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O carbonato de cálcio natural (GCC), utilizado em conservação e restauro mais correntemente como carga, nomeadamente na composição da camada de preparação, revelou-se ao longo do trabalho, como um pigmento com potencialidade de aplicação na reintegração de policromias. O facto de apresentar uma brancura e trabalhabilidade ligeiramente inferiores ao dióxido de titânio – o pigmento com valores máximos nestas duas características – é facilmente superado quando se procede à mistura dos dois pigmentos. Contrariamente ao que acontece nos pigmentos comerciais, neste caso o dióxido de titânio será o extensor da mistura. Verifique-se o caso do pigmento comercial (Tubo) – tinta de retoque Maimeri – onde o óxido de zinco é utilizado como extensor do dióxido de titânio.

Ao proceder-se à mistura dos dois pigmentos – carbonato de cálcio natural e dióxido de titânio – numa proporção de três para um, são melhoradas as suas características individuais: um aumento do grau de brancura quando comparado com o carbonato de cálcio isolado, que compensa a diminuição do valor do dióxido de titânio e um aumento da trabalhabilidade do carbonato de cálcio natural. Para uma quantidade de dióxido de titânio equivalente à da mistura seria necessário adicionar uma maior quantidade de ligante, o mesmo acontece ao adicionarmos um outro pigmento; para uma mesma quantidade de dióxido de titânio e da mistura, seria necessária uma maior adição de pigmento ao titânio para conseguir a mesma saturação da cor.

O dióxido de titânio, devido à reduzida dimensão e à forma esférica das suas partículas, necessita de uma maior quantidade de ligante e pigmento. Este primeiro aspecto está patente nas imagens de microscopia electrónica, onde a presença de material orgânico – ligante – causa muita interferência. Ao efectuar a mistura com carbonato de cálcio natural estes aspectos são superados.

Qualquer um dos pigmentos (dióxido de titânio e carbonato de cálcio natural), possui um elevado grau de miscibilidade com os ligantes utilizados – Paraloid B72® a 3% em xileno,

medium para restauro e verniz de retoque. Tal como verificado através da análise dos testes

de envelhecimento e da variação do grau de brancura, a mistura com Paraloid B72® é a que apresenta uma maior estabilidade, com variações pouco perceptíveis quando analisado à vista desarmada. A mistura com verniz de retoque, apesar de apresentar uma maior

miscibilidade com os pigmentos e uma maior facilidade de aplicação, principalmente na criação de superfícies lisas, apresenta uma maior alteração da cor, devido ao amarelecimento do ligante. A análise estratigráfica da mistura confirma o bom poder de coesão entre as partículas e entre estas e a camada de preparação. Em todos os exames efectuados esta mistura é a que apresenta um comportamento geral positivo.

Quanto à trabalhabilidade dos pigmentos, estes possuem uma fácil miscibilidade e aplicação, tanto a pincel como a espátula, permitindo a criação de superfícies lisas, texturadas ou grandes empastes. Estas possibilidades permitem a sua aplicação não só como pigmento na reintegração de policromias, como a sua utilização na mimetização de superfícies irregulares servindo como base de aplicação de outros pigmentos. A textura da policromia a reintegrar poderá ser recriada recorrendo, se necessário, a moldes.

Para além do potencial da mistura na reintegração de obras de arte – antigas ou contemporâneas – devido à sua total compatibilidade com os pigmentos originais, não se verificando qualquer interacção ou alteração de características, a mistura apresenta potencialidade de aplicação em arte contemporânea, permitindo criar diferentes texturas, com ou sem adição de outros pigmentos, podendo ainda funcionar como base de trabalho ou como pigmento.

6.2 Perspectivas de desenvolvimento.

Apesar da indústria que produz material para pintura se encontrar bastante desenvolvida, não deixa de ser interessante para o conservador-restaurador, a oportunidade que esta e outras indústrias proporcionam de criar uma cor ou tinta em particular, destinada à solução de um problema específico. No entanto, este aspecto poderá ser aplicado para além de uma área tão específica como o restauro de obras de arte, o estudo das características e propriedades dos pigmentos poderá fazer renascer uma área que foi esquecida com o avanço da industrialização, os artistas actuais poderão voltar a produzir as suas próprias cores, trabalhando-as de acordo com o resultado a obter. Não se trata de uma novidade esta interacção entre a indústria e a arte na procura de cores “ideais”. Um exemplo é o pintor Yves Klein (1928-1962), que procurou o efeito visual do pigmento puro nos seus quadros monocromáticos e que só após várias tentativas e diversos materiais encontrou a solução para o seu problema, desenvolvendo um azul ultramarino extremamente saturado, luminoso, de uma presença total, “a mais perfeita expressão do azul”. O pigmento era o

resultado de um ano inteiro de experiências, realizadas em colaboração com o químico parisiense Edouard Adam (Weitemeier, 2004, 15). As “Monocromias Azuis” são actualmente consideradas a verdadeira essência da pintura monocromática do século XX. O artista protegeu a sua invenção denominada IKB, através do registo da patente

“International Klein Blue”; tratou-se de um gesto de sábia prudência pois foi com este

azul que o pintor se viria a tornar famoso e a conquistar o mundo (Weitemeier, 2004, 19). Mais recentemente esta colaboração entre artistas, fabricantes de materiais, conservadores- restauradores, técnicos e outros especialistas, é visível na procura por parte de alguns artistas de materiais que permitam prolongar o tempo de vida dos materiais utilizados nas mais recentes manifestações artísticas.

Os resultados obtidos foram positivos e o objectivo inicial foi cumprido, no entanto, caberá às indústrias de tintas a continuação deste trabalho e a análise do seu potencial enquanto nicho de produção. Será necessário tornar rentável o fabrico, procurando formulações que permitam comercializar o pigmento enquanto produto pronto a aplicar, evitando o processo de preparação da cor – embora possa existir essa possibilidade, o que permitiria uma maior versatilidade de aplicação. A utilização do dióxido de titânio como extensor torna o processo mais apelativo, tanto em termos de custo como de produção, pois o carbonato de cálcio natural é muito abundante em Portugal, sendo necessário encontrar a variedade e a granulometria mais adequadas.

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