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siglo XX. Madrid: Trivium, 1988, p 66.

5. CONCLUSÕES E PERSPECTIVAS

As TRHA devem ser admitidas e fomentadas pelo Poder Público para assegurar o direito fundamental dos cidadãos à reprodução assistida, com o fim de garantir às pessoas, que não podem ter filhos naturalmente, o exercício de sua autonomia. O emprego dessas técnicas sempre deve ser condicionado à perseguição de finalidades médicas específicas, que são a superação da esterilidade e o combate a doenças geneticamente transmissíveis. É sob a inspiração desses princípios da Ética médica que a futura lei brasileira sobre o tema

deve se manifestar, de forma estritamente vinculada às normas principiológicas da Constituição.

Julgamos adequada a atribuição de um direito ao uso das TRHA às mulheres solteiras inférteis ou com risco de transmissão de doença genética, sendo que uma “liberação” generalizada do seu uso para este grupo valorizaria sobremaneira a autonomia individual. No caso das solteiras que cumprem essas condições legais, deverá haver, de qualquer forma, um acompanhamento psicológico, para demonstrar à futura mãe o aspecto definitivo de sua decisão e a responsabilidade desse ato.

No tocante à utilização das TRHA pelos parceiros homossexuais, nos parece que a discussão no seio da sociedade brasileira sobre o tema ainda não avançou suficientemente para que possam ser formuladas recomendações definitivas. Vale frisar que nem sempre o Direito, especialmente em matéria familiar, tem a força de impor sua normatividade a uma moralidade coletiva da sociedade.

Antes, são a moral individual e a vontade coletiva baseada na repetição de seus atos e costumes que consagram e determinam a existência da lei, a exemplo do que ocorreu com legislação sobre a união estável. De qualquer forma, seria de bom alvitre esperar a regulamentação da situação jurídica dos casais homossexuais, isto é, a definição por parte do Congresso Nacional se estes poderão se valer do casamento civil para formalizarem suas relações.

A determinação do anonimato do doador de gametas, por sua vez, é justificada a partir do entendimento de que a doação é um ato de filantropia, na medida em que ajuda aos casais inférteis na possibilidade de gerar seus filhos. Ao mesmo tempo, não deve ser negado, a princípio, ao ser humano o conhecimento de sua ascendência biológica.

A solução nos parece ser que, nos casos em que o doador alegue importantes razões pela manutenção do anonimato, dentro de uma ponderação dos valores envolvidos, se deverá ceder o direito do filho de saber da identidade civil do doador, em favor da estruturação e da solidez da família deste. Ao mesmo tempo, o acesso a esses dados deverá ser possibilitado somente a partir dos 16 anos de idade, quando se pode presumir uma certa maturidade emocional do jovem.

A proibição da maternidade de substituição não se justifica por inviabilizar o desejo de muitas pessoas de terem filhos. Entretanto, o uso desta técnica deve ser restrito aos casos onde exista uma relação familiar entre a mãe hospedeira e a doadora de óvulo, para se evitar casos eticamente reprováveis de verdadeira “locação de útero”. Para superar as dificuldades jurídicas, a maternidade legal deve ser atribuída à mãe portadora, sendo necessária a adoção da criança por parte dos beneficiários. A mulher solteira também pode ser beneficiária desta TRHA.

Além disso, não há que se criticar o uso da técnica da fecundação heteróloga sob o argumento de que esta diminuiria a vontade dos casais para adotar crianças, num país que vive a problemática do menor abandonado. Não se deve deslocar um problema de ordem pública, a incapacidade do Estado brasileiro em reduzir o número excessivo de menores abandonados, para a esfera privada, de foro íntimo.

De todas as TRHA, a que apresenta o fundamento bioético mais fraco é a fecundação post mortem. Ao se permitir a criopreservação do esperma do marido para fecundação da esposa ou parceira após a morte dele, não se está realizando o princípio da beneficência, visto que não há nenhuma indicação médica que assista à beneficiária. Esta técnica sempre corre o risco de degenerar para ser um mero instrumento econômico da viúva, que pode ser utilizado contra os filhos herdeiros do falecido.

Não convence a obrigação da transferência de todos os pré-embriões produzidos no respectivo ciclo de reprodução para o útero da mulher, sendo mais adequada a solução atual da Resolução n. 1.358/92, que permite a criação de um número de pré-embriões maior do que os efetivamente implantados posteriormente. A criopreservação dos não transferidos deve ser mantida para não obrigar a mulher a se submeter a repetidos processos de “hiperovulação”.

Os beneficiários ou, no caso da mulher solteira, a beneficiária, devem ter o poder de determinar a destinação dos pré-embriões à pesquisa científica, com a vedação estrita de qualquer caráter comercial deste ato. Estes pré-embriões não seriam “produzidos para fins de pesquisa”, mas somente aproveitados indiretamente, sendo que muitos beneficiários certamente não aprovarão tal destino.

Limitar a possibilidade de experimentação aos “embriões naturalmente abortados” durante o processo de uma TRHA significaria pôr um fim às pesquisas com células-tronco no Brasil, visto que este número será extremamente reduzido e, por si, não garante um material geneticamente saudável. Ao mesmo tempo, o uso em pesquisa poderia ser restrito aos pré-embriões “não viáveis” para fins de reprodução, como determina a lei espanhola.

A dignidade humana representa um importante dado ético e jurídico-constitucional para traçar os limites da liberdade científica, especialmente quando se trata de testes e investigações com células humanas. No entanto, o que se observa é uma utilização pouco criteriosa do conceito da dignidade, que tem servido, muitas vezes, como “lugar comum”, sem conteúdo material definido, para camuflar as crenças pessoais daquele que se vale dele na discussão.

Não é possível, nem necessário, atribuir ao nascituro a personalidade civil, visto que ele pode ser considerado um “ente não personificado” e sujeito de direitos. Isto não vale igualmente para o pré-embrião in vitro, que somente se torna nascituro com a sua implantação no útero da beneficiária. Este forma incipiente de vida humana já participa da proteção de sua dignidade, o que impossibilita a sua utilização para fins econômicos.

No entanto, o pré-embrião ainda não se encontra num estágio individualizado de vida humana e, por conseqüência, não goza plenamente do direito fundamental à vida, o que torna possível seu uso para experimentações e pesquisas, que sempre devem ter por fim um expressivo benefício para a ciência ou para outros seres humanos.

Assim, é justificado o seu uso em pesquisas com as suas células-tronco, para garantir a melhoria da qualidade de vida de inúmeras pessoas que aguardam ansiosamente o avanço da ciência médica nesse ponto, sendo um importante dado que as células embrionárias prometem resultados de cura bem superiores às consideradas já “maduras”, extraídas da medula óssea ou do cordão umbilical.

Ao mesmo tempo, deve ser discutida também a permissão do “rastreamento” de pré-embriões que foram gerados a partir dos gametas de pais sob ameaça de transferir doenças genéticas. Esta técnica ajuda evitar o nascimento de crianças que sofrerão a vida inteira, junto com os seus pais. Ela pode ser considerada uma forma de “eugenia’, que não visa a evitar uma enfermidade, mas procura criar filhos com determinadas “qualidades” físicas ou mentais.

Por outro lado, a Biomedicina corre o risco de assumir um perfil preponderantemente econômico, desviando-se de seus primeiros fins, especialmente por causa da atuação pouco escrupulosa das grandes empresas farmacêuticas e dos anseios ilimitados de lucratividade das empresas privadas de saúde (planos, laboratórios, hospitais etc.).

Não é aceitável que se tornam verdadeiras afirmações cínicas no sentido de que a futura Lei sobre as TRHA, no fundo, poderá proibir e regulamentar o que quiser, visto que a prática das clínicas reprodutivas e dos laboratórios de pesquisa não iria mudar, por não precisar temer um controle sério pelo Poder Público. Estas entidades devem estar sujeitas a uma fiscalização eficiente por parte dos órgãos administrativos dos três níveis governamentais, de preferência mediante estruturas descentralizadas.

Sendo impossível universalizar valores morais em sociedades distintas, com maneiras de pensar, sentir e agir variáveis em seus comportamentos, torna-se indispensável

o respeito à moralidade peculiar de cada sociedade, em se tratando de um assunto tal essencial como a reprodução humana assistida. Pode-se afirmar que o Brasil não adotou o paradigma bioético liberalista dos norte-americanos, que privilegia sobremaneira o princípio da autonomia do indivíduo, mas está andando mais na direção de um modelo latino-americano específico que privilegia os princípios da eqüidade e da solidariedade, sem excluir a vontade do paciente.

Para a realização do princípio da justiça, é preciso que o Estado brasileiro crie os meios para que a população brasileira, de uma maneira geral, e, independentemente de sua situação social e econômica, possa ser beneficiada com os avanços de reprodução assistida. Não pode ser aceita a falta de apoio governamental à reprodução assistida sob o argumento de que somos um país “periférico”, de graves problemas sociais.

Cabe também à sociedade civil organizada zelar pela coordenação de esforços no sentido de que a maioria de seus membros seja atendida em suas necessidades básicas, sendo a saúde uma delas. É por isso que a incorporação de alta tecnologia, como o uso das TRHA, no sistema público de saúde deve ser amplamente discutida e regulada.

Sem dúvida, não haverá uma ordem social justa no que tange à saúde reprodutiva na medida em que persistirem no Brasil tantos problemas sociais tão ou ainda mais graves que a infertilidade humana.

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