Durante a calibração, foi notado que o modelo CLiv demonstrou insensibilidade à maioria dos parâmetros, e, entre eles, o coeficiente de rugosidade é o que melhor possibilitou o ajuste das curvas. As pequenas variações nos resultados durante essa etapa provavelmente existiu em virtude das proporções dos rios modelados, o que sugere o uso do CLiv preferencialmente em córregos e rios de menores grandezas. De qualquer maneira, a calibração foi considerada satisfatória para o propósito do trabalho, pois, ao invés de valores precisos de nível de água, foram valorizadas dimensões aproximadas desses níveis para que se tivesse noção da capacidade do amortecimento do reservatório de Manso e de sua influência na translação da onda de cheia para estabelecimento dos riscos à população a jusante.
Ao longo desta pesquisa, foram analisados três cenários para a operação do modelo hidrodinâmico, sendo os dois primeiros baseados em informações diretamente observadas na bacia do Cuiabá e o último fundamentado em informações secundárias, como as que determinaram as vazões críticas da sub-bacia de Manso. No primeiro cenário, foi simulada a inexistência do reservatório, em circunstância hipotética em que os municípios a jusante do APM Manso não seriam beneficiados pelo amortecimento das vazões. No segundo e terceiro cenários, a atenuação das cheias existiu em teoria, e o cálculo do amortecimento foi reproduzido a partir de metodologia reconhecida.
No cenário (i) foram avaliadas três das maiores cheias que aconteceram na BHC após o fechamento da barragem da UHE Manso na hipótese de que caso o reservatório de Manso não existisse, as proporções da enchente seriam grandes. Destarte, apesar da conclusão que as ocorrências de 2002 e 2004 não assumiriam grandes magnitudes, foi averiguado que a cheia de 2006 atingiria as cotas de segurança, inclusive as de emergência em Rosário Oeste e Cuiabá; e que o reservatório foi capaz de amortecê-la eficazmente.
As cheias que provocaram as três inundações de maior prejuízo na BHC foram avaliadas no cenário (ii) para apurar se o amortecimento proporcionado pelo APM Manso seria suficiente para que não houvesse tais danos. Em todas as situações examinadas, o reservatório permitiria a redução dos níveis de água máximos, embora na cheia de janeiro de 1995 os níveis ainda atingiriam a cota de alerta nos três municípios estudados. Todavia, os maiores picos em Cuiabá ocorreram em março de 1974 e em fevereiro de 1995, e neles os
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níveis de água se manteriam abaixo da cota de alerta. A razão pela qual os maiores níveis de água observados (março de 1974 e fevereiro de 1995) serem reduzidos a valores inferiores à cota de alerta após o amortecimento, enquanto a cheia de janeiro de 1995 continuaria superior a essa cota, advém do fato de o volume do hidrograma desta cheia ser maior que o das outras duas, o que limitou o volume de espera do reservatório durante cada amortecimento.
No cenário (iii) cinco cheias críticas de projeto da sub-bacia do Manso afluente ao reservatório foram utilizadas para avaliar o potencial do amortecimento e a sua consequência a jusante, considerando três possibilidades de vazões incrementais da bacia intermediária, nomeadas neste trabalho de vazão específica, que significa a vazão por unidade de comprimento do rio principal. Foi verificado que cheias com período de retorno de aproximadamente 50 anos são suficientes para atingir a cota de alerta em Cuiabá, se forem atribuídas as maiores vazões específicas; e a partir de períodos de retorno de aproximadamente 100 anos o mesmo acontece em Rosário Oeste e Acorizal. Cabe ressaltar que em Cuiabá, mesmo quando registrados níveis de água inferiores a essa cota, são relatados casos de inundação em algumas comunidades, seja pelo rio Cuiabá ou pelos afluentes urbanos remansados. A escolha da menor vazão específica resultou no alcance das cotas de alerta dos três municípios em cheias com tempo de recorrência de aproximadamente 1.000 anos. Estas cheias são suficientes para superar todas as cotas de segurança se a opção for a vazão específica mais elevada entre as três. Com adoção da maior vazão específica e plena confiança no amortecimento do reservatório de Manso, as simulações realizadas indicaram que as cheias ocorridas em março de 1974 e em fevereiro de 1995 se repetiriam com tempo de recorrência pouco superior a 100 anos; e a de janeiro de 1995, pouco inferior a esse período.
Como relatado, os valores das vazões específicas são baseados em cheias reais na BHC, os quais são carregados no modelo hidrodinâmico ao lado das cheias críticas de projeto da sub-bacia do Manso, que são valores baseados em teoria probabilística. Por esse motivo, em relação às simulações do cenário (iii), a vazão específica mais elevada deve receber maior atenção, já que esta se adequa melhor à concepção de bacias vizinhas apresentarem cheias com períodos de retorno semelhantes.
Em todos os cenários, ficou evidente que a escolha das vazões específicas é essencial para a precisão da definição da altura do rio nas seções topobatimétricas, e que suas variações representam grande alteração nos níveis de água em cada município. A sensibilidade existe em virtude da vasta área entre a usina e as cidades estudadas. O comprimento longitudinal dos rios Manso e Cuiabá, no percurso da usina até a capital mato-grossense, é de 285 km; e a área
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incremental possui 14.200 km², a qual representa 60% da BHC até Cuiabá. Essa extensão dificulta tanto a estimativa da contribuição relativa à área intermediária quanto a operação do reservatório de Manso se ela tiver por objetivo a regularização de vazões a jusante.
A dificuldade quanto à indefinição da vazão específica advém da falta de informações a respeito das cheias críticas na bacia intermediária. Tal questão poderia ser solucionada com a aplicação de um modelo hidrológico tipo precipitação-vazão. A partir de dados hidrometeorológicos, morfopedológicos e de uso e ocupação da bacia seria possível estimar as vazões intermediárias para que fossem carregadas em cada seção topobatimétrica de maneira autônoma. O emprego do modelo chuva-vazão eliminaria a necessidade de utilizar a vazão específica para suprir a falta de informações a respeito das contribuições intermediárias, e, consequentemente, melhoraria a exatidão dos cálculos finais do modelo hidrodinâmico.
A apreciação dos resultados indica que o reservatório de Manso tem importante papel na atenuação de enchentes na BHC, pelo menos até o município de Cuiabá, e que muitas cheias, porém não todas, podem ser evitadas em decorrência do seu amortecimento. De maneira sucinta, o APM Manso é capaz de aumentar o tempo entre duas grandes inundações, e, portanto reduzir a frequência desses acontecimentos. No entanto, essa capacidade é limitada pelo volume de espera do reservatório, assim, em algumas circunstâncias as inundações se tornam inevitáveis.
Em síntese, o que não é racional é esperar que todos os problemas sejam resolvidos unicamente pelo amortecimento proporcionado pelo reservatório da UHE Manso sem que sejam tomadas outras medidas, sejam elas de cunho estrutural ou de planejamento, e que objetivem a ocupação apropriada do solo e a mitigação dos impactos à população.
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