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CONCLUSÃO

No documento robledoestevessantospires (páginas 164-168)

O percurso teórico-analítico desenvolvido neste estudo é, em nossa visão, uma mostra clara da riqueza de constructos oferecidos pelos modelos hodiernos da Linguística Cognitiva. Tomando como tarefa investigativa a identificação, descrição e explicação de uma expressão escalar da Língua Portuguesa de grande complexidade significativa, a eleição da Gramática das Construções como modelo nuclear – e de uma Semântica de Frames com ela compatível – foi uma escolha acertada no caminho de validação de nossa análise. Primeiro, pelo relevo que não só suas teses (falar é fácil!), mas, principalmente, suas ferramentas analíticas oferecem ao trato da diversidade linguística. Segundo, pela elaborada modelagem de seus constructos e categorias no trato de construções sintáticas.

Enfeixando tais contribuições, foram fundamentais ao nosso estudo de caso a definição de construção, a hipótese de generalização de superfície (“what you see is what you get”), a noção de herança radial, dentre outros constructos, oferecidos pelo modelo goldbergiano de GrCC – a Gramática das Construções Cognitiva (seção 2.5). Das contribuições iniciais do Constructicon (subseção 2.6.2), as propostas de definição de Construções de Modificação de Grau e a formulação de seus constructos foram as ferramentas mais decisivas para a configuração semântico-formal da CHS. A Semântica de Frames – com os instrumentos analíticos específicos da FrameNet (subseção 2.6.1) – propiciou uma definição semântica mais refinada da CHS, pela identificação do frame que evoca. Outras contribuições teórico-analíticas procederam das teorias da Linguística Cognitiva que abordam, substancialmente, os processos de conceptualização e categorização e de integração conceptual, como a Teoria da Metáfora Conceptual e da Metonímia (usadas neste estudo como forma de acesso ao Símile) e a Teoria da Mesclagem (evocada para a caracterização do processamento de integração conceptual definidor do Símile) (seções 2.4 e 2.5, respectivamente).

Assim, tentando conciliar de modo coerente tais constructos (o que não foi tarefa fácil!), uma abordagem holística e rica em dispositivos analíticos nos permitiu aceder às redes complexas de forma e significação do signo eleito – a Construção Hiperbólica por Símile, cuja configuração apresentada neste estudo reveste-se de um significativo ineditismo. Dada a contemporaneidade dessa linha analítica, é fato que muitos de seus constructos recém-saídos

do forno estão ainda que em franco processo de elaboração e refinamento. Este estudo tem a pretensão de ter contribuído neste processo em relação a alguns de seus aportes analíticos.

De modo a evidenciar tais ganhos, passamos a arrolar nossos principais achados analíticos. Partindo do suposto de que as instâncias de expressões modificadoras de grau do tipo branca que nem neve; duro que nem pedra; preto que nem carvão integrariam um padrão construcional especifico da Língua Portuguesa, nossa agenda analítica consistiu em evidenciar tal hipótese central. Assim, respondendo de modo sintético à questão que mobilizou este estudo – quais recursos formais e semântico-pragmáticos são capazes de desenhar a

riqueza expressiva da CHS? – apresentamos nossos resultados.

Em relação à configuração da CHS, chegamos às seguintes definições:

1. Trata-se de uma construção vinculada à Construção Genérica de Modificação de Grau e cujo constructo se desenha pela presença de dois Elementos da Construção (EC): um EC Escopo ou núcleo graduável e um sintagma complexo (EC Qualificador_de_grau) resultante da ampliação de valência do EC Escopo;

2. Na contramão da tradição descritiva, tanto da Gramática Tradicional como da Linguística, e invocando a Hipótese de Generalização de Superfície (subseção 2.5.4), este constructo se configura como uma sintagma complexo que envolve a ampliação da valência básica de um escopo/núcleo graduável, e não como uma estrutura oracional/clausal, em que o verbo ou predicado está subentendido;

3. Evocando o frame Posição_máxima_em_uma_escala, a CHS tem seu Valor_hiperbólico assegurado através da comparação por Símile.

4. A rede parcial de herança a que se vincula tem ascendência na Construção de Ampliação de Valência e na Construção Genérica de Modificação de Grau. Vincula-se ainda, por elo polissêmico, à Construção Comparativa Simples, da qual se distingue pela evocação de cenas conceptuais ou frames diferentes (frames de Similaridade e de Posição_máxima_em_uma_escala, respectivamente). A partir de elos de Instanciação, a CHS apresenta três subpadrões (CHS Adjetiva, Adverbial e Verbal).

5. Em termos de sua função discursiva, esta construção evocada por que nem, marcadamente informal, seja em modalidade oral ou escrita, demarca o domínio da autoexpressão, da subjetividade nas molduras interativas.

Tais resultados certificam o valor semântico-pragmático específico dessas expressões hiperbólicas do Português, assegurando-lhes o estatuto de instâncias de um padrão construcional – a Construção Hiperbólica por Símile (CHS).

A partir da agenda investigada acima (em síntese), desenvolvemos ainda um estudo teórico-analítico do Símile, dada a sua presença de relevo na configuração formal e semântico-pragmática na CHS, como a estratégia de evocação do seu valor hiperbólico. Como um processo figurativo que vem merecendo pouca atenção da Linguística Cognitiva, o Símile se define, nas hipóteses assumidas neste estudo, como uma projeção distinta da Metáfora em termos de expressão linguística, de processamento cerebral e cognitivo. Esta última distinção foi posta, de modo inédito, neste estudo e defendida mediante uso da Teoria Conceptual da Mesclagem (subseção 2.4.2). Assim desenhamos o Símile prototípico como uma Rede em Espelho, configurada por Relações Vitais de Analogia e Similaridade (subseção 5.6.1). Apesar do caráter embrionário (e passível de correções) de nossas decisões analíticas sobre tal processamento em mescla do Símile, optamos por apresentá-lo neste estudo, dada a relevância que lhe atribuímos como uma agenda de trabalho a ser continuada e aperfeiçoada.

Cabe ainda considerar a decisão metodológica assumida neste estudo. Na esteira dos trabalhos desenvolvidos em nosso grupo de pesquisa – Macroprojeto Construções Superlativas do Português do Brasil: uma Abordagem Sociocognitiva (MIRANDA, 2008, 2010 – Edital Universal MCT/CNPq [477670/2008-3] e [479984/2010-7]) – em busca de uma metodologia coerente com nosso paradigma teórico e nossas questões (a rede periférica, alternativa, de construções superlativas do Português), a opção por uma Linguística Cognitiva baseada em Corpus (capítulo 4), permitiu-nos o acesso desejado às instâncias da CHS em seu habitat natural, qual seja, a gama de textos disponibilizada pelo Corpus do Português e pelo Corpus Legenda de Filmes (seções 4.2 e 4.3, respectivamente). A fixação de padrões de frequência de ocorrência/tokens e de tipos/types através do subcorpus específico de instâncias da CHS foi também um procedimento de sucesso, na medida em que nos permitiu aceder aos processos de Convencionalização e de Produtividade de nosso padrão construcional, de modo a delinear (observados os limites e restrições de nossas bases de dados) seus usos efetivos na

Língua Portuguesa.

Por fim, as últimas palavras que me cabem na conclusão, como doutorando, como professor de Português de escola pública, como sujeito deste trajeto investigativo. Nada melhor para expressar o percurso hiperbólico de uma tese, com seu ponto de chegada, do que a nossa própria construção – cansado que nem escravo e, agora, livre que nem passarinho!!!. O aprendizado foi igualmente hiperbólico, não só durante a elaboração deste projeto, como em todo processo de formação como linguista no PPGLinguística da Faculdade de Letras – UFJF. A descoberta da Linguística Cognitiva, com sua constelação de modelos, trouxe-me uma nova dimensão de linguagem e de língua em tudo diferente do que aprendi (e pude ensinar) em minha história de estudante e professor de Língua Portuguesa. Desvelar os processos de significação guiados pela forma – em vez de descascar cebolas, buscando atrás de cada camada de forma outra forma (FAUCONNIER & TURNER, 2002) – foi a descoberta mais significativa que me conduziu à escolha de meus projetos dissertativos, sobre a metáfora da viagem, e de tese, sobre uma construção marcada pelo exagero, como forma de jogo expressivo nos embates discursivos. Perscrutando a “periferia” da rede de construções que instituem a gramática e o léxico de nossa língua, a ideia da diversidade linguística ganhou outro colorido e outro valor. Esta é, pois, uma riqueza, um aprendizado que faz toda a diferença para um professor de Língua Portuguesa de uma escola pública brasileira. O trajeto não para aqui, portanto.

Nossa expectativa, por fim, é de que, participando com a descrição de mais um nódulo alternativo da rede de construções superlativas do Português, estejamos contribuindo para uma descrição mais rica dos usos linguísticos do Português.

No documento robledoestevessantospires (páginas 164-168)

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