Finalizando esta pesquisa, algumas considerações finais podem ser tecidas acerca dos resultados obtidos, tanto no primeiro momento de estudo teórico como na parte prática com o estudo de caso.
Primeiramente, pode-se concluir que a Organização Internacional do Trabalho (OIT) é atualmente o órgão principal para a tutela do direito e das condições do trabalho no plano internacional, traçando padrões mínimos para o trabalho decente, por meio das Normas Internacionais do Trabalho, diretamente para os 187 Estados que a compõem atualmente, e indiretamente para toda a comunidade internacional que é influenciada por seus atos. Tais padrões são definidos nas Normas Internacionais do Trabalho, que consistem em convenções, protocolos, recomendações, resoluções e declarações, e das quais compete à OIT a elaboração, adoção, aplicação e promoção.
Aprofundando o estudo nas Convenções, tem-se que estes instrumentos são tratados internacionais que materializam os direitos e as obrigações sociais e trabalhistas aplicáveis às partes e aos membros da Organização. Esses entes se vinculam aos tratados relativos ao trabalho do mesmo modo que se vinculam aos relativos a outras matérias de direitos humanos, ou seja, a partir da assinatura os Estados se vinculam internacionalmente, e internamente o processo depende do ordenamento jurídico de cada um. No caso específico do Brasil, além de se obrigar internacionalmente desde a assinatura, essas convenções integram a ordem jurídica interna com status materialmente constitucional, e se tornam formalmente constitucionais se forem aprovadas com o processo de votação necessário (art. 5º, §§ 2º e 3º, CF/88).
Além disso, no âmbito da OIT há o entendimento de que os Estados-membros não precisam ter ratificado determinada Convenção para que a esta se vinculem e assim sejam fiscalizados periodicamente acerca de sua aplicação. Processo similar ocorre com as Convenções devidamente assinadas e ratificadas pelos Estados.
Havendo o descumprimento de algum tratado internacional, as consequências entre as partes variam a depender da quantidade delas. De acordo com o Direito Internacional Público geral, por meio da Convenção de Viena, no âmbito de um tratado multilateral as demais partes podem, de comum acordo, encerrar a vigência ou suspender total ou parcialmente, em relação a todos ou à parte violadora, ou ainda uma parte isoladamente pode invocar a violação para suspender o tratado.
Trabalho possui algumas previsões específicas na Constituição da Organização e também em normas internas. Quando detectada violação a alguma dessas normas, seja por meio do Sistema Regular de Supervisão ou do processamento de Reclamações e Queixas pelo procedimento comum ou pelo Comitê de Liberdade Sindical, é realizado um procedimento de investigação e elaborado um relatório, seja pela Comissão de Peritos, pela Comissão de Aplicação de Normas de Conferência, pela comissão tripartite de investigação ou pelo próprio Comitê de Liberdade Sindical, que é então transmitido à Conferência Geral para deliberação.
Aprovado tal relatório pela Conferência, esta adota as recomendações naquele constantes e as transmite ao Estado que tenha sido enquadrado como irregular. O país, então, pode acatar as recomendações e as cumprir, ou as discutir na Corte Internacional de Justiça, cuja decisão é irrecorrível. O cumprimento dessas obrigações também pode ser acompanhado, por meio do trabalho da Comissão de Peritos. Se o referido país não cumprir as recomendações feitas, a Conferência Geral da OIT pode adotar “qualquer medida que lhe pareça conveniente”, que vai variar do resultado buscado e do caso concreto (art. 33 da Constituição da OIT).
Esse procedimento é o que deveria acontecer, em tese. Para avaliar sua aplicação na prática, então, esta pesquisa estudou dois casos concretos, que se desenrolaram contra o Brasil, o primeiro por descumprimento da Convenção 169 sobre Povos Indígenas e Tribais e o segundo por medidas antissindicais em desacordo com a Convenção 87, ambas da OIT, a primeira pelo procedimento comum previsto na Constituição e a segunda por meio do Comitê de Liberdade Sindical.
Com a análise desses casos, foi possível perceber que o procedimento foi seguido e diversas recomendações foram adotadas pela Conferência Geral. Além disso, outros resultados foram obtidos. Quanto à quantidade de recomendações, foram feitas diversas a mais na Reclamação a respeito da Convenção 169, em comparação com as feitas na Reclamação sobre práticas antissindicais do Estado brasileiro, o que leva à percepção de que a OIT demonstra mais confiança nas medidas a serem tomadas autonomamente pela CONALIS do MPT do que pelo governo brasileiro na defesa dos direitos dos povos indígenas. Percebe- se também a vinculação do Brasil às Convenções da OIT, mesmo à Convenção 87, não ratificada por aquele.
Ademais, quanto às consequências reais desses descumprimentos, não foi possível estabelecer um padrão de ações realizadas pela OIT. O que se constatou, todavia, é que ocorre a publicação do relatório feito pela Comissão ou Comitê, e que as sanções sociais e morais provocadas pela publicidade das infrações demonstra-se, na maioria dos casos, suficiente para
fazer com que o Estado adeque suas condutas e cumpra da melhor forma possível as Convenções objeto dos procedimentos.
Também podem ser feitas conclusões quanto aos resultados práticos que essas investigações obtiveram na regularização da situação do país e na promoção do trabalho decente, por meio da aplicação e controle das Normas Internacionais do Trabalho. No caso da Convenção sobre Povos Indígenas, o Ministério Público Federal desenvolveu protocolos de consulta para diferentes comunidades, e há também leis específicas para tratar de consulta em determinados temas. Essas ações parecem garantir a participação desses povos no processo de tomada de decisões do Estado, mas não podem ser encaradas como suficientes, pois não há um procedimento mínimo, obrigatório e geral, para ser seguido nesses casos de consulta, nem há uma certeza no País sobre quais matérias necessitam de consulta prévia aos povos indígenas.
No caso das práticas antissindicais alegadamente realizadas no âmbito da Justiça do Trabalho e do Ministério Público, com ações de anulação de cláusulas percebe-se que a CONALIS continua envidando esforços no sentido de garantir a liberdade sindical no Brasil, ao mesmo tempo que estabelece diálogos entre os sindicatos e a máquina estatal. Todavia, a legislação trabalhista pátria continua sendo um empecilho para a concretização da liberdade sindical no País, pois enquanto vigorar o princípio da unicidade sindical não será possível a ratificação e aplicação da Convenção 87 no território nacional.
Por fim, conclui-se que a atuação da Organização Internacional do Trabalho é importante para a construção do trabalho decente em toda a comunidade internacional e especificamente no Brasil. A elaboração e aprovação de normas internacionais que estabeleçam padrões mínimos para as relações e atividades laborais, bem como o controle da aplicação destas nos países membros da Organização e partes nos tratados, além do trabalho de assessoria técnica que seus peritos desenvolvem com os Estados que a solicitam, são todas formas pelas quais busca-se e chega-se cada vez mais perto de atingir a paz por meio da justiça social, como afirma o preâmbulo de sua Constituição. Em sua atuação no Brasil, é possível concluir também que a OIT vem realizando, desde sua criação em 1919, diversas ações que conseguiram transformar, e ainda transformam, a realidade do trabalho e dos trabalhadores brasileiros.
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