tecnológica e organizacional da produção” (Behring; Bochetti, 2011), conhecida
como reestruturação produtiva. Processo que buscou introduzir a tecnologia de ponta na produção, com a finalidade de atingir altas taxas de lucro, em uma tentativa de responder a crise estrutural do capitalismo, acentuada a partir de meados da década de 1970. Considerada como responsável pela mundialização da economia, configurou-se como mais do que uma mudança de estratégias empresariais e dos países ligados ao mercado mundial de mercadorias e capitais, que implicou na redivisão sociotécnica do trabalho nas escalas nacionais e internacionais; imprimindo uma produção descentralizada entre países no mundo. Também tem-se a mudança da relação centro/periferia e a expansão da financeirização.
Ao passo que provoca inúmeras mudanças na organização da produção capitalista e nas suas relações internacionais, a reestruturação produtiva também provoca grandes impactos na vida das/os trabalhadoras/es, na medida em que gera desemprego estrutural, aliado a retórica de que trabalhadoras/es formais são detentoras/es de grandes privilégios. Assim, tais mudanças contribuem para que as/os trabalhadoras/es ainda inseridas/os no mercado formal entrassem em um estado de defensiva e aumentassem o seu corporativismo. Na mesma direção, o fracionamento internacional da produção, o desemprego estrutural e a ação corporativista de parte das/os trabalhadoras/es formais, gerou um intenso processo de desorganização política da classe trabalhadora.
A reestruturação produtiva possui um padrão flexível de acumulação a partir da organização toyotista, buscando permanentemente liberar a produção e a circulação de qualquer rigidez própria do fordismo. Em outras palavras, este modelo permite que haja rápidas mudanças no processo produtivo, sejam elas quantitativas, no volume produzido, ou qualitativas, na diferenciação de produto. Sua gestão é pautada no “just time”, um fluxo de produção que atende a momentos exatos de demanda; e mais do que isto, busca economia em todos os segmentos da produção, evitando ao máximo o desperdício que possa existir na jornada de trabalho, o que coloca necessariamente uma pressão sobre as/os trabalhadoras/es, que não podem ser considerados, assim como as máquinas, como supérfluos (Figueiras, 1997).
necessário uma força de trabalho também flexível, capaz de realizar várias atividades em uma só função, mais qualificada, que possa repassar informações, fazer o controle da qualidade, etc. Passa a se requisitar profissionais com maior especialização, que trabalhem por produtividade e por metas, e que principalmente desenvolvam um nível de envolvimento, no qual os seus interesses sejam congruentes com o da empresa, alimentando a ideia de “parceiros”, “que vistam a camisa da empresa”; a fim de maximizar sua produção.
A flexibilização implementada pela reestruturação produtiva, do ponto de vista do capital, nada mais é do que a “livre contratação” entre o capital e o trabalho, pois quanto menor a intervenção do Estado na regulamentação de limites sobre a exploração da força de trabalho melhor para o capital. O objetivo é flexibilizar ao máximo a jornada de trabalho, a remuneração, os direitos sociais e trabalhistas, a partir de uma série de medidas conduzidas pelo Estado que assume o caráter Neoliberal. Flexibilização que transfere a responsabilidade pela geração de empregos para empresas de pequeno porte, pela mediação de diversas formas de precarização, terceirização e subcontratação, diminuindo o emprego de força de trabalho e reduzindo os custos da produção a patamares mínimos. Nas palavras de Antunes, “a flexibilização pode ser entendida como ‘liberdade da empresa’ para desempregar trabalhadores; sem penalidades, quando a produção ou as vendas diminuem, liberdade, sempre para empresa para reduzir o horário de trabalho ou para recorrer para mais horas de trabalho” (2008, p 6).
Assim, para atender os interesses do rearranjo do modo de produção, o Estado também se reorganiza, adotando medidas Neoliberais, beneficiando o Capital em detrimento do social. As medidas de contrarreforma operadas pelo Estado Neoliberal visam a redução de investimentos nas Políticas e Programas Sociais, ajuste fiscal e o desmonte das leis trabalhistas. O Estado assume a função de garantir o máximo para o Capital e o mínimo para o social.
Deste modo, podemos afirmar que no “mundo do trabalho, a reestruturação produtiva e as requisições às/aos empregadas/os, representa a efetividade de modalidades distintas de trabalho precário (Antunes, 2008), com o objetivo de recuperar as taxas de lucro e assegurar a ampliação dos mecanismos de dominação burguesa num contexto de crise estrutural. A flexibilização produtiva, estratégia para
a retomada das taxas de lucro foi acompanhada da desestruturação do trabalho, rompendo com o pacto entre as classes do período do Welfare State, intensificando a extração de mais valor. Assim
a globalização neoliberal e a internacionalização dos processos estão acompanhados da realidade de centenas e centenas de trabalhadores desempregados e precarizados no mundo inteiro. O sistema fordista nos havia acostumado ao trabalho pleno e a duração indeterminada. Agora, ao contrário, um grande número de trabalhadores tem um contrato de curta duração ou de meio expediente; os novos trabalhadores podem ser alugados por algumas poucas horas ao dia, por cinco dias da semana ou por poucas horas por dois ou três dias da semana (Vaspollo, 2006, apud, Antunes, 2008, p 7)
No Brasil, a ofensiva Neoliberal e a reestruturação produtiva avançam na década de 1990, a partir das imposições do FMI e do Banco Mundial, pressionando o Estado, com a justificativa de manter a governabilidade e a confiança dos investidores, para direcionar parcela significativa do Fundo Público para o pagamento da dívida externa (superavit primário). Neste sentido, a partir desta década apresenta-se uma série de contrarreformas dos direitos sociais (Behring; Bochetti, 2011).
A sustentação da implementação do receituário neoliberal passou pela retórica de que o Estado deveria reduzir os gastos sociais, concebidos como insustentáveis e onerosos, favorecendo a iniciativa do mercado para o atendimento de necessidades sociais. Neste período, dentre outras medidas, assistimos um amplo processo de privatização de Empresas Estatais, supostamente deficitárias, mas como sabemos, eram estrategicamente transferidas para exploração privada da grande burguesia.
O impacto da adoção do ideário neoliberal por parte do Estado brasileiro, foi expressivo para as Políticas Sociais que passaram a ser focalistas, residuais, fragmentadas e voltadas a assistencialização da extrema pobreza. Reconfigura-se o papel de regulação social do Estado, que assume características de mero gestor. Entretanto, constata-se que os setores que passam a ser explorados pelas empresas privadas, como a saúde e a educação, representam fatias do mercado altamente rentáveis. A Assistência Social tem sido paulatinamente transferida para o chamado “terceiro setor”, que se apropria do Fundo Público por meio de parcerias “público – privado”.
reformas neoliberais foi a restrição e redução dos direitos, legitimados ideologicamente pelo com o argumento de crise fiscal. As Políticas Sociais assume assim, características pontuais, compensatórias, e voltadas majoritariamente para responder os efeitos mais críticos e severos da crise do capital. Os Programas de caráter preventivo ou compensatórios tornam-se cada vez mais limitados, atendendo uma parcela cada vez mais restrita da população, seguindo a lógica neoliberal de privatização, focalização e descentralização (Behring; Bochetti, 2011). Privatiza, repassando ao setor privado a exploração mercantil dos serviços prestados; focaliza, restringindo as responsabilidades públicas e estatais à intervenções pontuais sobre as situações de extrema pobreza; e descentraliza, não para partilhar o poder entre as esferas da Federação, mas sim para transferi-lo para outras instituições, especialmente privadas.
Estas contrarreformas são frontalmente contrárias aos avanços conquistados na Constituição Cidadã de 1988, são frontalmente contrárias padrão público e universal de Seguridade Social, e demais direitos de cidadania.
Behring e Bochetti (2011), analisam alguns dos princípios e diretrizes que fundamentam a concepção de Seguridade Social, inscrita na Carta Constitucional de 1988 e, que deveriam orientar a sua operacionalização. O princípio da universalidade, que diz respeito ao acesso e cobertura universais; reconhecendo a Saúde como direito de todas/todos, a Assistência Social para aqueles que dela necessitam; e a Previdência Social, como direito contributivo e baseado na solidariedade geracional. Os princípios da uniformidade e equivalência, que garantem as mesmas regras no âmbito rural e o urbano, no regime geral da Previdência Social, assim, as/os trabalhadoras/es rurais (mediantes a contribuição) passam a ter os mesmos direitos previdenciários que as/os trabalhadoras/es urbanos. A seletividade e a distributividade na prestação dos serviços, orientados pela perspectiva da “discriminação positiva”, tornando seletivos alguns benefícios das Políticas Sociais e, segundo as autoras, “numa clara tensão com o princípio
da universalidade” (Idem, p. 157)
O princípio da irredutibilidade, de forma a garantir que nenhum benefício tenha valor inferior ao do salário-mínimo, assim como o seu ajuste anual. E a diversidade das fontes de financiamento da Seguridade Social, que são provindas da
contribuição direta do empregado, de porcentagens sobre a folha de pagamento, faturamento e lucro, or parte do empregador e aportes dos três níveis da Federação (Governo Federal, Estados e Municípios). As autoras também enfatizam o caráter “democrático e descentralizado da administração”, o que supõe a participação do governo, trabalhadores e prestadores dos serviços, visando a democratização das decisões entre gestores e aqueles que “financiam e usufruem os direitos (os
cidadãos)” (Idem, p. 158).
Estes princípios representam as mudanças de orientação política na Seguridade Social brasileira afirmada pela Constituição, que rompia com os parâmetros seletivos e restritos vigentes até sua promulgação. O horizonte era de financiamento e execução de Políticas Sociais intersetoriais, públicas, estatais, gratuitas, de qualidade e geridas democraticamente com a participação das/os trabalhadoras/es, que financia e deveria usufruir dos serviços. Entretanto, a partir da década de 1990, como já discutimos, os direitos passam a ser desmontados, precarizados, e privatizados. Assim, ao contrário do que assegura a Constituição, o caráter estatal, público, gratuito e universal da Seguridade Social, a partir do receituário neoliberal, se efetiva a seletividade e a privatização.
Esse processo de privatização e seletividade acentua as contradições existentes no país, uma vez que não garante o acesso aos serviços públicos com qualidade. Criando, com o processo de privatização, uma dualidade: entre aqueles que podem pagar pelos serviços, e aqueles que não podem pagar. Assim,
a privatização no campo das políticas no campo das políticas sociais públicas compõe um movimento de transferências patrimoniais, além de expressar o processo mais profundo da supercapitalização (Behring,1998), já a seletividade associada à focalização assegura acesso apenas aos comprovada e extremamente pobres.(Behring;Bochetti, 2011, p159-660). Na atualidade a ofensiva neoliberal se intensifica, aprofundando os ataques às Políticas Sociais e, consequentemente aos direitos das/os trabalhadoras/es, em favor do pagamento do superavit primário. Em 2016, sob a mesma sustentação ideológica de responder a crise de financiamento do Estado, reafirmando a necessidade da realização do ajuste fiscal, na perspectiva de reduzir os gastos do Estado, garantir a “governabilidade”, e a confiabilidade dos investidores internacionais, aprova-se a PEC 55, PEC do Fim do Mundo. Esta Emenda
Constitucional atinge investimentos na área social, congelando por 20 anos os gastos públicos com as Políticas Sociais; desviando estes recursos do Fundo Público para o pagamento dos juros da dívida pública, que já ultrapassa mais de 40% do orçamento brasileiro. Além da PEC 55, presenciamos o retrocesso na área da Educação Pública, com a Reforma do Ensino Médio. Na Assistência Social, as tendências dominantes são altamente regressivas, com a revitalização do primeiro damismo e de programas assistencialistas, como o Programa Criança Feliz, que reforça a lógica conservadora de culpabilização das/os usuárias/os pelas mazelas da questão social, ferindo a concepção de Política de Assistência Social como um direito.
No âmbito das leis trabalhistas, tramitam no congresso “reformas” que impactam diretamente as relações de trabalho, acentuando a precarização da vida da classe trabalhadora (e o favorecimento da classe patronal). Dentre as várias “reformas”, destacamos duas, que estão na “ordem do dia”, a Reforma Trabalhista, que desmonta as leis trabalhistas, dando mais poder ao empregador para precarizar e diminuir os seus custos; e a Reforma da Previdência, que modifica todas as regras, aprofundando as “reformas” nas regras da Aposentadoria iniciadas na década de 1990. Reforma cujo horizonte coloca para a maioria da classe trabalhadora a impossibilidade de aposentadoria por tempo de serviço, aumentando a idade mínima e impondo, maior número de anos de trabalho, sem e considerar, entre outros elementos, a realidade da expectativa de vida nas diferentes regiões do país.
A/o assistente social sofre os impactos das contrarreformas em dois sentidos. Em primeiro lugar pelos ataques às Políticas Socais e programas sociais, que incidem diretamente nos espaços sócio ocupacionais precarizando as condições de trabalho e os serviços oferecidos às/aos usuárias/os. Em segundo lugar, os impactos incidem diretamente sobre sua condição de trabalhador/a assalariado/a, precarizando e fragilizando as relações trabalhistas. Além disso, o desemprego estrutural também incide sobre o mercado profissional de trabalho
Assim em um contexto de regressão dos direitos, as/os assistentes sociais também sofrem com a diminuição dos trabalhos formais, com limites de acesso aos seus direitos trabalhistas, e aos demais serviços públicos oferecidos pelo Estado.
Cresce o trabalho temporário, ou por execução de projetos, o que gera insegurança na/o profissional, uma vez que não há perspectiva de um emprego a longo prazo, ou na renovação do seu contrato. Desta forma a precarização das condições de trabalho atinge a qualidade dos serviços prestados e a relação com as/os usuárias/os. (Iamamoto, 2017)
Por isso, tem sido cada vez mais comum encontrar, num mesmo espaço sócio ocupacional, equipes compostas por assistentes sociais com vínculos empregatícios distintos, contratos pelo regime CLT, temporários e concursados. No âmbito do mercado profissional, temos “trabalho clandestino sem carteira assinada,
contratação sem concurso público, atuação em cooperativas de prestação de serviços, terceirização e quarteirização de serviços de empresas já terceirizadas, ao lado de concursos públicos e vínculo empregatícios protegidos com direitos trabalhistas”. (Idem, p29).
A literatura profissional também tem identificado baixo índices de sindicalização e o desrespeito por parte dos empregadores, da Lei das 30 horas e das resoluções que garantem as condições técnicas, físicas e éticas para o exercício profissional. Do mesmo modo, a existência de locais de trabalho sem a mínima infraestrutura para a execução do trabalho (telefone, folhas, transporte para visita domiciliar); assim como a ausência de arquivos com chave para guardar os documentos sigilosos, ou salas apropriadas para atendimentos, que assegurem o sigilo ético e a qualidade da prestação do serviço.
Outro elemento presente nas análises das/os pesquisadoras/es do Serviço Social é o processo de precarização e privatização da Educação, em especial do Ensino Superior. O sucateamento do Ensino Superior rebate diretamente nos pressupostos, valores e objetivos da formação profissional inscrita no projeto hegemônico do Serviço Social, contribuindo para aligeirar e fragilizar a formação, lançando no mercado de trabalho, com uma rapidez inédita, massas de assistentes sociais com um perfil profissional que tende a se submeter, de maneira subalternizada e acrítica, às requisições dominantes e conservadoras do mercado de trabalho. Elemento que incide na qualidade do serviço prestado, uma vez que uma formação qualificada, crítica e competente, é uma das exigências éticas do trabalho profissional.
Deste modo, como analisa Iamamoto (2017), o/a assistente social como trabalhador/a assalariado/a e como profissional liberal, dispõe de uma autonomia relativa, mas que ao mesmo tempo, o seu exercício é afetado pelos “constrangimentos do trabalho alienado”. Estes elementos acentuam a tensão entre o projeto ético político profissional e a alienação presente no “estatuto assalariado”. Compreender o rearranjo produtivo e os impactos nas relações sociais, principalmente as que atingem o “mundo do trabalho”, e a correlação de forças políticas, que tensionam o campo dos direitos, coloca desafios para a análise teórico crítica das possibilidades efetivas de realização de um trabalho profissional qualificado. Da mesma forma coloca-se como exigência a construção de alternativas profissionais que se vinculem às forças políticas que defendem os valores afirmados pelo projeto profissional.
2.3 Cotidiano Profissional
A vida cotidiana é uma dimensão insuprimível da totalidade social, nela nos socializamos, incorporamos hábitos, valores, desenvolvemos diversos graus de consciência e de juízos de caráter ético-moral que orientam nossas ações e comportamentos na vida social. Na esfera da individualidade, as motivações e as escolhas de valor que orientam as ações, expressam o modo singular da relação entre os indivíduos sociais e a totalidade do ser social. As escolhas de valor, as formas de consciência individual são socialmente determinadas, já que os valores são construídos historicamente como resultado da práxis socialmente efetivada. Na esfera do cotidiano, por sua estrutura e características ontológicas, os indivíduos sociais se relacionam com a totalidade social, com a complexidade do ser social e com as orientações de valor de forma imediata e espontânea, pois, as necessidades cotidianas se voltam para o eu. Como afirma Heller, no cotidiano, é o “eu que tem fome”, que “sente” e “necessita”.(Heller, apud, Barroco, 2012).
O cotidiano, desta forma, é a dimensão da totalidade social na qual se realizam as mediações entre o singular e o universal, por isso mesmo diante de sua estrutura ontológica, como tendência predominante que impede que os indivíduos sociais mobilizem suas capacidades essenciais, respondendo de forma imediata às
necessidades cotidianas, as respostas produzidas afetam a totalidade do ser. Do ponto de vista da abordagem ontológica, é, importante reconhece que as estruturas são necessárias para a reprodução social. O cotidiano é heterogêneo, ou seja, as necessidades, as expectativas e os papéis sociais presentes no cotidiano são diversos, demandando a dispersão da atenção na formulação das respostas, bem como um certo pragmatismo. Do mesmo modo o cotidiano se apresenta para os indivíduos sociais de forma imediata, fragmentada e dispersa, demandando respostas rápidas, pragmáticas e eficientes. Por isso, as práticas/respostas tipicamente cotidianas tendem a reproduzir o senso comum e a se basear na ultrageneralização de aspectos da realidade, considerados de forma isolada. Tendem a ser pragmáticas, imediatistas e pouco críticas, associando causa e efeito, pensamento e ação, de forma linear e não crítica, comprometendo portanto a intensidade e as potencialidades das capacidades humano-genéricas necessárias a efetivação da práxis. (Carvalho; Neto, 2000).
Esta estrutura favorece o espontaneísmo e o pragmatismo. O espontaneísmo contribuiu para que os indivíduos sociais se apropriem sem crítica dos valores, costumes, normas e visões de mundo dominantes, de forma a naturalizá-los, assegurando a reprodução de determinado modo de vida. O pragmatismo favorece a formulação de respostas práticas e rápidas às requisições e necessidades da vida cotidiana.
Por estas determinações, na esfera do cotidiano, o indivíduo tende a realizar sua singularidade sem se apropriar de forma consciente e livre das efetivas mediações existentes entre sua singularidade e a genericidade humana. Ou seja, sem se apropriar das mediações existentes entre as necessidades cotidianas e a reprodução da totalidade social. Do mesmo modo, entre as escolhas de valor que efetiva nas respostas cotidianas e a legitimação da totalidade do ser social. Assim, segundo Heller
O meio para essa superação dialética [autheburg] parcial ou total da particularidade, para decolagem da cotidianidade e sua elevação ao humano genérico, é a homogeneização. Sabemos que a vida cotidiana é heterogênea, que solicita todas as nossas capacidades em várias direções, mas nenhuma capacidade com intencionalidade especial. Na expressão de Georg Lukács: é o “homem inteiro” que intervêm na cotidianidade. O que significa homogeneização? Significa, por um lado, que concentramos toda a nossa atenção sobre uma única questão e “suspenderemos” qualquer outra atividade durante a execução da anterior tarefa; e que, por outro lado, que
empregamos nossa inteira individualidade humana na resolução desta tarefa. Utilizaremos outra expressão de Lukács: transformamo-nos assim em um homem inteiramente” (2000, p 27)
A elevação da singularidade, muda e imediata, é o processo que permite o contato com a consciência humano genérica, que só é possível por meio da práxis. Atividade criadora, mediada pelas capacidades humano-genéricas e capaz de instituir o novo. A realização das várias modalidades de práxis, dentre elas o trabalho, as ciências, as artes, a política e a ética, supõe momentos de homogenização que assegurem um processo no qual as capacidades humano- genéricas são mobilizadas na sua intensidade e potencialidades libertadores, contribuindo para que o indivíduo ultrapasse o imediatismo das necessidades voltadas exclusivamente ao eu, e que tome contato, pela mediação da consciência, com as conquistas e valores humano-genéricos. Neste processo “o indivíduo se