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CLOV: (olhar fixo, voz neutra) Acabou, está acabado, quase acabando, deve estar quase acabando. (Pausa) Os grãos se acumulam, um a um, e um dia, de repente, lá está um monte, um amontoado, o monte impossível. (Pausa) (BECKETT, 2010, p. 38).

Vou tentar indagar menos a questão do fim, do fato de estar acabando. Não quero começar com divagações novamente, não agora. Mas confesso, em muitos momentos achei que seria impossível... No agora, quero tentar entender este ponto, este fim, compreendê-lo como um breve fechar de ciclo que, ao mesmo tempo em que encerra um processo, dispara a continuidade de outro. Parece-me que o fim é passagem, apenas um outro lado do início.

Onde tudo estava e para onde tudo foi? Lá no começo buscava-me em Demetrio, Grotowski, procurava, a partir deles, desvelar possiblidades e entendimentos sobre a voz no que tange relações entre palavra e corpo. Desejava tecer com a palavra escrita, que tanto me é cara, diálogos de poesia para esta caminhada, esta cartografia, para estes encontros. Almejei, sem nenhuma presunção ou vaidade, que a leitura fosse boa para você, leitor, assim como é, foi, a escrita para mim. Ansiei que lhe desse prazer estar com as minhas palavras e as questões que delas ebuliam.

Chego em um pedaço de mim, e espero que esta parte possa dialogar com você, levar-te para algum lugar em ti. Identifico que, o que fora estudado, pesquisado em Grotowski e Stratos, acaba por validar uma busca que já se fazia em prática e que havia me esquecido, ou talvez não tivesse dado atenção, não com estes olhos de agora. É como sair da casa onde morei na infância e voltar para ela depois de crescido, depois de um bom tempo decorrido. A casa deixou de ser a mesma, sendo ainda a mesma.

Lá fora conheci outras pessoas, outras casas, portas, janelas, quartos distintos me abrigaram. Ao voltar para o lar infantil, noto que o batente da porta que me parecia tão imenso hoje não é tanto assim, o teto distante parece que se aproxima de mim. As paredes têm histórias de outros tempos para me contar. Conto novos causos a elas e tudo parece que faz mais sentido. A voz almejada estava sendo cozida desde muito nesta casa antiga. Lá fora busquei novos temperos para incrementar o almoço, chamei gentes de muitas paragens a fim de que eles se juntassem à mesa comigo para um chá, uma boa conversa.

A casa, hoje, é renovado abrigo. Voz corpo e palavra habitam, cantam, conversam, ressoam em harmonia e dissonância por cômodos antes abandonados. A volta para “Kaspar” fez com que eu o olhasse deste lugar, da voz e suas possibilidades, questão que em 2009 ficou mal resolvida. No entanto, como escrito, voltei a trabalhar sobre tais em 2010, e elas se efetivaram enquanto mudança em pesquisa prática, em sala. Houve tempo, então, para explorar a voz, buscar por suas especificidades. Mas o tempo é sábio em levar as lembranças para o porão das memórias...

Havia me esquecido de “Kaspar”. Ele já existia. Mas eu insistia em querer algo novo, uma criação a partir do que vinha sendo pesquisado no mestrado. Ingênuo, pois, no fundo, o mestrado havia surgido das questões fervilhadas pela prática, das buscas que se deram no final de 2009 e início de 2010. “Kaspar” é a casa revisitada. A morada onde retorno depois de alguns anos. Volto, mas não só. Trago comigo Grotowski, e uma outra percepção do corpo; Stratos, com tantas outras possibilidades para voz; amigos desta jornada, companheiros que conversam pelos cômodos, contam suas experiências e alargam as minhas.

Demetrio iniciou a visita pela boca, desta partiu para o corpo, partiu o corpo em som. Esganou as palavras, não as disse, apenas cantou o som, a voz, e foi cantado por ele. Grotowski já era visita antiga, mas não menos importante. Com certa intimidade começou pelo corpo, apresentou este como sendo via, caminho para o entender da voz, ressoou, vibrou as estruturas, trincou paredes e as refez com seus cantos.

A casa é outra, “Kaspar” também o é, assim como para mim são Grotowski e Stratos. Não penso neles como objetos, como pessoas que me foram úteis. Não, não uso deles, converso com eles, e aqui talvez resida uma importante diferença na presença de ambos em mim, nesta casa. Os dois deixam cá uma mudança no olhar frente à voz e as relações com a palavra e o corpo. Mais do que qualquer possibilidade de utilitarismo de seus princípios ou uso de seus procedimentos, deles, fica o olhar, o anseio pelo alargamento da voz enquanto vida, enquanto via, para que talvez se possa, com a voz, chegar em um lugar para além da própria voz.

Neste fim aparente, um outro começo se inicia. A casa deve passar por reforma em breve. Como desdobramento, o mestrado me leva ao encontro do francês AntoninArtaud (1896-1948), suas buscas pela palavra fora da palavra, por uma voz fora dos registros ditos comuns no teatro, pelo dizer da vibração dos sons das palavras. Este Artaud místico e misterioso cativa meu olhar ao afirmar que “aquilo que o teatro ainda

pode extrair da palavra são suas possibilidades de expressão fora das palavras, de desenvolvimento no espaço, de ação dissociadora e vibratória sobre a sensibilidade” (ARTAUD, 2006, p. 101), uma questão que vai ao encontro daquilo que cá foi manejado.

Assim como Grotowski e Stratos, Artaud viveu intensamente seu fazer artístico, em muitos momentos, radicalizou a vida por crer veemente na sinceridade de suas pesquisas. Seus escritos, que ainda conheço pouco, e apenas por primeiras leituras, mostram-me um ser passional, forte, arredio e poético. Artaud me instiga novas buscas. Quais qualidades, camadas ele pode inserir à minha voz? Que manejo pode propor as palavras? Que pensa do corpo?

O diálogo – coisa escrita e falada – não pertence especificamente à cena, pertence ao livro: a prova é que nos manuais de história literária reserva-se um lugar para o teatro considerado como ramo acessório da história da linguagem articulada. Digo que a cena é um lugar físico e concreto que pede para ser preenchido e que se faça com que ela fale sua linguagem concreta. Digo que essa linguagem concreta, destinada aos sentidos e independente da palavra, deve satisfazer antes de tudo aos sentidos, que há uma poesia para os sentidos assim como a poesia há uma poesia para a linguagem e que a linguagem física e concreta à qual me refiro só é verdadeiramente teatral na medida em que os pensamentos que expressa escapam à linguagem articulada. Perguntar-me-ão que pensamentos são esses que a palavra não pode expressar e que, muito melhor do que através da palavra, encontrariam sua expressão ideal na linguagem concreta e física do palco. Responderei a esta pergunta um pouco mais tarde (ARTAUD, 2006, p. 36).

Aguardarei pelo “mais tarde”, Artaud. Agora, vamos descansar um pouco... As buscas não findam. Apenas acham paradas momentâneas, sombras frescas onde possam permanecer por um tempo, respirar com mais calma. As perguntas, logo em breve, aguçarão novos movimentos, não respostas, mas movimentos. E quem sabe nestas idas e vindas, Artaud, possa surgir em casa; venha como visita convidada e fique como hóspede, sem pressa para seguir viagem.

Que esta casa seja abrigo de encontros, e que nestes possamos nos conhecer cada vez mais. Sou muito agradecido por seus olhos terem se encontrado comigo!

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