5. CAPÍTULO IV RESULTADOS
5.3 Condições de saúde do (a) assistente social
Ao abordar as condições de saúde das assistentes sociais, os dados demonstram que 79,2% reservam tempo para lazer, as atividades de lazer mais citadas foram o descanso com 23% de porcentagem de frequência, representando 73,9% dos profissionais alcançados; e leitura com 17,6% de frequência representando 56,5% de porcentagem dos casos. Em relação a pratica de atividade física 65,5% disseram não praticar nenhuma atividade, 95,8% relataram dormir de 5 a 8 horas diárias, 91,7% trabalham finais de semana e feriados, 50% possuem de 40 a 60 horas semanais de atividade no trabalho incluindo todos os vínculos, 62,5% consideram que o trabalho atrapalha de alguma forma a vida sociofamiliar.
Dos agravos a saúde mais frequentes apareceram o estresse com 40,9% de prevalência, representando 75% de profissionais alcançados, e a variável “outros” com 27,3% de frequência representando 50% das assistentes sociais abordadas, destes “outros” agravos mais citados foram os do sistema respiratório de forma escrita, aparece também nos dados as dermatoses com 11,4% de frequência e 20,8% de profissionais, intoxicação ocupacional 9,1% de frequência e 16,7% do total alcançado, e LER/DORT com 6,8% frequente e 12,5% do total. Consideram o trabalho muito estressante 37,5%, e 66,7% consideram haver relação entre afastamento por adoecimento e as condições de trabalho realizado no hospital, 83,3% disseram usufruir de férias, 70,8% disseram possuir dificuldades inter-relacionais com outros profissionais no local de trabalho, 54,2% relataram estar pouco motivado e 12,5% nada motivado no hospital de referência, ao serem questionadas sobre o programa de saúde do trabalhador no hospital, 54,2% disseram não conhecer.
Quando questionados sobre as atividades de lazer, 79,2% afirmaram reservar um certo tempo para o lazer no cotidiano. Chama atenção que 73,9% do número de assistentes sociais pesquisadas marcaram o descanso como
forma de lazer mais frequente, seguidos por leituras, encontro com amigos, praia, cinema, os demais citados foram atividades com a família, passeios, viagens, visita aos familiares e atividade física.
Tabela 5. Atividades de lazer frequentes
Número de respostas Porcentagem frequência (74)
Porcentagem de casos válidos (23)
Ir à praia 12 16,2% 52,2%
Assistir filme em cinema 11 14,9% 47,8%
Descanso 17 23,0% 73,9%
Encontro com amigos 12 16,2% 52,2%
Leitura 13 17,6% 56,5%
Outros 9 12,2% 39,1%
Total 74 100,0% 321,7%
No entanto, na questão atividade física apenas 37,5% relatou realizar algum tipo e 62,5% não praticam atividade física, as que praticam costumam fazer musculação, corrida, caminhada, pilates, muaythai e hidroginástica.
Salienta-se que a atividade física proporciona melhor condicionamento físico e é essencial para saúde do indivíduo, ajudando na produção e regulação hormonal, além da prevenção de doenças cardíacas, diabetes, obesidade, etc.
Em relação ao consumo de cigarro 100% disseram não utilizar, já o álcool 75,0% não faz consumo e 20,8% confirmou fazerem uso, não foram perguntados outros tipos de drogas, nem mesmo relatada pelas participantes, também não foi questionado a frequência e os efeitos causados por tais.
A quantidade de 5 a 8 horas diárias de sono foi citada pela maioria 95,8%, já em relação a qualidade de sono obteve-se uma média entre bom e regular com 37,5% e 45,8% respectivamente, os demais foram “ muito ruim” (8,3%), “ruim” e “muito boa” ambos com 4,2%.
Excessivas tarefas e plantões podem gerar a insuficiência de descanso durante o sono, com o não fortalecimento da imunidade, desregulação hormonal e descanso do cérebro, causando distúrbios do sono, portanto, prejudicando a qualidade de vida dos trabalhadores no cotidiano da vida pública e privada.
Ao serem questionadas se costumam trabalhar finais de semanas e feriados 91,7% das respostas foram afirmativas, trabalho exercido em regime de plantões com escalas, as frequências relatadas nos questionários obtiveram-se uma média de 2 a 3 plantões mensais.
A média de horas de atividade profissional desenvolvida durante a semana compreendeu de 30 a 60 horas, embora tenha sido também relatada de 60 a 80 horas de trabalho, são dados que incluem todos os vínculos de emprego, não só do hospital de referência. O quantitativo de horas semanais de 30 a 40 compreendeu 41,7%, de 40 a 60 horas (50%) de 60 a 80 horas (8,3%).
Os dados demonstram que 62,5% delas mencionaram que o trabalho atrapalha ou dificulta a vida sócio familiar de algum modo e 33,3% disseram não atrapalhar, 4,2% não responderam, dados relacionados a carga horária de trabalho extensiva e aos plantões nos finais de semana os quais prejudicam a conciliação entre vida profissional e familiar, além de impactar na saúde, bem- estar e conciliação com o tempo destinado a companhia da família e amigos.
Foram obtidos alguns relatos sobre as dificuldades sócio familiar e o trabalho: “passo 12 horas dia no trabalho”, “porque tenho dois vínculos empregatício manhã e tarde”, “porque dedico-me muito ao trabalho”, “finais de semana ter que trabalhar”, “falta de tempo para atividade com a família”, “depende”, “alguns momentos que gostaria de estar com a família, mas estou naquele dia escalada para plantão”, "de certa forma sim, pois o tempo dedicado no trabalho (inclusive aos finais de semana) poderia passar com a minha família”, “um pouco”, “não diria que atrapalha ou dificulta, mas impede de se ter maior tempo com a família”, por conta dos extras que optamos por dar, em virtude dos baixos salários”, “plantões noturno”, “cansaço e stress”, “por conta da escala noturna que nos impede de participar de alguns eventos”. Importante refletir sobre a não culpabilização dos trabalhadores pela sua jornada excessiva, por entender que estas são expressões do trabalho na sociedade capitalista, entendendo ainda que o número de vínculos e o adoecimento dos sujeitos são expressões da natureza exploratória do capital.
Dos agravos à saúde que as acometeram na atuação no hospital a mais citada foi o estresse e as doenças do sistema respiratório contido na variável “outras”, principalmente inflamação na garganta. No entanto, apareceram
também as dermatoses, intoxicação ocupacional, LER/DORT, pneumoconiose e transtornos diversos, como demostrado na tabela 6.
Tabela 6. Agravos à saúde
Número de respostas Porcentagem frequência (44) Porcentagem de casos válidos (24) Intoxicação ocupacional 4 9,1% 16,7% Dermatoses 5 11,4% 20,8% LER/DORT 3 6,8% 12,5% Pneumoconioses 1 2,3% 4,2%
Transtornos mentais diversos 1 2,3% 4,2%
Estresse 18 40,9% 75,0%
Outro 12 27,3% 50,0%
Total 44 100,0% 183,3%
Outros agravos mencionados pelas participantes nos questionários foram: “Cansaço pela rotina”, “infecções”, “doenças respiratórias”, “hipertensão arterial”, “inflamação de garganta”, “ansiedade”, “tendinite e ansiedade”, “inflamação na garganta”, “gripes, resfriados, infecção de garganta”, “infecções recorrentes de garganta”, “doenças respiratórias” e “HAS”.
Uma parcela de 54,2% disse não ter se afastado do trabalho no último ano por conta de doença, e 45,8% disseram ter se afastado, os motivos descritos foram os seguintes: “Cirurgia”, “crise asmática”, “rinite”, “HAS e virose”, “ansiedade”, “transtorno de ansiedade”, “aborto espontâneo”, “labirintite e problemas musculares”, “artrite reumática e fibromialgia”, “cirurgia bariátrica”, “infecção urinária e bacteriana”, “IVAS (infecções das vias aéreas superiores) e radiculopatia em S1”, “diabetes e artrose”.
Ao serem indagados sobre o nível de estresse causado pelo trabalho obteve-se prevalência de “muito estressante” e “estressante”. Como já relatado, por tratar-se de uma área complexa, a da saúde, e a atuação do Serviço Social nas expressões da questão social, junta-se também, o ambiente de alta complexidade e sofrimento do hospital, geram maiores desgastes físicos e emocionais aos trabalhadores.
Tabela 7. Nível de estresse no trabalho Frequência Porcentagem Muito estressante 9 37,5 Pouco estressante 5 20,8 Estressante 9 37,5 Omisso 1 4,2 Total 24 100,0
No que concerne ao afastamento do trabalho no último ano, 66,7% afirmou que as ausências tiveram relacionadas as condições de trabalho e atividades desenvolvidas no hospital as quais repercutiram em eventos de adoecimentos, e 20,8% relataram que o afastamento por adoecimento no último ano não teve relação com as condições de trabalho e as atividades desenvolvidas no hospital. Cerca de 70,8% disseram ter trabalhado doente no último ano, e 29,2% não trabalharam doente no último ano, foi questionado ainda sobre a frequência do trabalho doente no último ano 41,7% de 1 a 2 vezes, 16,7% de 3 a 4 vezes e 12,5% 5 ou mais vezes. Uma parcela de 83,3% disse ter usufruído de férias e 12,5% não, no entanto o fato de haver mais de um vínculo não garante que as mesmas tenham se afastado totalmente das atividades para poder descansar, haja vista que as férias podem ser em períodos distintos.
Em uma pesquisa qualitativa realizada com assistentes sociais sobre as condições de trabalho e adoecimento, as autoras constataram através dos diálogos
[...] que o sofrimento e o adoecimento vivenciado devem-se às suas precárias condições de trabalho, ao não reconhecimento de suas ações, à complexidade das expressões da questão social, à ineficiência das políticas públicas e aos baixos investimentos em recursos econômicos e humanos para o desenvolvimento de suas atividades. Essas situações geram sentimentos de incapacidade, angústia e mal-estar, provocando desgaste físico e mental, objetivados, muitas vezes, por meio de enfermidades e padecimentos. (FAERMANN; MELLO, 2016, p. 97).
Doenças ocupacionais3 são aquelas derivadas de determinado tipo de
atividade, já as doenças do trabalho são ocasionadas das condições de trabalho, no entanto ambas possuem interrelações. O estresse e a ansiedade são duas morbidades características do Serviço Social, pelo tipo de atividade que se desenvolve, a compreensão e intervenção nas expressões da questão social engloba diversos fatores e problemáticas, embora também façam parte das doenças do trabalho, pela relação direta com os meios disponibilizados para o fazer profissional, já as doenças do sistema respiratório são doenças oportunistas e peculiar da atuação em unidades de saúde, haja vista o aglomerado de pessoas com os mais diferentes casos de adoecimento e o ambiente fechado. Doenças como os transtornos diversos, LER/DORT, SB, estão ligadas aos níveis de estresse ocupacional e ansiedade. Embora a SB não tenha sido citada nos questionários as profissionais possuem sintomatologia que pode desencadear o quadro ou mesmo estar doente e não ter conhecimento, haja vista ocorrer a banalização do estresse.
Houve número elevado (70,8%) de profissionais que relataram ter dificuldades inter-relacionais com outros profissionais, 20,8% disseram não ter dificuldades e 8,3% não responderam, além disso foi perguntado como estas dificuldades interferem no cotidiano, de modo que obteve-se as seguintes respostas: “Qualidade no atendimento”, “agravando a ansiedade”, “na falta de discussão de um caso”; “no repasse de informações sobre o paciente, isso impacto no desenvolvimento das ações”, “a interdisciplinaridade comprometida”, “gerando stress”, “sentimento de impotência frente a falta de interdisciplinaridade para atender as demandas dos usuários”, “queda na produtividade”, “a má comunicação prejudica o fluxo de atividades”, “pouco”.
3As doenças ocupacionais ou profissional são produzidas ou desencadeadas no exercício da
profissão, ou seja, são doenças que se originam pelo tipo de atividade exercida. Já as doenças do trabalho são oriundas das condições em que a atividade é exercida, Lei 8.213/91 Art. 20, que traz também as doenças que não são consideradas doenças do trabalho: Doença degenerativa; inerente a grupo etário; e a que não produza incapacidade laborativa; doença endêmica adquirida por habitante de região em que a mesma se desenvolva, assim é necessário comprovação entre a condição trabalhista e o surgimento da doença. Embora exista uma legislação que aponta as características e regras para considerar as doenças e acidentes de trabalho, a previdência social é responsável por averiguar e considerar acidente de trabalho os casos excepcionais em que seja observado a relação doença versus condições de trabalho. BRASIL. LEI Nº 8.213, DE 24 DE JULHO DE 1991, Planos de Benefícios da Previdência Social. Ministério da Previdência
Social. Brasília, DF, 1991. Disponível em:
Ao serem questionadas sobre o grau de motivação no trabalho a variável pouco motivado foi mais frequente, as desmotivações corresponderam aos aspectos: resolutividade em relação ao usuário do SUS; a forma de organização do trabalho; o quanto reconhecem/valorizam seu trabalho; as relações interpessoais; as condições de trabalho; a remuneração e salários atrasados. Variável motivados foram adicionados os quesitos: extras, valorização do profissional (a busca pelos serviços) pelos usuários do SUS. São questões que confirmam a hipótese que as condições de trabalho institucionais influenciam nas condições de saúde dos assistentes sociais, tendo em vista o grande número de profissionais que relataram desmotivação, o estresse e resolutividade em relação aos usuários do SUS. A desmotivação e estresse são alguns dos condicionantes para desencadeamento da SB e LER/DORT, como já citado anteriormente.
Tabela 8. Grau de motivação ao trabalho neste hospital
Frequência Porcentagem Motivado(a) 7 29,2 Pouco motivado(a) 13 54,2 Nada motivado(a) 3 12,5 Total 23 95,8 Omisso 1 4,2 Total 24 100,0
Tabela 9. Aspectos que contribuem para desmotivação
Nº de respostas Porcentagem frequência (92) Porcentagem de casos válidos (22) Conteúdo do trabalho em si 18 19,6% 81,8% A resolutividade em relação ao usuário do SUS 9 9,8% 40,9% A forma de organização do trabalho 14 15,2% 63,6%
O quanto reconhecem/valorizam seu trabalho 9 9,8% 40,9% As relações interpessoais 22 23,9% 100,0% As condições de trabalho 20 21,7% 90,9% Total 92 100,0% 418,2%
Tabela 10. Aspectos que contribuem para motivação
Nº de respostas Porcentagem frequência (38) Porcentagem de casos (17) Conteúdo do trabalho em si 12 31,6% 70,6% A resolutividade em relação ao usuário do SUS 2 5,3% 11,8% A forma de organização do trabalho 3 7,9% 17,6% O quanto reconhecem/valorizam seu trabalho 4 10,5% 23,5% As relações interpessoais 8 21,1% 47,1% As condições de trabalho 1 2,6% 5,9% A remuneração 1 2,6% 5,9% Outros 4 10,5% 23,5% Erro desvio 3 7,9% 17,6% Total 38 100,0% 223,5%
Além disso foi perguntado o grau de importância do trabalho desenvolvido no hospital, as respostas variaram de 7 a 9 (com 20,8%, 25%, 25% respectivamente) há determinada relação com a desmotivação no espaço de trabalho, os profissionais tendem a não o valorizar.
Quando questionadas sobre o programa de saúde do trabalhador do hospital parte significativa (54,2%) relatou não conhecer 41,7% disse que sim e 4,2% omissos, parcela pequena (8,3%) disse conhecer e utilizar o serviço, 33,3% não utiliza.
Vale salientar que o programa de saúde do trabalhador dentro do hospital é realizado pela humanização, possui atendimento de psicólogo, psiquiatra, nutricionista e fisioterapeuta, no entanto a atuação é de modo pontual, individual e centrado na doença, necessitando de campanhas de divulgação e ampliação dos procedimentos, aguarda uma demanda espontânea que nem sempre no caminhar do trabalho dia a dia permite, nem mesmo se perceber que possui nível de adoecimento avançado.
Por fim, foram questionados sobre fatos que consideram importantes que, no entanto, não foram mencionados nos questionários: “Programa de atenção e cuidado ao trabalhador”, “espaços terapêuticos”, “programa de qualidade de vida”, “o nível de solidariedade/coleguismo entre os próprios profissionais de Serviço Social e o quanto isso impacta na questão da saúde do assistente social (neste hosocômio)”, “percebi que a pesquisa não questionou sobre os EPI’s, na atualidade há falta deles, a exemplo de mascaras”, “questões referentes aos EPI’s”, “senti dificuldade de responder a algumas questões somente tendo como referência apenas o trabalho no hospital” “considero importante também contemplar perguntas relacionadas a acessibilidade do hospital para pessoas com deficiência” .
Então, considerando a prevalência de notas razoáveis para as condições de trabalho no hospital abordada no subitem 5.2, considerando ainda o estresse e doenças do sistema respiratório aparecerem como as doenças mais frequentes que acometem as assistentes sociais, confirma-se a hipótese que as condições de trabalho institucionais influenciam nas condições de saúde dos assistentes sociais, além de 66,7% considerar que o afastamento por adoecimento no último ano teve relação com as condições de trabalho no hospital.