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Conclusão: sobre riscos e rotinas nas favelas

A descrição das formas de atuação da polícia nas favelas é sempre acompanhada de críticas acerbas. Estas, entretanto, não se dirigem pro- priamente à corporação (ninguém é contra a repressão policial), nem tam- pouco aos métodos violentos em si mesmos. As críticas são antes ao ca- ráter indiscriminado da ação, que não distingue entre «gente de bem» e «marginais». Em outras palavras, o que os moradores criticam é menos a violência policial em si e mais a falta de seletividade de seu objeto.

Parte das críticas à atuação da polícia denuncia a corrupção e a inação policial nos postos situados nas localidades, em geral na periferia delas, sugerindo que a aceitação de métodos violentos tem como limite sua funcionalidade como «garantia externa» da ordem social local. A crítica não se organiza a partir da denúncia das ilegalidades cometidas pelos po- liciais (exceto no caso de violações ao direito à vida), mas antes como reação aos desajustamentos que suas práticas introduzem no fluxo das interações rotineiras nas favelas. A causa das interrupções produzidas pela violência policial algumas vezes é atribuída aos estereótipos e preconcei- tos contra os favelados (há uma clara compreensão de que os policiais não agem da mesma forma na «favela» e no «asfalto»). Mas a menção ao preconceito constitui outra forma de crítica (não se refere aos policiais como atores concretos, mas à prática institucional que operacionaliza a construção do «problema da violência» e das medidas para sua solução articuladas a partir da «geometria variável»).

Assim, a conclusão geral sobre as críticas dos moradores de favelas à violência policial pode ser resumida da seguinte maneira. Elas denunciam a violência, mas estão referidas a outro problema: a quebra das rotinas. É esta questão não tematizada que organiza todo o discurso crítico e «ajusta» o ponto de vista das camadas sociais mais abastadas (segregador, estereotipado e preconceituoso) e o dos moradores de favela (bem como

16Em situações de risco, o significado simbólico de certos papéis sociais é acionado

na tentativa de obter «imunidade». No caso dos evangélicos, através de uma conduta compatível com a esperada da filiação religiosa, do uso da Bíblia, etc. No caso das mães, através do recurso discursivo aos «laços primordiais» – «as igualdades de sangue, fala, cos- tumes» experimentados como «vínculos inefáveis, vigorosos e obrigatórios em si mesmos» (Geertz 1978, 261). Para o tema, cf. Leite 2004.

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dos demais territórios da pobreza). Estas duas referências do imaginário sobre o Rio de Janeiro – favelados e moradores do «asfalto» – centrais na configuração de seus conflitos, acabam se encontrando naquilo que não dizem: a intensa preocupação com o prosseguimento das rotinas quoti- dianas, vividas como sistematicamente ameaçadas pela violência criminal. No caso dos moradores de favelas, o que está em questão não é a regu- lação estatal/legal, a democracia (embora este tópico apareça sob a forma de reclamações quanto às diferenças de tratamento no «asfalto» e na «fa- vela»), nem a restrição da violência. O problema criticado é, antes, o des- respeito às diferenças e hierarquias internas que constituem a versão local da ordem institucional.

A descrição das formas de atuação dos criminosos também vem sem- pre acompanhada de crítica, mas sob outro quadro de referência, que in- corpora uma periodização ausente no entendimento da violência policial. Em outras palavras, «antigamente» a atividade criminal não afetava o fluxo regular da vida local por estar ajustada a ele. Podia até mesmo con- tribuir para estabilizá-lo, na medida em que este ajustamento convertia os criminosos em uma espécie de autoridade local. Por outro lado, a ati- vidade criminal sendo menos visível e menos ostensiva, isto é, intersticial, a atuação da polícia também o era. Assim, os moradores parecem consi- derar que o segredo, a clandestinidade e a invisibilidade pública da ativi- dade criminal, provocando certo desinteresse (da polícia, da população «de fora» e dos próprios moradores) pela mesma, eram característicos desse passado idealizado. Ao contrário, «hoje» os criminosos/traficantes são vistos como orientando-se segundo um padrão de sociabilidade pró- prio que é incompatível com as regras de convivência dos moradores co- muns. As críticas às humilhações, à falta de «respeito» – elemento central do repertório crítico dos moradores de favelas – traduzem sua perceção acerca do não reconhecimento da alteridade dos favelados por parte dos agentes da sociabilidade violenta.

Frente a esta forma de vida, os moradores comuns desenvolvem um esforço de «limpeza simbólica» que é de dupla natureza. De um lado, pro- curam afastar-se do mundo do crime, reivindicando não serem identifi- cados com os criminosos, enfatizando sua natureza ordeira e pacífica e seus padrões de moralidade burguesa. Nesta operação, ressignificam o sen- tido de «vagabundo». Antes uma categoria externa de criminalização dos favelados, enquanto «classes perigosas», articulada a partir das referências do mundo do trabalho (Valladares 2005; Zaluar 1985), tornou-se hoje uma categoria nativa que se refere ao crime e à violência, demarcando fronteiras em relação aos «cidadãos de bem» residentes em favelas. De outro lado, 05 Polícia, Segurança Cap. 5_Layout 1 10/8/12 4:56 PM Page 164

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como muitas vezes os traficantes são parentes, vizinhos ou conhecidos próximos, os moradores desenvolvem um esforço (sempre individuali- zado e pontual) para «reumanizar» ou «remoralizar» a pessoa em questão. Não que as práticas criminais sejam justificadas. Os moradores apenas su- gerem que, mesmo agindo de maneira reprovável, a pessoa tem outras ca- racterísticas que a tornam «gente como a gente» e não um monstro moral que não «respeita» ninguém e é objeto de temor e crítica velada.

Paralelamente ao reconhecimento da radical incompatibilidade entre formas de vida contíguas compartilhando o mesmo território, são muito intensas as manifestações de reprovação, desconforto e medo relaciona- dos aos constantes confrontos armados entre bandos de criminosos. A conclusão geral sobre as críticas dirigidas à violência criminal caminha na mesma direção das críticas à atuação dos policiais. Não são propria- mente nem o crime nem a violência que organizam o discurso crítico, mas sim, como se viu nos relatos analisados, a interferência desta forma de vida sobre o fluxo rotineiro da vida nos territórios das favelas. Tudo isto sugere que a «presença ausente» (não reconhecida, logo, não temati- zada) no discurso sobre a violência policial e criminal dos moradores de favela é o fluxo das rotinas quotidianas, ou melhor, o caráter imprevisível das frequentes interrupções que elas sofrem. Uma utilização livre do que Giddens (1997) designa de «segurança ontológica» permite pensar que esta depende de «garantias externas» que estariam vinculadas ao que este autor denomina de «sistemas peritos». Não se pode presumir, entretanto, a confiança dos moradores de favelas nas instituições estatais encarrega- das da proteção aos cidadãos. Operando no quadro da «cidadania de geometria variável», estas, com frequência, trazem incerteza e insegurança à vida dos segmentos subalternos da população, uma vez que, por sua extensão e qualidade, os bens de cidadania e os serviços públicos dife- renciam-se social e espacialmente e a lei escrita não se aplica universal- mente a todos os casos e segmentos sociais. A noção de «sistema perito» de Giddens está associada à burocratização do conhecimento sob a forma de organizações incrustadas na vida quotidiana e supõe um universalismo que não existe no caso de alguns sistemas no Brasil, cujas regras de fun- cionamento, embora formalmente burocratizadas, na prática são perso- nalizadas, contingentes e contexto-dependentes. No caso em análise, os aparelhos de controlo social, que deveriam tender ao monopólio da vio- lência simbólica e material, não garantem regras generalizadas e impes- soais («peritas») de conduta e não são, portanto, confiáveis.

O material coletado sugere que a experiência prática e imediata de uma ordem rotineira estável (aquilo que permite «continuar», para

Giddens) precisa ser diligente e intencionalmente construída no aqui e agora das próprias práticas rotineiras. É esta vigilância «encaixada» (Gid- dens 1997), que desempenha o papel das «garantias externas» e dos «sis- temas peritos», através da qual os moradores ajustam suas condutas às si- tuações de violência, perigo e insegurança. Isto leva a crer que o funcionamento institucional, com seus respetivos conflitos, é fortemente influenciado por este modo de manter a «atitude natural» e reproduzir a experiência da densidade do mundo necessária à «segurança ontológica». Os bloqueios e as recorrentes interrupções à continuidade das rotinas passam a ser cognitiva e moralmente manipulados como «riscos», mas a falta de organicidade tanto dos próprios riscos quanto dos recursos dis- poníveis para lidar com eles tornam sua administração uma tarefa quase pessoal que envolve enorme sofrimento psíquico. A ansiedade gerada por esta ameaça à segurança ontológica expressa-se sob a forma de um medo social difuso, que acaba por produzir demandas de uma estabili- zação das rotinas pela força, fechando assim um círculo de ferro que re- produz indefinidamente a violência como elemento estruturador funda- mental, sempre presente e sempre temido, nas favelas e em toda a cidade.

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