Por fim, esta dissertação foi realizada para colaborar com um pensamento Matsés em relaçaõ a morte corporal. Esta é a continuação do que chamamos de outra vida no mundo paralelo do nosso, considerado o mundo dos espíritos, e que de alguma maneira há um destino a seguir.
Nessa parte está entrelaçada pelo choro-canto (Uinëc) que são expressões na comunicação com esses espíritos. Foi notável a demonstração da existência de não apenas um único espírito, mas de alguns outros que não são entoados durante o ritual do choro-canto, e por isso eles permanecem na terra e se tornam inimigos, inclusive atacando as pessoas vivas, muito no caso de vingança como camun. Além disso, também podem fazer um modo de incorparção em pessoas para dominar e fazer com que fujam de suas casas correndo para mata, sem que outras pessoas consigam segurar-las então esses espíritos ficam vagando literalmente perdidos, até que consigam encontrar os seus fins virando donos de animais e plantas.
Para mim sendo Matsés foi extremamente desafiador conseguir reproduzir esse material no formato escrito. Estar Matsés vivendo em um outro contexto social é extremamente difícil ainda que adaptavel, inclusive, considero um jogo duplamente dificultoso, justamente diante dos desafios por não ser o meu idioma nato, e também diante de todas as necessidades enquanto trajetória como descritas aqui. Entretanto, considero que foi possível colaborar através da busca de conhecimentos praticados até então, resgatando um tema que possibilitou uma reconexão juntamente com o meu povo no processo de estar novamente “ouvido e olhado” enquanto Matsés.
Assim, rompendo de alguma maneira a ideia de pesquisador e informante, a vivência junto ao pesquisado, aprender a língua do pesquisado e metodologias de pesquisas que Malinowski propôs (Argonautas do Pacífico Ocidental 1922). Para não-indigenas e para os indígenas quais seriam as ideias para pesquisar os nativos, como inserido nesse ambiente de pesquisador não-indígena devemos seguir a mesma regra? De certo modo que nos encontramos em novas realidades, onde cada vez mais busca-se escrever suas histórias e saberes enquanto jovens, como também há um outro lado onde os pensamentos dos velhos refletem quando fazem uma crítica em ralação ao contato com não-indígenas. Muitas vezes são ignorados pelos jovens, mas que por sua vez apresenta um papel fundamental. Estamos
diante de uma cultura que norteia e reforça a incorporação expontanêa que são atribuídos, para além da escrita e na obtenção de bens materiais promovidos pela influência do sistema nas cidades para consumo destes bens.
Diantes deste contraste que encontro, tratamos que a questão a indígena para um conhecimento paralelo com a sociedade comum, conduz que nossos saberes enquanto um povo é puramente nossa visão de mundo, o que não é questão de ser verdadeiro ou falso, mito ou real, confiar ou desconfiar. Do ponto vista indígena é muito mais profundo. Essas são vivências e sentidos, sendo que uma delas é a importância do “choro-canto” que serve como forma de comunicação com os espíritos a partir da morte, e que causa uma nova reconfiguração de parentesco para além da vida. Por isso, ao longo deste estudo foram nomeados “termos” específicos, que também são justificados através de metáforas ou hipóteses na linguagem do chorar, que retratam as diferentes expressões desenvolvidas ao longo do tempo para linguagens dos espíritos. Destaca-se que esses ensinamentos foram que os Matsés adquiriram dos mortos e dos Cuëdënquido que tiveram um contato direto e indireto com o povo Matsés.
No entanto, há sim uma preocupação devido escasez de aprendizagens dos jovens atuais desses conhencimentos que são extremamente importantes para nossa continuidade de existência, e que geralmente não são valorizados como deveriam. Por esse motivo há entendimento de que os ataques e maus-tratos que os espíritos fazem com pessoas das aldeias estão diretamente relacionados com essas perdas. Os velhos possuidores de conhecimentos fazem suas reflexões a respeito de como uma causa do processo de distanciamentos da mata, através do contato com a sociedade nacional, isso pode influenciar. Tudo isto é exaltado com muita lamentação, e abordam essas questões com a crítica principalmente para minha geração em diante. Não que essa altura vamos retornar a selva e viver como antigamente, mas eles tentam nos transmitir a luz do conhecimento e vivência para que seja possível preservar alguns destes conhecimentos, mesmo estando cientes que o contato é algo irreversível, mas que seja possível ainda estabelecer uma melhor convivência entre natureza, animais e espíritos.
Para lembrar a comunhão das vidas passadas, estas histórias que dela ainda práticamos como charo-canto, conhecimentos sobre as ervas medicianais são alguns pontos, por mais que haja uma preocupação dos nossos velhos com as juventudes das nossas
realidades, entendo que passados por diversas mudanças ao longo dos tempos, em que as nossas histórias nos revelam como convivemos com todos os seres, inclusive com espíritos (Cuëdënquido), devemos procurar manter não trocar esse pelo outro e nome da dominação e pela imposição.
As nossas histórias estão diretamente ligadas com a vida cotidana no que diz respeito a ligação com as plantas, terras e animais entender e continuar a conviver a vidas com eles são algumas questões que está em jogo. A história nos mostra como ocorrem a evolução de todos os seres da terra em diferentes seguimentos transformando-se e alcançando elevados níveis de sobrevivência de cada ser. Isso é de extrema importância, uma vez que essas histórias trazem essa visão e registra uma dada versão para as nossas vidas e também podem ser contadas em diferentes versões pelos velhos, assim propagando para os mais novos que vão herdar todos esses contos, deixando sua essência.
O povo Matsés tem sua própria característica de navegar entender sobre os mundos que compartilham isso ficou evidente ao longo das histórias, mostrando que a morte não é fim, mas que após a mortes várias outras vidas renascem de dentro do corpo como “espíritos e camun”, além disso, que passaram por algumas oportunidades em se adaptar a não existência da morte.
Nós enquanto um povo que detém essa cultura e conhecimentos, merecemos continuar vivendo, e por isso mesmo evitei de usar alguns termos usados pelos não-indigenas como: cosmologia, mito, invenção ainda que possa não parecer verdade absoluta do ponto de vista de outras culturas. Para nós, isso são fatores vividos, compreendidos, sentidos e que mantém relações com todos os seres da terra, ainda que com todas as novas formas de viver.