DISCUSSÃO E CONCLUSÃO FINAL
CONCLUSÃO FINAL
O índice crescente de escolaridade dos pais e a influência desta na educação dos filhos, complementados com o papel actual da escola, serão em grande parte responsáveis por uma melhoria muito significativa da higiene pessoal nos últimos vinte anos. Subjacente a esta interpretação está a comparação dos dados obtidos nos dois estudos realizados, o de 1986 pelo Dr. Delfim Duarte e o nosso.
As raparigas são globalmente mais cumpridoras que os rapazes, consolidando os hábitos de higiene pessoal nos anos mais adiantados. No entanto, parece ser apenas nesta altura que os rapazes adquirem consciência da importância de uma boa higiene.
Apesar dos avanços verificados, do nosso estudo cremos poder concluir que existem três situações muito preocupantes de incumprimento nos hábitos de higiene:
Os alunos dos anos mais adiantados assumem que não é necessário ou importante lavarem as mãos antes das refeições e depois de utilizarem a casa de banho. Valorizam, porém, a higiene das unhas. Será que a maior preocupação com a sua limpeza e aspecto está relacionada com o facto de as unhas sujas serem visíveis macroscopicamente? Pela comparação das respostas às perguntas relativas a estes dois hábitos, podemos verificar que a importância das mãos na transmissão de doenças infecciosas não foi compreendida. Assim, atrevemo-nos a sugerir que, pelo menos aparentemente, por preguiça e/ou ignorância, os jovens valorizam mais o aspecto exterior – ou seja, a aparência – e menos a saúde.
Igualmente graves parecem-nos as falhas encontradas nos hábitos que previnem as doenças respiratórias. A maioria dos alunos só usa lenço quando está constipada (independentemente do género e do ano de escolaridade, mais de 60% dos jovens só usam o lenço nesta situação) e raramente coloca a manga ou o lenço à frente da boca, quando espirra ou tosse (mais de 50% refere não ir a tempo de tapar a boca nestas alturas).
Os jovens, principalmente os mais velhos, ainda não reconhecem a importância do uso diário de fio dentário.
Estas constatações e o reconhecido valor destas práticas de higiene pessoal justificam que se repense a abordagem deste assunto nas escolas, principalmente nos anos mais adiantados. No terceiro ciclo, somente no nono ano de escolaridade os hábitos de higiene
são relembrados, de um modo muito superficial, como atitudes promotoras de saúde. No secundário, esta temática já não faz parte de nenhum programa e já não existe a área curricular não disciplinar de Formação Cívica. Nesta, o Director de Turma trata, não raras vezes, de assuntos que tentam responder às necessidades dos alunos.
Todos estes dados sustentam a nossa opinião de que se impõe uma reformulação urgente dos conteúdos programáticos da disciplina de Ciências Naturais do nono ano que deve incluir uma cuidada elaboração do capítulo “Atitudes Promotoras de Saúde”.
No décimo ano, os jovens vão ter de optar por um curso para prosseguimento de estudos ou por um curso profissional, o que muitas vezes os afastam da área das ciências. Este facto reforça a importância do nono ano de escolaridade na formação dos alunos.
Sugerimos ainda que se implemente uma maior articulação com a área curricular não disciplinar de Área de Projecto, independentemente de o professor ser do grupo de Ciências Naturais / Biologia e Geologia ou não. Nestes tempos lectivos, os alunos poderiam desenvolver trabalhos relacionados com a Higiene que reforçariam aprendizagens e potenciariam práticas promotoras de saúde.
Apesar dos currículos determinarem uma abordagem transversal da “Educação para a Saúde”, é na disciplina de Ciências Naturais que este assunto é mais desenvolvido uma vez que muitos professores das outras áreas reconhecem não se sentirem suficientemente conhecedores para trabalharem com os seus alunos estes conteúdos. Sugerimos, por isso, que, além da anatomia e fisiologia dos vários sistemas de órgãos, também se privilegie a História da Ciência, o que naturalmente permitiria uma articulação com as disciplinas de Geografia e de História, onde poderiam ser explorados os efeitos das várias epidemias na demografia e evolução da sociedade humana.
Ao nível do ensino secundário, poder-se-ia reformular o currículo, atribuindo-se, em todos os cursos, 45 minutos à área curricular não disciplinar de Formação Cívica, nos mesmos moldes do ensino básico. O director de turma disporia, assim, de tempo suplementar que lhe permitiria tratar dos temas que considerasse pertinentes para aquela turma, não prejudicando uma disciplina em que os alunos estão sujeitos a exame para conclusão do ensino secundário.
Advogamos uma escola aberta ao meio. Assim, instituições independentes podem e devem contribuir nas tarefas que visem o incentivo da aquisição de comportamentos que
Discussão e Conclusão Final
contribuam quer para a redução da velocidade de transmissão de doenças quer para a sua morbilidade. Para se atingirem estes objectivos, julgamos ser necessário:
Investir na diversidade e continuidade de acções e de campanhas de esclarecimento, junto das crianças, dos jovens e dos adultos;
Fomentar a colaboração dos hospitais e centros de saúde com as escolas;
As acções e campanhas de promoção de saúde não podem continuar limitadas ao envio de panfletos e/ou cartazes que inundam as escolas onde facilmente as mensagens se diluem numa amálgama de papéis de origens extraordinariamente diversas. Consideramos que a escola deve ser o centro dinamizador de uma estratégia coerente e concertada que aqui deixamos delineada:
Qualquer iniciativa deve iniciar-se com acções de formação especialmente construídas para os professores e ministradas por pessoal especializado: médicos, enfermeiros e eventualmente psicólogos. Estas acções devem preparar os professores naquelas áreas que lhes suscitem mais dúvidas, por serem estranhas à sua formação ou por resultarem de avanços recentes nestes saberes;
Se se adequar, são implementadas actividades para desenvolver estas competências na sala de aula com os alunos, conjuntamente com o professor e um técnico de saúde;
Seguidamente, o professor (por exemplo, de Área de Projecto) orienta, em colaboração com os professores das outras disciplinas, trabalhos que estimulem a pesquisa e envolvam, tanto quanto possível, os respectivos encarregados de educação e outros possíveis intervenientes (juntas de freguesia, câmaras municipais e, não esquecendo a importância vital de saúde e segurança no trabalho, empresas, entre outros);
Os trabalhos elaborados são apresentados pelos alunos a toda a comunidade.
Paralelamente a estas acções, e fundamentando-nos na nossa experiência, parece-nos crucial o destacamento de uma enfermeira e de um médico do centro de saúde que garantissem um apoio directo e formal à escola. Ainda que exista actualmente um apoio indirecto, este é irregular e muitas vezes realizado à custa da boa vontade das pessoas –
tanto dos professores como dos técnicos – que disponibilizam algum do seu pouco tempo livre para colaborarem.
Propomos a sua presença na escola ou agrupamento pelo menos um dia por semana e parece-nos útil a sua disponibilidade quer para alunos (que frequentemente se abrem mais facilmente a quem lhes garanta o anonimato) quer para professores. Relativamente ao psicólogo, é nossa convicção que, dada a complexificação da sociedade e a progressiva heterogeneidade da população juvenil, que vem acumulando problemas e constrangimentos, cada escola devia ter pelo menos um destes profissionais em serviço permanente.
No nosso estudo não foram encontradas evidências sólidas que permitam relacionar o meio socio-económico dos jovens com o cumprimento ou incumprimento dos hábitos de higiene básicos. Contudo, parece-nos pertinente a realização deste estudo, ou outro semelhante ao nosso, num ano como o actual em que se vive sob a influência de uma grave crise económica. De facto, alguns dados indiciam que as dificuldades económicas poderão implicar uma diminuição da frequência do que consideramos boa higiene. Este retrocesso dever-se-á, em parte, a um menor controlo por parte dos pais, não necessariamente por negligência, mas sim como consequência do stress causado por situações difíceis.
Igualmente importante será identificar as causas subjacentes às referências à falta de água, justificação indicada pelos alunos para o incumprimento de alguns dos hábitos de higiene estudados. Interessa saber se esta situação se deve a uma avaria pontual no sistema de fornecimento de água ou se é prova da vivência de dificuldades económicas.
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Betsabá no seu banho. Retirado de
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Gesto de lavar as mãos. Retirado de http://static.hsw.com.br/gif/superbug-4.jpg
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Triunfo da Morte. Retirado de