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CONCLUSÃO

No documento 2019MichelleAngelaZanata (páginas 97-117)

A sociedade contemporânea caracteriza-se pela diferenciação social o que significa que seus membros não apenas possuem atributos diferenciados quanto à idade, sexo, religião, estado civil, renda, escolaridade, como também ideias, valores, interesses e aspirações distintas. As diferenças acabam por formar uma sociedade complexa e, geralmente, envolta nos mais diversos conflitos.

Conflitos estes que, muitas vezes, são levados ao Estado para sua resolução. Ocorre que o descontentamento com o formalismo, a morosidade, o descompasso entre as decisões judicias e os anseios sociais além do aumento da criminalidade, incluso aí, a violência de gênero, acabam por levar o Estado a buscar alternativas para a resolução dos conflitos bem como para a prevenção do crime. Surge, então, a mediação penal como forma alternativa de solução de conflitos, fazendo com que o ordenamento jurídico penal possa vir a adotar uma roupagem mais humanizada.

Frente ao contexto exposto, a presente pesquisa analisou a viabilidade da aplicação da mediação como metodologia alternativa de resolução de conflitos pela Polícia Judiciária nos casos de violência doméstica e/ou familiar contra a mulher. A violência doméstica e/ou familiar contra a mulher está envolta nas relações de gênero e poder, sendo que a violência contra a mulher pode ser considerada uma manifestação direta de poder do homem e de submissão da mulher. Regrada pela Lei n. 11.340/2006, tem recebido a atenção e preocupação da sociedade brasileira. Tal violência não é um fenômeno exclusivamente contemporâneo, no entanto, sua visibilidade política e social é recente, dado que apenas nos últimos anos é que se tem destacado a gravidade e a seriedade das situações de violência sofridas pelas mulheres em suas relações de afeto.

Os papéis impostos às mulheres e aos homens, consolidados ao longo da história e reforçados pelo patriarcado, induzem a violência entre os sexos e indicam que a prática desse tipo de violência não é fruto da natureza, mas sim, do processo de socialização das pessoas. A violência contra a mulher constitui-se fenômeno essencial à desigualdade de gênero, isto é, é produto social e fundante da sociedade patriarcal que se sustenta em dimensões de poder pautadas na dominação e submissão.

Nesse sentir, a mediação de conflitos aparece na polícia como uma metodologia para evitar a confrontação entre vítima e ofensor, permitindo a exploração de diferentes maneiras de se resolver o conflito estabelecido, além de facilitar estratégias para atender os mecanismos do conflito interpessoal e, em consequência, atuar na resolução do mesmo. A metodologia de mediação utilizada pela Polícia Civil é transformativa, pois volta-se ao futuro das relações dos envolvidos, em que o foco são as pessoas, para que elas reconheçam em si e no outro possibilidades e desenvolvam capacidade de escolha e decisão.

Verificou-se que a mediação de conflitos em sede de Polícia Judiciária nos casos de violência de gênero está sendo direcionada ao delito de ameaça, crimes contra a honra, lesões corporais leves, excluindo-se as ocorrências em que tiver sido deferida medida protetiva e ainda quando os antecedentes e/ou condição pessoal dos envolvidos não recomendarem a sua realização.

A aplicação da mediação pela Polícia Judiciária nos conflitos decorrentes da violência de gênero defronta-se com alguns desafios que dificultam a sua viabilidade. Um desses desafios é trazido pela própria lei que regulamenta a violência doméstica e/ou familiar contra a mulher ao abandonar o sistema consensual e retornar ao sistema penal retributivo. Outrossim, como o enfrentamento da violência contra a mulher tem se dado por meio de uma política criminal, as vítimas que não desejam representar criminalmente, não contam com uma política social, pois a Lei Maria da Penha excluiu a possibilidade de mediação entre as partes.

Outro desafio que se apresenta à viabilidade da aplicação da mediação à violência de gênero pela Polícia Judiciária refere-se à cultura específica da prática policial, qual seja de repressão à criminalidade e que se contrapõe a uma cultura social ampla das representações de gênero e que acabam por se introjetar nas práticas policiais no atendimento desses casos. Afinal, o campo policial é um espaço perpassado por aspectos simbólicos, sociais e culturais os quais no contexto de uma delegacia de polícia reproduzem uma moralidade constituída, por um lado, pela representação do papel e função da polícia e, por outro, pela insuficiente compreensão das configurações de poder nas relações de gênero.

Não pode se esquecer que as dimensões do poder também estão presentes nos órgãos de segurança pública, sendo que a história da polícia confunde-se com a história da centralização do poder e da autoridade monárquicas, ou seja, a simbiose

entre polícia e poder perdura ao longo da história. Assim, a polícia caracteriza-se como uma instituição de proteção social e também por ser a principal forma de expressão da autoridade. Por conseguinte, a relação policial-agressor e policial-vítima sofre influências desse estigma da figura do policial e da instituição policial. De todo modo, é importante para as mulheres em situação de violência o ethos repressivo e punitivo da polícia, pois o recurso à polícia com a imagem repressiva que se tem dela, fortalece as mulheres em suas relações.

Logo, os serviços de polícia são ressignificados pelas mulheres que registram ocorrências de violência doméstica, pois as mulheres apropriam-se das delegacias especializadas em desacordo com o uso que a sociedade costuma fazer de outras delegacias. Com efeito, o papel policial de investigação e produção de provas se torna secundário e dá lugar a serviços de orientação com fins à mediação de conflitos.

Com isso, contrapõe-se à instituição policial - sua imagem e hierarquia para a sociedade - e a mediação de conflitos, pois de um lado está o Estado punitivo e, de outro, o Estado mediador. Portanto, acredita-se que essas multifacetas do Estado acabam por dificultar a efetividade da mediação no âmbito da Polícia Judiciária. Afinal, a mediação de conflitos nos casos de Maria da Penha realizada no âmbito da Polícia Judiciária inova ao quebrar o paradigma da repressão em vigor na instituição desde seu surgimento, pois transforma a mítica imagem do policial combatente e repressor na figura de um ente do Estado auxiliador e colaborador.

Na mediação, cabe ao policial mediador redistribuir as dimensões de poder entre as partes, dimensões estas que já chegam comprometidas na delegacia de polícia. Cabe ao mediador fortalecer a vítima e contribuir para que ela se reconheça como sujeito de direitos. Sendo que a restauração da justiça possibilita não apenas a vítima a reparação de seus traumas causados pelos atos de violência como também ao agressor.

Denota-se a partir disso que a aplicação da mediação como metodologia de resolução de conflitos pela Polícia Judiciária nos casos de violência doméstica e/ou familiar contra a mulher apresenta alguns desafios os quais dificultam a sua viabilidade. No entanto, se perpassados, é uma prática que pode promover o reconhecimento da diferença, a redistribuição do poder e a representação conforme a ótica de Nancy Fraser.

Por conseguinte, a prática da mediação de conflitos pela Polícia Judiciária mostra-se uma experiência singular que permite, pela intervenção do policial- mediador, que valores e práticas cristalizados nas relações passem por um processo de ruptura ou descontinuidade, contribuindo para a sua desnaturalização. Logo, a mediação de conflitos realizada nas DEAMs vislumbra-se como um passo num longo caminho a ser percorrido bem como a ser adaptado para que seja possível a realização desta metodologia em busca da efetivação das garantias fundamentais constitucionais e da construção da cidadania feminina e correspondente desconstrução das ideologias de dominação de um gênero sobre outro.

Pode-se concluir com a presente pesquisa que a mediação realizada no âmbito da Polícia Civil nos casos de Maria da Penha visa a resolução efetiva do conflito e não somente a definição do culpado, bem como promover e estimular interações sociais positivas com vistas à diminuição de violência. Ademais, a mediação da forma aqui apresentada acaba por aproximar o poder público das pessoas, criando oportunidades de entendimento, além de despertar no policial um viés pacificador.

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