• Nenhum resultado encontrado

CONCLUSÃO

No documento 2013FrancieliFrank (páginas 82-89)

Diante do exposto, observou-se as muitas possibilidades e enfoques que podem ser tomados a partir da obra de Foucault, um pensador da pluralidade, da diversidade, sendo praticamente impossível enquadrar suas obras num único padrão. Na verdade, Foucault abomina toda e qualquer forma de padronização. Ainda, seu interesse pela história está voltado à sua utilização para a compreensão do presente e para a problematização dequestões importantes, especialmente envolvendo problemas da sociedade. Foucault busca desconstruir verdades, apresentando o caráter das verdades criadas, sempre evitando pré-julgamento, inclusive na área da educação, que, por tradição, primeiro julga edepois analisa.

Após o estudo da sociedade complexa e da crise de autoridade docente, chegou-se àconclusão de que os fatores que influenciam a sociedade atual, como aqueles abordados com maior profundidade, quais sejam, globalização, tecnologias e urbanização, também influenciam a escola e sua forma de organização. Diante disso, a escola precisa repensar o seu papel, pensando a sério o aprofundamento da formação dos alunos. A escola sempre forma atitudes, mesmo que em ambiente inadequado, assim, é fundamental a transformação do professor em mestre, como passo inicial para se criar outro ambiente escolar.

Ainda, é necessário que o professor tenha em mente a necessidade de resgatar a sua função, não sendo apenas um mero transmissor de conteúdos; sua ação docente precisa estar pautada numa experiência cultural mais ampla, o que lhe possibilitará construir progressivamente um mundo atual mais amplo. Nesse sentido, o professor estará preocupado com as questões que envolvem a sociedade e refletem na educação, tornando-se um agente ativo para que as mudanças necessárias ocorram.

Verificando-se a realidade do cotidianoescolar, evidencia-se que a relação entre professor e educando, com raras exceções, está desgastada. Nela, não se percebeo mínimo de respeito e o professor se vê impotente frente aessarealidade. Nesse contexto, entre os problemas mais graves que assolam a vida dos educadores está a crise de autoridade. No primeiro capítulo foi desenvolvido um diagnóstico envolvendo a crise de autoridade docente e a sociedade complexa, conceito atribuído à sociedade atual, que apresenta características peculiares, rompendo com o modelo tradicional de sociedade. Esse diagnóstico foi desenvolvido de acordo com as concepções de Hannah Arendt, sendo esse considerado um dos melhores exemplos, no sentido de aproximação com realidade, no tocante àcrise de autoridade docente.

ϴϯ 

Arendt defende a ideia de que as modernas teorias da educação, baseadas na aprendizagem pelo fazer, transformaram a escola num local de brincadeiras para a criança e, com isso, perdeu-se a devida responsabilidade. Assim, a autonomia da criança passou a dominar a relação professor/aluno, na qual a criança tem a sua independência, a qualprecisa ser respeitada. A relação educacional adequada é aquela em que o mestre responsabiliza-se por inserir a criança no mundo dos adultos, de forma responsável, mantendo a segurança do ocultamento. Para tanto, é necessário deixar de lado a educação, que visa apenas servir e dar autonomia àcriança, retomando a ligação com o passado, com o fio da tradição, que foi perdido. A tradição deve ser retomada para que a responsabilidade possa fazer parte novamente do ato pedagógico. Nesse sentido, pertinente lembrarque, para Arendt, o professor não pode se eximir de sua responsabilidade, ou seja, não pode recusá-la. Na área educacional, a perda da autoridade docente não pode ser aceita e o professor precisa encontrar uma maneira para conseguir manter um diálogo com o conservadorismo e com a tradição. Porém, esse é um processo desafiador diante da sociedade complexa que vivemos.

Um dos caminhos para enfrentar a crise de autoridade está na atitude ética do professor, diante dos jovens alunos. Reside, ainda, no interesse em manter uma relação de mestre e discípulo com seus alunos, e no interesse de ampliar sua ação docente, inspirado no cuidado de si. Ele se apresenta como uma possível alternativa para fazer frente à crise de autoridade docente, porém, para que possa ser efetivado na prática, é necessário o interesse do mestre, ou seja, aquele que apresenta características superiores ao simples educador, que sabe fazer uso da Parrhesia, sendo capaz de se transformar e transformar seus alunos, através da arte de viver. O uso e a interpretação das obras de Foucault é algo desafiador, que exige cuidados para que a aproximação seja proveitosa, mantendo os propósitos de seu trabalho genealógico.

A compreensão do cuidado de si e os aspectos que o envolvem são fundamentais para que se possa dimencionar suas possíveis relações com o campo da educação. E, no curso A Hermenêutica do Sujeito, encontramos uma bela releitura dos clássicos gregos que estudavam o próprio eu como objeto. Foi nos séculos I e II que se teve,como principal traço característico, a mudança do cuidado de si que passou a ser uma prática social. A prática de si passou a ser constituída como um modo de relação entre as pessoas, de controle de uns sobre os outros, mas, ao mesmo tempo, do desenvolvimento da relação de si para consigo mesmo, como algo que se dá pela relação com o outro. Portanto, a relação de si com o outro pode ser desdobrada ao campo educacional.

ϴϰ 

Importante destacar a figura do stultus, sendo aquele que não tem cuidado consigo mesmo, ou seja, o lado oposto ao cuidado de si. Refere-se à pessoa que está à mercê de qualquer situação exterior, que não consegue filtrar as representações do mundo e as deixa entrar em seu espírito, influenciando seus sentidos e comprometendo seu modo de vida. Para sair do estado de stultitia,é necessário o outro. Essa mudança de status ocorre por intermédio do outro. Assim, destacaFoucault (2010, p.120): “Entre o indivíduo stultuse o indivíduo sapiens, é necessário o outro” O estado de stultitiapode ser combatido através da psicagogia, que se refere a um modo de transmissão da verdade que transforma o sujeito e a sua formação humana, fazendo da vida uma obra de arte. Para tanto, seria necessário um trabalho pessoal de si sobre si, usando-se da inquietação para cuidar de si e posteriormente governar o outro. Importante ressaltar que a estética da existência proporciona outros modos de subjetivação, pautados na liberdade e no viver como uma obra de arte.

Para Foucault, o objetivo de retomar o cuidado de si é a verdade, segundo a qual o sujeito tem uma relação ética consigo mesmo, a qual perpassa pela atitude crítica, pelas práticas de liberdade e por uma vida de acordo com a estética de existência. A subjetivação se dá por intermédioda experiência, pois ela é responsável pela formação do sujeito, logo, a subjetivação é o meio para a formação como arte da existência, sendo ela que permite ao sujeito se transformar, transformando ao mesmo tempo o mundo que o cerca.

Para pensar o sentido do cuidado de si na educação é preciso, ainda, a retomada da dramática e da pragmática de si, diante de um diagnóstico de instituições disciplinares que docilizaram os corpos e ampliaram os processos de subjetivação, aumentando as práticas de liberdade, produzindo outras formas de subjetivação. Ao educador caberia o papel de aproximar as diferenças existentes na relação com o outrem, para, por meio de novos processos de subjetivação e experiências, a exemplo da concepção estoica, fazer acontecer avida como uma obra de arte.

O cuidado de si apresenta muitas formas de crescimento pessoal e inclusive de melhoria da vida em sociedade. A citação “quanto tempo livre ganhamos se não olharmos o que o vizinho disse, fez ou pensou, mas tão somente o que nós mesmos fazemos. Portanto, não olhar o que se passa com os outros, mas interessar-se antes por si” (FOUCAULT, 2010, p. 197) é perfeita para contribuir para o aperfeiçoamento das relações interpessoais, seja no trabalho, no lazer, na escola, enfim, em toda a vida social.

A presente pesquisa pode apresentar, ainda, muitas possibilidades para sua continuidade, buscando outras aproximações do cuidado de si e da temática educacional. O curso Hermenêutica do Sujeito é muito rico, podendo-se utilizar outro recorte histórico,

ϴϱ 

diferente dos séculos I e II, como por exemplo, aprofundar o contexto do Alcebíades ou analisar a parte do exercícios e técnicas pesquisados por Foucault e suas aplicações na educação – particularmente, prefiro a última opção, talvez por apresentar prática propriamente dita. Ainda, o conceito do cuidado de si é retomado no curso O governo de si e dos outros, que apresenta análises complementares; portanto, trata-se de uma proposta interessante para continuar a pesquisa.

De acordo com a bibliografia complementar, o cuidado de si não foi explorado em sua totalidade, podendo trazer muitas outras contribuições para a educação que não foram estudadas até o momento. Inclusive, é reconhecido que os textos tardios de Foucault apresentam poucas pesquisas.

Tratando, mais especificamente, do enfoque dado no terceiro capítulo desta pesquisa, se poderia ter elegido outros temas educacionais para confrontar com o cuidado de si ou outras alternativas, aprofundando-se mais o conceito de conversão de si, das formas de subjetivação ou o cuidado de si nas demais concepções, não apenas na estoica, conforme se abordou. Seria possível, também, dar continuidade aos estudos seguindo apenas com o cuidado dos outros. Ainda, poderiam ser pesquisadas formas de difusão do cuidado de si para que os professores tornem-se mestres. Enfim, o texto de Foucault permite muitas possibilidades.

ϴϲ 

REFERÊNCIAS

AQUINO, JulioGroppa. A difusão do pensamento de Michel Foucault na educação brasileira: um itinerário bibliográfico. Rev. Bras. Educ. [online]. 2013, vol.18, n.53, pp. 301- 324. ISSN 1413-2478.

_____. Autoridade docente, autonomia discente: uma equação possível e necessária. In: Autoridade e autonomia na escola: alternativas teóricas e práticas/JulioGroppa Aquino (org.). São Paulo: Summus, 1999.

ARENDT, Hannah. A crise na educação. In: Entre o passado e o futuro. Tradução Mauro W. Barbosa de Almeida. São Paulo: Perspectiva, 2005.

CANDIOTTO, César. Foucault e a crítica da verdade. Belo Horizonte: Autêntica; Curitiba: Champagnat, 2010.

_____.Subjetividade e verdade no último Foucault. Disponível em: <http://www. scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-31732008000100005>. Acesso em 01 de maio de 2013.

DALBOSCO, Cláudio Almir. Pragmatismo, teoria crítica e educação. Campinas: Autores Associados, 2010.

DE LA TAILLE, Yves. Autoridade na escola. In: Autoridade e autonomia na escola: alternativas teóricas e práticas/JulioGroppa Aquino (org.). São Paulo: Summus, 1999.

FERREIRA JÚNIOR, Avimar. Subjetividade e melancolia: aspectos culturais constitutivos do homem na sociedade moderna. Goiânia. 2008. Disponível em: http://ppge.fe.ufg. br/uploads/6/original_Dissert-%20Avimar.pdf. Acesso em 01 de maio de 2013.

FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade III: o cuidado de si. Rio de Janeiro: Graal, 1997.

_____. A Hermenêutica do Sujeito. São Paulo: Martins Fontes, 2010.

FRANCISCO, Maria de Fátima S. Autoridade e contrato pedagógico em Rousseau. In: Autoridade e autonomia na escola: alternativas teóricas e práticas/JulioGroppa Aquino (org.). São Paulo: Summus, 1999.

FREITAS, A. S. A parresía pedagógica de Foucault e o êthos da educação com psicagogia. Revista Brasileira de Educação. V. 18, n. 53, abr. jun. 2013.

_____. Cuidado de si como articulador de uma nova relação entre Filosofia, Educação e Espiritualidade: uma agenda de pesquisa foucaltiana.In:REUNIÃO ANUAL DA ANPED, 32 - sociedade, cultura e educação: novas regulações? Anped: Caxambu, 2009. Disponível em: http://www.anped.org.br/reunioes/32ra/ arquivos/trabalhos/GT17-5142--Int.pdf. Acesso em: 25 ago. 2010.

ϴϳ 

GALLO, Silvio. As contribuições de Foucault à educação. In: MICHEL FOUCAULT – 80 ANOS.JoséGonçalvesGondra, Walter Omar Kohan (Orgs). Autêntica, 2006.

_____. Foucault: (re)pensar a educação. In: RAGO, Margareth; VEIGA-NETO, Alfredo (Orgs.). Figuras de Foucault. 2. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2008. p. 253-260

GIDDENS, Anthony. As consequências da modernidade/ Anthony Giddens; tradução de RaulFiker. – São Paulo: UNESP, 1991.

_____. Mundo em descontrole.7 ed. Rio de Janeiro: Record, 2010.

GOERGEN, Pedro. Pós-modernidade, ética e educação. São Paulo: Autores Associados, 2ª Ed. 2005.

GONDRA, F.; KOHAN, W.O. (Org.).Foucault 80 anos.Belo Horizonte: Autêntica, 2006. _____. Devir-criança da filosofia: infância da educação. Belo Horizonte: Autêntica, 2010. p. 63-79.

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Tradução: Tomaz Tadeu da Silva, Guaracira Lopes Louro. 11. ed. Rio de Janeiro: DP&A Editora, 2006..

KUPFER, Maria Cristina M. Por uma vara de vidoeiro simbólica. In: Autoridade e autonomia na escola: alternativas teóricas e práticas/JulioGroppa Aquino (org.). São Paulo: Summus, 1999.

LAFER, Celso; FONSECA JR., Gelson. Questões para a diplomacia no contexto internacional das polaridades indefinidas (notas analíticas e algumas sugestões). In: FONSECA JR., Gelson; CASTRO, Sérgio H. Nabuco, (Org.). Temas de política externa brasileira II. Brasília: IPRI, 1993.

LÉVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo: Editora 34, 1999.

LIPOVETSKY, G. O império do efêmero: a moda e seu destino nas sociedades modernas. São Paulo: Cia das Letras, 2009.

MALAGGI,Vitor. Cibercultura e educação: algumas reflexões sobre processos educativos na sociedade tecnológica contemporânea. Revista Espaço Acadêmico, nº 134, Julho de 2012. v. 12, n. 134 (2012). Disponível em: <http://www.periodicos. uem.br/ojs/index.php/EspacoAcademico/issue/view/639>. Acesso em 10 mai. 2013.

MARCUSE, Herbert. A ideologia da sociedade industrial. Rio de janeiro. Zahar. 1999. MORAES, Jussara Malafaia. PÓS-MODERNIDADE: Uma luz que para uns brilhae para outros ofusca no fim do túnel. Artigo publicado na Revista Veiga Mais – Edição: Otimismo - Ano 3 - Número 5 – 2004.1.

NASCIMENTO, Edna Maria Magalhães do. Pragmatismo: uma filosofia da ação, 2010. Disponível em: <http://www.ufpi.br/subsiteFiles/ppged/arquivos/files/VI. encontro.2010/GT.20/GT_20_01_2010.pdf>. Acesso em 26 nov. 2013.

ϴϴ 

OS FILÓSOFOS. Disponível em: <http://os-filosofos.blogspot.com.br/2008/03/hannah- arendt-1906-1975.html>. Acesso em 26 nov. 2013.

PAGNI, Pedro A. Dos cantos da experiência formativa aos desafios da arte do viver à educação escolar: Um percurso da experiência estética à estética da existência. Tese de Doutorado. UNESP, Marília, 2011.

PAGNI, Pedro A.; BUENO, Sinésio F.; GELAMO, Rodrigo P. (Orgs.). Biopolítica, arte de viver e educação. Marília: Oficina Universitária; São Paulo: Cultura Acadêmica, 2012. PORTOCARRERO, V. Práticas sociais de divisão e constituição do sujeito. In: RAGO, M. VEIGANETO,A. (Orgs.) Figuras de Foucault. Belo Horizonte: Autêntica, 2006.

SETTON, Maria da Graça J. As transformações do final do século: resignificando os conceitos autoridade e autonomia. In: Autoridade e autonomia na escola: alternativas teóricas e práticas/JulioGroppa Aquino (org.). São Paulo: Summus, 1999.

SILVA, Nyrluce Marília Alves da.As implicações filosóficas e educacionais da noção de cuidado de si. UFPE, 2013. Disponível em: <http://www.anped.org.br/app/webroot/ 34reuniao/images/posteres/GT17/GT17-1171%20int.pdf>. Acesso em 15 jul. 2013

SIMMEL, G. 1973. A metrópole e a vida mental. O fenômeno urbano. Rio de Janeiro: Zahar.

SOLER, Rodrigo D. V. Michel Foucault e a ética do cuidado de si: desdobramentos históricos e desterritorialização da subjetividade. São Paulo: Baraúna, 2010.

ϴϵ   /WʹĂƚĂůŽŐĂĕĆŽŶĂWƵďůŝĐĂĕĆŽ ͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺ &ϴϮϴĐ&ƌĂŶŬ͕&ƌĂŶĐŝĠůŝ KĐƵŝĚĂĚŽĚĞƐŝĞĂĐƌŝƐĞĚĞĂƵƚŽƌŝĚĂĚĞĚŽĐĞŶƚĞͬ&ƌĂŶĐŝĠůŝ&ƌĂŶŬ͘ʹϮϬϭϯ͘ ϴϴĨ͖͘ϯϬĐŵ͘ 

Orientação: Professor Dr. Cláudio Almir Dalbosco.

Dissertação (Mestrado em Educação) – Universidade de Passo Fundo, 2013.

1. Educação. 2. Professores. 3. Autoridade. 4. Qualidade de vida no trabalho. 5. Bem-estar. I. Dalbosco, Claudio Almir, orientador. II. Título.

CDU: 371.13

ͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺͺ ĂƚĂůŽŐĂĕĆŽ͗ŝďůŝŽƚĞĐĄƌŝĂDĂƌĐŝĠůŝĚĞKůŝǀĞŝƌĂͲZϭϬͬϮϭϭϯ

No documento 2013FrancieliFrank (páginas 82-89)

Documentos relacionados