• Nenhum resultado encontrado

CAPÍTULO II – Participação, Empowerment e Cidadania

CONCLUSÕES E ENQUADRAMENTO NESTE TRABALHO DE PROJETO

A definição dos vários conceitos, durante o enquadramento teórico, permitiu reforçar a ideia defendida e os objetivos a alcançar com este estudo. Importa agora concluir a parte teórica com algumas conclusões derivadas do processo anterior.

Atualmente, a CD procura dar resposta aos novos desafios e realidades das sociedades. Não é considerada como mais um instrumento para o desenvolvimento, mas um planeamento e uma abordagem nova, complementar às já existentes.

Esta nova perspetiva de cooperação baseia o seu trabalho no reforço das capacidades de diálogo com as sociedades civis, dos países em vias de desenvolvimento, a fim de favorecer a emergência da democracia e a evolução das populações.

Ainda nesta nova perspetiva de cooperação, assiste-se a um envolvimento de novos atores da sociedade civil e um maior envolvimento dos atores dos países em vias de desenvolvimento, que em conjunto, partilham ideias, projetos e desafios que, um poder estatal não conseguiria atingir.

As diferenças das identidades regionais e locais, assim como as diferenças das bases organizativas, culturais, sociais e económicas, foram permitindo o aparecimento de uma pluralidade de novos atores, como as autarquias locais, organizações descentralizadas não governamentais, pequenas e médias empresas ou associações, aos quais lhes foi sendo oferecido um poder de intervenção, reconhecendo-lhes mesmo, claros fundamentos económicos nas ligações.

Este crescente envolvimento de atores locais como agentes de CD, tendo em consideração a sua capacidade de proximidade com as pessoas e os problemas locais, veio, ao longo do tempo, tornando-os agentes privilegiados, no desenvolvimento local, envolvendo igualmente os atores dos países em desenvolvimento que, ao participarem nas atividades, desenvolvem potenciais que até à data estariam ocultados, facilitando igualmente questões como o empowerment e a participação das gentes locais.

A participação é também um elemento essencial ao bom funcionamento da CD. Sem existir uma boa mobilização e a consciência de dever participativo, nos problemas e aspirações das sociedades, não é possível este tipo de cooperação, pois a mesma requer ação coletiva. Por outro lado, para os cidadãos poderem exercer uma cidadania ativa e um poder participativo, é necessária uma boa abertura a essas componentes, por parte dos agentes da sociedade que têm poder para o permitir: escolas, municípios, associações, coletividades, ONG’s, …

46

É relevante o papel destes atores (descentralizados) na sensibilização e mobilização dos cidadãos mas, igualmente relevante, é a consciência do trabalho em parceria, tanto entre os cidadãos e os diversos agentes como os agentes entre eles.

Assumir uma atitude de co-responsabilidade e diálogo e desenvolver a participação ativa das pessoas, são elementos a ter em conta, assim como também, reconhecer uma importância de atuação nos diversos processos.

Atualmente e no futuro, sensibilizar cidadãos resultará não só da mobilização de novas parcerias, novas competências e novos recursos para as ações de cooperação, como, acabará por enriquecer a componente da formação de uma comunidade local, mais consciente, o que se traduz numa “educação para o desenvolvimento”.

No âmbito da CD e assente nas missões das Organizações da Sociedade Civil, proporcionam- se aos novos agentes (comunidades territoriais), oportunidades, baseadas muitas vezes em solidariedades, para seguirem com projetos de desenvolvimento local, tendo em consideração os seus trabalhos, ideias, iniciativas, que os tornam “empowered” quando estão em causa, os seus futuros e os seus destinos.

Relatos de organizações não governamentais que atuam no terreno, nomeadamente nos países africanos, afirmam que existe todo um potencial a desenvolver, toda uma vontade a aproveitar, por parte das populações locais:

Mulheres e homens (…) que conseguem construir as suas vidas com o pouco que têm, com ética, com dignidade, com coragem e determinação. Coragem de cair para se levantar logo a seguir, mantendo a determinação de mudar as suas vidas, transformar a desgraça em fortuna, as convulsões políticas ou naturais em oportunidades de mobilizar a acção solidária em favor de suas comunidades e dos seus países. Homens e mulheres com uma capacidade imensa de sofrer e de ousar, sem nunca perderem a esperança e a força indomável das suas vontades de construírem seus sonhos no seu torrão natal. (Henriques, 2009:13).

As populações locais estão a aprender a viver com o que dispõem e a utilizar o que têm, como aliado no desenvolvimento local e na sustentabilidade das regiões. As relações de confiança, de proximidade e partilha, os laços de solidariedade e cumplicidade, com que já identificam os parceiros das organizações não governamentais que vêm do norte, são uma mais valia para todos os intervenientes, na promoção da ação cívica.

Para além destas questões que se prendem ao desenvolvimento humano, existe também a componente democrática e económica.

Em grande parte dos países em desenvolvimento, os processos de democratização e descentralização têm sido difíceis e a colocação de agentes de cooperação descentralizada,

47

que funcionem como representantes da sociedade civil, tem vindo a ser uma política a reforçar pela comunidade internacional. Por outro lado, em termos económicos, os projectos de CD têm demonstrado resultados rápidos, tangíveis e mesuráveis. Os seus indicadores de sucesso têm mostrado resultados qualitativos e não quantitativos, assente em lógicas endógenas de desenvolvimento, baseado no bem estar das populações e não, em critérios importados.

Uma outra característica positiva da CD, enquanto planeamento de uma nova intervenção, complementar às já existentes, é o facto de ser considerada como um ótimo suplemento à Ajuda Pública ao Desenvolvimento (Ramos, 2002:09).

Não se pretende afastar os governos centrais do processo, mas alargar a participação das entidades não governamentais como novos agentes, em projetos que podem trazer mútuos benefícios.

Todos estes conceitos estão interligados e dessa interligação, podemos retirar benefícios para o futuro coletivo dos jovens e do seu papel na cooperação para o desenvolvimento. Através do conjunto destes conceitos, podem-se tirar conclusões sobre o papel fundamental que a juventude pode desempenhar em parcerias centradas na redução da pobreza e no desenvolvimento sustentável, através de ações e iniciativas conjuntas, e no âmbito da cooperação descentralizada. Além disso, através de projetos de cooperação, pode-se colmatar as diferentes necessidades de desenvolvimento pessoal dos jovens (e outros cidadãos), habilitando-os com instrumentos diferentes de informação, que lhes permita conhecer outras realidades, de sociedades diferentes e assim, contribuir para a melhoria das competências pessoais, para a redução de desigualdades entre seres humanos, para o desenvolvimento local e para uma igualdade de direitos e oportunidades e da tolerância.

48 PARTE II – ANÁLISE DE UM PROJETO

A segunda parte foi dividida em dois capítulos: o capítulo V, dedicado à apresentação dos Jovens Sem Fronteiras, à sua ONG, a Sol Sem Fronteiras e por fim ao Projeto “Ponte”, projeto realizado todos os anos, com base em intercâmbios juvenis, que serve neste trabalho de estudo de caso e o capítulo V, destinado a uma análise aos projetos Ponte e à apresentação dos seus resultados.

Estes capítulos servem para colocar em prática os conceitos tratados anteriormente, para que posteriormente, se consiga retirar conclusões teóricas e práticas.