O tema deste trabalho é pertinente no contexto médico pela escassez de estudos no domínio do luto em médicos e também por abordar um tema que muitas vezes os profissionais menosprezam: a forma como eles próprios vivenciam as experiências dolorosas dos seus doentes.
Este trabalho constituiu um estudo quantitativo, transversal acerca da expressão do luto e das suas relações com o perfil de atitudes acerca da morte e a qualidade de vida profissional. A sua originalidade residiu em três aspetos fundamentais: metodologia quantitativa; aplicação a médicos de várias especialidades; aplicação a clínicos que atuam numa mesma área geográfica que serve uma população com acesso a igual nível de cuidados e população médica com acesso aos mesmos recursos.
A amostra foi constituída maioritariamente por médicos do género feminino (67%), especialistas (81%) de áreas médicas (72%) e com mais de 10 anos de trabalho (73%). Esta amostra foi constituída por uma elevada percentagem de médicos que prestam cuidados a doentes em fim de vida (77%), 56% dos quais o faz com elevada frequência. Um dos aspetos mais significativos desta caracterização profissional reside no fato de 42% da amostra afirmar não se sentir competente para cuidar doentes em fim de vida, acompanhar a sua morte e comunicar com os familiares, sendo que este grupo acomete 35% dos profissionais que cuidam doentes em fim de vida.
Apenas 23% da amostra refere ter reuniões para discussão de casos clínicos de doentes em processo de morte ou falecidos, sendo que em menos de 70% dos casos essas reuniões acontecem de forma regular e calendarizada.
De salientar que a quase totalidade da amostra (95%) se encontra sensibilizada para o papel que os Cuidados Paliativos podem desempenhar no apoio e acompanhamento dos doentes em final de vida.
Relativamente ao desempenho da amostra nas escalas de salientar que os médicos especialistas revelaram maior nível de perda nostálgica e satisfação por compaixão, enquanto os médicos internos demonstraram tendencialmente apresentar mais medo da morte. Estes resultados podem apontar para uma forma diferente de encarar a morte que se desenvolve também com a prática clínica e a experiência.
Na comparação entre especialidades médicas e cirúrgicas, apenas foram encontradas diferenças a nível da Sobrecarga de Luto Profissional, com as especialidades cirúrgicas a demonstrarem maior esforço emocional no cuidar, maior partilha incompreendida e maior perda nostálgica. O contexto clínico em que é feito o seguimento dos doentes e o tipo de abordagem pode aqui contribuir para este efeito diferencial.
Os médicos de MGF apresentaram maiores níveis de aceitação por aproximação e aceitação por escape, enquanto as especialidades hospitalares tendencialmente demonstraram maior satisfação por compaixão. O contexto em que os cuidados são prestados pode ajudar a elucidar estas diferenças que também podem apresentar o contributo do facto dos clínicos de MGF terem referido menor existência de consultas de discussão de doentes em processo de morte ou falecidos.
No que respeita a prestação de cuidados em fim de vida, um aspeto algo preocupante é o facto dos médicos que prestam cuidados a doentes em fim de vida apresentarem maior confinamento atormentado e tendencialmente maior partilha incompreendida e perda nostálgica. Este resultado de alguma forma poderá apresentar alguma influência da sensação de falta de competência para cuidar doentes em fim de vida que alguns clínicos afirmaram sentir, mas deve certamente ser alvo de uma abordagem mais exaustiva de forma a perceber que aspetos devem ser melhorados para melhorar o desempenho destes clínicos nestas dimensões da sobrecarga de luto profissional.
Nos modelos de correlações, gostaria de salientar, que como expectável se assistiu a existência de correlações positivas entre as dimensões da escala de sobrecarga de luto profissional com aspetos mais negativos das escalas de perfil de atitudes acerca da morte e qualidade de vida profissional, como o medo da morte, o evitamento da morte, o burnout e o stress traumático secundário. Por outro lado, assistiram-se a correlações negativas entre algumas dimensões da escala de sobrecarga de luto profissional e dimensões menos negativas das outras escalas como a aceitação neutral e a satisfação por compaixão.
Nos modelos preditivos, e apesar das suas limitações, parece-me interessante salientar que a dimensão Esforço Emocional no Cuidar, parece ser o fator preditivo mais relevante da escala de Sobrecarga de Luto Profissional para a dimensão Medo da Morte e Evitamento da Morte, com valores mais elevados de Esforço Emocional no Cuidar a predizerem valores mais elevados de Medo da morte e Evitamento da Morte. Já no que se refere à escala de Qualidade de Vida Profissional, a dimensão Confinamento Atormentado parece ser o fator preditivo mais relevante da escala de Sobrecarga de Luto Profissional para as três dimensões da escala. Contudo, neste caso, valores mais elevados de Confinamento Atormentado predizem valores mais baixos de satisfação por compaixão e valores mais elevados de Burnout e Stress Traumático Secundário.
Este estudo revela algum interesse pelo facto de ter trabalhado o tema do luto e a sua expressão e inter-relações com atitudes acerca da morte e qualidade de vida profissional. Evidenciou e caracterizou esta amostra de médicos no que se refere às várias dimensões das escalas encontrando alguns aspetos dignos de nota, como a sensação de falta de competência e desempenhos diferenciais entre médicos especialistas e internos, entre especialidades médicas e cirúrgicas, entre MGF e especialidades hospitalares e entre profissionais que prestam cuidados a doentes em fim de vida e os que não prestam.
Esta avaliação desencadeia uma necessidade de reflexão e possivelmente abre caminho para aprofundar e caracterizar melhor esta população médica no sentido de vir a melhorar estratégias de intervenção que visem aumentar os impactos positivos do luto nos clínicos. Essas estratégias podem passar por oferta formativa, por criação de reuniões de morbimortalidade e melhoria de estratégias de coping.
Num momento conturbado no nosso Sistema Nacional de Saúde, onde instituições e profissionais enfrentam tantos desafios diariamente com as suas condições laborais, pressões contratuais e financeiras, as questões sensíveis da abordagem da dimensão humana da relação médico-doente podem com alguma facilidade ser relegadas para segundo plano. Contudo, convém alertar para a importância dos efeitos que a exposição ao sofrimento humano e aos processos de morte podem ter nos profissionais, nomeadamente os médicos e como podem
também eles contribuir para agravar a sua qualidade de vida, bem como o seu desempenho pessoal e profissional. Não queria deixar de relembrar a importância que estratégias pessoais e institucionais podem desempenhar na prevenção de efeitos nefastos como o burnout e a exaustão.