Compreendemos a interação como o processo no qual se encontram imersos os sujeitos que se articulam de maneira cooperativa uns com outros focados em um objetivo discursivo. Nessa direção, o espaço da sala de aula se constitui em campo privilegiado para o desenvolvimento da interação objetivado no estabelecimento das relações de ensino e aprendizagem.
Nossa investigação focalizou a interação, nesse campo discursivo, buscando compreender como tal processo ocorre e quais elementos contribuem para a construção dessas relações discursivas entre os interactantes que dela tomam parte. Como bem ressalta Kerbrat- Orecchioni (2006), a interação necessita de bem mais que apenas duas pessoas falando entre si. É necessário o engajamento mútuo para que a interação ocorra com sucesso. Ao percebermos essa vertente, enveredamos na busca por compreender como a interação se organiza no universo da sala de aula, durante um evento interativo.
Assim sendo, convém ressaltar que os tópicos permeiam a nossa ação no mundo. Estão presentes em todos os momentos interativos e assumem particularidades próprias a cada esfera de interação. Foi, pois, a partir desse ponto de vista que percebemos a existência do tópico discursivo enquanto unidade passível de análise e que traz, em seu bojo, procedimentos de organização, dentre os quais destacamos os processos de abertura e fechamento no transcurso do evento interativo aula no ensino fundamental.
Nesse trabalho, observamos o tópico enquanto unidade de análise na sala de aula. Tal estudo proporcionou a compreensão que esta categoria de análise organiza os conteúdos de ensino e aprendizagem nessa esfera de interação, permitindo aos diversos temas tratados terem um processo organizacional, que permite a coerência do discurso em sala de aula. Portanto, o tópico é um organizador da interação, além de possibilitar que os objetivos institucionais sejam também evidenciados.
Desse modo, vimos que o trabalho desenvolvido pela professora pautou sua ação no cumprimento do plano de ensino e aprendizagem estabelecido pela escola em consonância com o projeto político pedagógico para aquele nível de ensino. A mestra se demonstrou aberta às discussões que estão para além do livro didático adotado pela unidade escolar, conforme observado na ação docente.
Apesar de ter o livro didático como norte de sua ação, percebemos a preocupação da docente em trazer as discussões para o nível de compreensão de seus alunos. Ao fazer isso, desempenhou seu papel a partir de tópicos centrais que foram, ao longo dos
eventos interativos, sendo discutidos numa linguagem acessível para os alunos e dentro de uma coerência que legitimasse como verdadeiros seus apontamentos.
Vimos que cada aula partiu de um campo mais amplo de discussão no qual a docente situou de maneira mais generalizada o tema que desejou trazer para o cerne da discussão e, partindo disso, aprofundou-se nos assuntos de maneira que os discentes pudessem compreender com clareza os propósitos discursivos propostos.
Ao apontar, já no início de cada aula, o foco central no qual conduziria o evento, demonstrou preocupação em fornecer pistas que permitissem aos alunos fazer uma contextualização do assunto. Para tanto, em cada supertópico e tópico apresentados, foram ofertados elementos contextuais que deram, aos alunos, possibilidades de compreensão acerca do que estava sendo discutido.
Nossa preocupação maior, nesse trabalho, foi com os procedimentos de abertura e fechamento dos tópicos e, nesse patamar, verificamos que esses foram ‘quase ritualísticos’. Em cada aula houve um supertópico, fragmentado em tópicos nos quais estão marcados os procedimentos de abertura e fechamento.
A identificação de cada supertópico e tópicos aconteceu a partir dos elementos de centração ocorridos nestas unidades de análise. São elementos léxicos que foram ressaltados, no discurso em sala de aula e trouxeram para o relevo os assuntos que a professora buscou discutir com seus alunos.
Nesses procedimentos, as aberturas tópicas assumiram papel fundamental para a compreensão dos discentes, pois houve oportunidade para que os alunos fossem partícipes do processo de ensino aprendizagem. A presença dos MDs, em especial o marcador, então oportunizou, segundo os dados, a compreensão que esses elementos linguísticos possibilitam diversas ações dentro da organização tópica, contribuindo para assegurar a coerência textual no transcurso da interação.
O procedimento de fechamento de cada tópico analisados nos dados mostrou- nos ter havido preocupações da docente em consolidar o tema que estava em discussão. Tal preocupação se verificou quando buscou concluir cada tópico, permitindo aos alunos a compreensão sobre o que foi discutido. Nesse sentido, os MDs assumiram diferentes funções de forma a permitir que a aprendizagem fosse avaliada, pela docente, e consolidada nos discentes.
Outro ponto a considerar é o fato da professora necessitar estabelecer situações de reflexão que levaram os alunos a pensarem sobre outras possibilidades em vários momentos da interação, ofertando-lhes espaço necessário para tais construções. Visto dessa
maneira, cremos que se faz necessário ao educador a sensibilidade de perceber até que ponto deixa o aluno construir seu conhecimento e qual é o momento certo de ‘entrar em cena’ com uma postura sutil e facilitadora da aprendizagem.
Em nossa observação, a docente demonstrou consciência de seu papel de mediadora do conhecimento e, conforme nos mostraram os dados, abriu espaços para a interação dos alunos que ofertaram valorosas contribuições ao desenvolvimento dos tópicos no transcurso dos eventos interativos.
Compreendemos que as noções de tópico apresentadas contribuíram para a formatação do evento interativo denominado de aula, uma vez que, tal conhecimento nos permitiu ver como a conversação está organizada em sua hierarquia e linearidade e quais caminhos são utilizados em seus desdobramentos.
O conhecimento aqui construído, de uma maneira mais aplicada, poderá servir de subsídio para que professores do ensino básico tenham fonte de consulta acerca dos procedimentos nos quais se desenvolvem as aulas e, a partir disso, melhor desenvolverem seus planejamentos para fortalecer o processo de ensino e aprendizagem, no nível aqui investigado e em outros níveis de ensino.
O resultado obtido nesse trabalho nos aguça o senso de pesquisador para o constante – e salutar – envolvimento com a pesquisa. Os dados, que nos revelaram a existência de uma organização hierárquica e linear das discussões desenvolvidas no âmbito da sala de aula através dos tópicos, também nos sinalizam para outras perspectivas que podem, e devem ser alvo de novas investigações, por exemplo; como se organiza a interação gestual na sala de aula e/ou ainda, as questões da polidez presentes nesse campo discursivo, as responsabilidades enunciativas de professor e alunos, dentre outras possibilidades.
Assim sendo, compreendemos não encerrar nessa pesquisa todos os desdobramentos possíveis acerca do tema, que outros olhares são possíveis e objeto de investigações futuras como forma de preencher lacunas de conhecimento ainda passíveis de investigações nesse campo de estudos.
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((os alunos estão na sala de aula... as cadeiras estão dispostas em fila indiana. A sala tem
1
alguns cartazes de trabalhos desenvolvidos em sala de aula, trechos de poemas, mapas e
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outros. Alguns alunos conversam entre si em lugares diversos da sala enquanto outros estão
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sentados em seus respectivos lugares. Após o toque que marca o início das atividades a
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professora entra na sala))
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Prof: Boa tarde crianças
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Als: Bo::a tar::de
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Prof: Que bom ouvir um boa tarde tão forte assim. ((a professora vai até sua mesa e
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lá coloca o material que trouxe.)) M. por favor vá para o seu lugar e sente meu
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filho.
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A11: Tudo só é eu ((demonstra zanga na expressão facial))
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Prof: Então gente... a nossa aula de hoje é de cultura não é?
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Als: é::
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Prof: E o que nós vamos trabalhar hoje em Cultura? ... Nós vamos trabalhar as
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diferentes culturas dos seres humanos não é? E não dá prá falar de todas as
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culturas do mundo em uma aula dá?
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A6: Dá não tia... é muita coisa
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Prof: Verdade F. é muita coisa. Por isso que a tia trouxe para conversar com vocês
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sobre as culturas aqui no Brasil né? Qual cultura vocês acham que é mais
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interessante a gente falar?
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Multi: DOS IN:DIOS
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A6: É tia... dos índios. A gente fez aquele trabalho na semana passada e é muito
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legal.
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Prof: ((rindo)) Eu acho que vocês estão adivinhando. Porque a tia vai mesmo falar da
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cultura dos índios mas também vai falar da cultura da nossa cidade.
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A12: ê::ba
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Prof: Então... nós sabemos que que quando o Brasil está no continente da América
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do
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Sul não é? E este continente é dividido em TREze países entre eles o Brasil
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Als: entre eles Brasil
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A5: (ininteligível)
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Prof: então é importante a gente saber o seguinte... que quando os portugueses
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chegaram no Brasil era muito diferente do que é hoje né?... ((A5 olha para trás
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na direção da câmera)) não era coisa (mais) organizada do que é ho:je
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((professora levanta o braço esquerdo ao mesmo tempo em que lê no livro que
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tem nas mãos)) é:::: essa coisa de dividida quer dizer não tinha divisão
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nenhuma. Era uma posse ... divisão ok? é ... era uma peça de divisão... não
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tinha estra:da não tinha território não tinha município não tinha nada... não
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havia (inaudível) apenas uma ((sobe e desce o braço rapidamente)) terra...
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como eu já falei na outra aula... era o que? uma terra sem dono ((faz
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A6: terra sem dono
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sinal com o braço passando de um lado para outro)) vamos dizer assim
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Prof: já é...exatamente
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... então chegaram os primeiros habitantes no brasil
e (caminha pela sala)) e foram quem? os ...