uma das limitações que possam ser apontadas a este estudo seja a ausência de observação direta dos jogos, o que poderia oferecer mais um ponto de vista acerca do fenômeno estudado, entretanto, a utilização de três distintas fontes empíricas, uma não- reativa, oriunda do exaustivo estudo sobre os regulamentos das competições levantadas e duas reativas, obtidas a partir das entrevistas realizadas com treinadores e árbitros, pudemos entender de forma cabal os processos relacionados à definição dos regulamentos adaptados e à sua
aplicação competitiva. Substancialmente, após termos os pontos de vista de treinadores e árbitros, intencionalmente inseridos no estudo para serem pontos de vista conflitantes, mas que acabaram por se complementar e em responder dúvidas acerca da interpretação realizadas dos documentos, temos a consciência do alto grau de confiabilidade e de validade dos dados apresentados, suplantando a necessidade de observação dos jogos in loco.
Ao retratar as contradições entre os princípios pedagógicos que norteiam a construção de regulamentos adaptados e sua aplicação real, este estudo aponta também para um fato que pode fomentar futuras intervenções de cunho aplicado e também no sentido de promoção de novas investigações: as entidades promotoras de competições de jovens, que abrem espaços para que treinadores debatam este tema, devem adotar uma postura mais propositiva, de modo a apresentar evidências que transformem as condutas dos treinadores para que elas estejam em acordo com metas de aprendizagem e engajamento dos jovens na prática do handebol.
Entendemos, diante dos resultados apresentados, que esta é uma importante função destas entidades: promover ambientes mediados de discussão sobre as adaptações regulamentares e suas aplicações, uma vez que os conhecimentos oriundos da prévia experiência profissional dos treinadores, dos ambientes de debate entre pares (cenários de formação não-mediadas) e mesmo as opiniões expressadas neste estudo, que caracterizam-se como frutos do processo de reflexão sobre a prática profissional (cenário de formação interna), não têm sido suficientes para orientar as condutas dos treinadores para que as competições possam se caracterizar também como um ambiente de aprendizagem esportiva.
Isso nos motiva a realizar futuros estudos que possam investigar os resultados da transformação competitiva diante da promoção de ambientes de discussão mediadas que se associem a outras fontes de educação e formação do treinador esportivo de jovens.
Esperamos, desta forma, que a realidade associada às competições de handebol de jovens realizadas no estado de São Paulo, Brasil, tenha sido apresentada de forma mais explícita, de modo a contribuir para que novos estudos, discussões e, principalmente, intervenções sobre o ambiente competitivo tenham neste trabalho uma fonte confiável de informações que ajude no melhor delineamento e aplicação de competições adaptadas ao público jovem.
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