Esta pesquisa procurou compreender os motivos que levaram muitos alunos ao abandono do Curso Técnico em Agropecuária integrado ao Ensino Médio da Escola Agrotécnica Federal de Barbacena, priorizando os fatores concebidos na própria instituição de ensino. Pretende-se, na conclusão desta dissertação, apresentar sucintamente os principais motivos apontados pelos alunos e professores como causa do abandono, bem como indicar elementos da organização escolar que podem ter contribuído para a evasão no curso citado. Também é objetivo deste tópico apresentar possíveis desdobramentos da pesquisa para a prática pedagógica da EAFB, apontar limites da pesquisa e possíveis continuidades.
A análise dos instrumentos metodológicos empregados nesta pesquisa permitiu constatar que os principais motivos que levaram os alunos ao abandono do Curso Técnico em Agropecuária, no ano de 2008, foram a reprovação e o desamparo da instituição para que o aluno tivesse condições de permanecer na escola.
Sobre o primeiro motivo, a reprovação, detectou-se que 50% dos alunos que evadiram no ano de 2008 estavam reprovados e, ainda, essa foi a explicação dada ao abandono pela maioria dos alunos que fazem parte desta pesquisa e que vivenciaram o processo educativo. Quanto ao segundo, desamparo da instituição, constatou-se, ainda na visão discente, que não houve a preocupação da escola frente a questões como: motivação dos alunos para que permanecessem na escola, acompanhamento do processo ensino-aprendizagem e das práticas utilizadas pelos docentes, indicação de alternativas para que o aluno pudesse ter outra chance de aprendizagem, como a recuperação paralela do conteúdo. Desse modo, a hipótese levantada no início deste trabalho, de que a EAFB tem responsabilidade frente ao aluno evadido, foi evidenciada.
Considerando-se o posicionamento dos docentes, verificou-se que os principais motivos entendidos por eles como a causa do abandono relacionavam-se à falta de vocação do aluno para o curso ou à falta de compromisso do estudante, deixando de lado o papel que a escola desempenhou na trajetória dos alunos.
Nesse sentido, merece ênfase a indicação de sete professores para que a escola tivesse mais rigor ao classificar os alunos no processo seletivo, como medida para que os alunos não abandonassem o Curso Técnico em Agropecuária. Os docentes negligenciaram a função social da escola ao sugerir esta prática excludente, em que os jovens deixariam de ter acesso à escola e ao conhecimento e, assim, à instituição não acarretaria o risco de abandoná-los.
Esse ponto também foi evidenciado na análise das tendências pedagógicas presentes na prática dos docentes da EAFB. Os alunos pesquisados definiram a função da escola seguindo a tendência tradicional e tecnicista, destacando aquela ideia de que a escola deve preparar os indivíduos para o desempenho de papéis sociais, e aqueles menos capazes deveriam se empenhar para conquistar seu lugar junto aos mais preparados. É interessante observar que, nas três instâncias utilizadas para definir as tendências pedagógicas que embasavam a prática docente (métodos de ensino, relação professor-aluno e pressupostos de aprendizagem), esta postura liberal, tradicional e tecnicista, foi consideravelmente marcada.
O uso das tendências pedagógicas para investigar a natureza das relações estabelecidas no cotidiano escolar revelou que existe divergência entre o posicionamento docente e discente quando a prática docente é analisada. Enquanto os discentes pontuaram as práticas empreendidas dentro da perspectiva liberal, constatou-se que os professores indicaram os enunciados que caracterizavam a tendência crítico social dos conteúdos como aqueles que melhor apreendiam o acontecer educativo em suas aulas.
72 Vale ressaltar que a diversidade das tendências pedagógicas era esperada, já que o acontecer educativo não é vivenciado da mesma maneira pelos sujeitos pesquisados. Porém, certas práticas mostradas pelas tendências não poderiam deixar de ser advertidas, já que podem ter favorecido o movimento de evasão escolar ocorrido no ano de 2008, levando em conta os fatores intraescolares.
Sobre essas práticas, foi possível perceber que as relações estabelecidas no interior da escola estão centradas no professor, levando à submissão do aluno. O autoritarismo detectado na tendência liberal, a forma como a avaliação é executada são exemplos de práticas antidemocráticas que podem excluir os alunos ―menos preparados‖.
Da mesma maneira, podemos dizer que, tendo como objeto de estudo uma escola técnica profissionalizante, identificamos um laço forte entre a prática docente e a visão tradicional tecnicista, de adequação e controle. Consideramos, então, que esta instituição ainda apresenta traços daquele papel definido às escolas de ensino técnico na década de 1960, em que o estado buscava adequar o sistema educacional à orientação político-econômica do regime militar, inserindo a escola no modelo capitalista de produção.
Portanto, a partir da análise delineada acima, percebemos alguns desdobramentos para a prática pedagógica da EAFB. Não é possível negar a responsabilidade da escola frente aos alunos que fracassam e não conseguem ali permanecer. Se o estudante não aprendeu durante o ano escolar, isso não se deu exclusivamente por responsabilidade dele. Neste sentido, confere- se a urgência de rever o sistema de avaliação empregado, que baseado na classificação, deixa de lado a importância do aprender. É nítida a necessidade do constante zelo, por parte da escola, para com os estudantes que ali ingressam e pretendem concluir seus estudos. E, por fim, destacamos que é preciso que o professor possa repensar o fazer docente, utilizando as tendências pedagógicas como instrumento de análise e avaliação de sua prática e atuação.
Finalmente, vale a pena indicar algumas limitações da pesquisa e possíveis continuidades. O principal limite encontrado na realização deste trabalho refere-se ao instrumento metodológico da análise documental. Não foram encontrados na escola documentos que pudessem trazer elementos da trajetória escolar dos alunos no ano de 2008. Na análise das atas de conselho de classe pouco se fala de avanços, dificuldades e/ou limites dos alunos no processo ensino-aprendizagem; os relatos eram restritos ao comportamento dos alunos.
Por fim, a partir das constatações aqui apresentadas, apontamos algumas questões que podem suscitar futuras pesquisas. A primeira delas refere-se à forma como o currículo escolar é organizado. Que conteúdos são privilegiados? Por quê? Quais as expectativas em torno da formação dos alunos que ingressam no Curso Técnico em Agropecuária? A segunda refere-se à avaliação escolar. A partir dos dados apresentados, é importante aprofundar os estudos sobre as práticas de avaliar presentes na instituição. A pesquisa também traz a tona questionamentos sobre a influência dos fatores extraescolares no processo de evasão escolar. Como se dá a relação entre a família e a escola? Quais as práticas empreendidas pelas famílias? Qual a influência da cultura do alojamento na trajetória dos alunos internos? Por fim, remete-nos à questão: por que alunos permanecem no curso Técnico em Agropecuária da EAFB? Quais são os fatores positivos que interferem na trajetória de escolarização desses jovens?
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