Pesquisamos alguns espaços de atuação do sindicato junto aos trabalhadores das conservas. Não haviam documentos específicos, direcionados apenas a essa categoria, então procuramos encontrá-los basicamente na leitura de matérias do Jornal Nossa Luta, livro de denúncias e na história das fichas ocupacionais feitas a partir do início dos anos 90. Essas fichas ocupacionais resultaram de uma nova política na área da saúde, a idéia era poder ter um acompanhamento da história ocupacional de trabalhadores das diferentes categorias da alimentação. Consultamos aquelas relacionadas ao setor conserveiro, as de 1991 a 1999, período que foram efetuados os cadastros. A análise de 72 dessas, permitiu observar parte das condições de trabalho e reclamações feitas pelos trabalhadores.
Conforme os prontuários médicos anexados a essas fichas, os casos mais freqüentes, que se cogitava estarem relacionados a doenças ocupacionais, eram de pacientes que se queixavam de dores nas pernas por ficarem muito tempo parados em pé na esteira, dores na coluna por carregarem muito peso e problemas de gastrite. Consta num
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Conforme um dos nossos entrevistados, “As indústrias de outros municípios fazem pracinha, tem creche, dão alimento a comunidade e tal, aqui não tem nada disso... então, reduziu a mão-de-obra, melhorou, talvez, a rentabilidade, e não tem nada entregue a sociedade como forma de recompensa...” (Pesquisador da EMBRAPA. R.O)
dos prontuários: “... dor no estômago... come poucas vezes no dia e a comida é requentada... só tem um intervalo para as refeições numa jornada de 8 horas” (1991). Aparece, muitas vezes, também, o problema da sinusite ligado à ocupação em ambientes úmidos e poluídos, cefaléia associada ao manuseio de cloro, e neurose obsessiva adquirida depois que começam a trabalhar na fábrica. Em diferentes pacientes, os prontuários registram caso de trabalhadores sofrendo de artrose, doença vinculada a movimentos repetitivos.
Das fichas ocupacionais, destacamos as funções mais comuns desses trabalhadores, a maioria deles responde que trabalham em Serviços Gerais (“servente”), quando descrevem a atividade, incluem, por exemplo, trabalhar na recravadeira, enlatamento, mecânico de manutenção, caldeirista, descascamento, balanceira, descaroçamento, raspagem de frutas, limpeza, auxiliar de caldeira, segurança, descarregador de caminhão, carregador de bacias e caixas, abastecimento de pêssego nas máquinas, rotulagem, limpeza do pêssego, carimbo de latas, colocação de latas nas caixas e algumas outras funções. Em praticamente todas as fichas os trabalhadores se referem ao excesso de jornada, afirmam, freqüentemente, que as empresas não dão horário de lanche e nem intervalo. A grande maioria declarou ficar exposto a alguma ou a quase todas as condições de excesso de cargas físicas, química, fisiológica e psicológica. Esses expuseram várias situações nas quais acidentaram-se como, por exemplo, cortes nas mãos, queimaduras nos tachos de doces e até pingos de soda nos olhos (Ficha, ano.1991).
Algumas situações semelhantes a essas também constam no livro de denúncias do sindicato, adotado a partir de 1992 para registrar as queixas dos trabalhadores que telefonam ou vão ao sindicato, todas as fábricas foram alguma ou muitas vezes referidas. Quando denunciam, eles pedem providência do sindicato, solicitam paralisações e greves. As reclamações expõem situações comuns vividas nas diferentes fábricas. Destacamos aquelas que, além de mais freqüentes, nos pareceram mais expressivas desse universo. As denúncias da década de 90 repetem-se a partir de 2000, quando algumas das fábricas já não estavam em funcionamento, mas conforme verificamos, todas mantêm o mesmo padrão de denúncias. As empresas em que entrevistamos gerentes ou proprietários são, muitas vezes, citadas nesses livros.
O STICAP registrou situações de trabalhadores sem carteira assinada, atraso de salários e não pagamento de horas-extras, auxílio escolar, abono família, diferença de dissídio, 13° salário e de verbas rescisórias. Há caso de funcionário que batia cartão ponto de todos os trabalhadores às 18h, enquanto esses continuavam trabalhando, também
haviam situações nas quais as horas-extras iam para o Banco de Hora. Uma trabalhadora foi pessoalmente ao sindicato dizer que estavam fazendo 16h, e que a empresa fechava o portão para ninguém sair. Uma delas não permitia soltar nem os trabalhadores que tinham horário de colégio (2004). Há queixas de excesso de jornada, mesmo em épocas inusitadas, como por exemplo, os encarregados “... fecharam o portão na véspera de Natal para obrigar os trabalhadores a fazerem horas-extras” (dezembro, 1996). Algumas trocam por folga na segunda, o trabalho realizado no domingo. As empresas são denunciadas por não quererem pagar os funcionários quando esses deixam de trabalhar por falta de fruta. E há denúncias de fábrica que demitiram mulheres por estarem grávidas. Em 2003, o livro registra queixa realizada por estudante que fez estágio em uma das empresas, e acusa a essa de estar usando excesso de produtos tóxicos nas conservas (março, 2003). Além disso, são freqüentes as denúncias de trabalhadoras que são ofendidas por encarregados e proprietários, como por exemplo, “... a patroa tem ameaçado os empregados. E, pelo denunciante, a mesma anda armada dentro da empresa...” (abril, 1997), e sobre o encarregado, “...humilha as trabalhadoras, que uma delas teve alta de pressão, e foi parar no pronto socorro...” (novembro, 1998) eles, “...tratam os trabalhadores como animais, aos gritos, com palavrões e empurrões” (julho, 1999). As trabalhadoras reclamaram o não pagamento de horas-extras, e o supervisor “... mandou elas calarem a boca, porque a porteira esta cheia de gente pra trabalhar...” (dezembro, 2002). Denuncia-se que em uma das fábricas “... tem uma encarregada que humilha e chama o pessoal de vaca, atirou até um caixa de pêssego por cima das mulheres...” (dezembro, 2004). O livro também registra várias situações de assédio, como por exemplo, “... o encarregado... continua com atitudes inconvenientes. Esta passando cantada nas mulheres...” (janeiro, 2000) outra declaração, “... quer agarrar as gurias novas numa peça lá no depósito... Diz a elas que vai lhes conseguir um trabalho melhor” (dezembro, 2003).
Outro espaço bastante rico, onde aparecem questões relacionadas aos trabalhadores do setor conserveiro, é no Jornal Nossa Luta do STICAP. Fizemos consulta a alguns boletins anteriores, e analisamos notas dos jornais a partir de 1990 que se referiam aos trabalhadores das conservas106, notas decorrentes das denúncias e das observações feitas a partir das visitas às empresas. Ao longo dos anos as queixas repetem-se. A partir de 2000,
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O sindicato, até o presente momento, não tinha esses jornais arquivados, isso está sendo realizado agora por estudantes e historiadores do IMA (Instituto Mario Alves), portanto esse material encontrava-se disperso, nem todos os jornais desse período puderam ser consultados. Para tentar reduzir as lacunas, recorremos a arquivos pessoais de algumas pessoas, como o do ex-jornalista do STICAP. Anteriormente a 89 não existiam jornais, na década de 70 eram proibidos e em 80 a diretoria não dedicava-se a isso. A partir de 90 é que o jornal passa a ser considerado um recurso de maior aproximação junto aos trabalhadores.
entram poucos fatos novos, como é caso das doenças ocupacionais que passam a ser mais freqüentes. A propósito da continuidade dos problemas vividos pelos trabalhadores, o Jornal do STICAP registra no começo da última safra em 2007:
“... mais uma safra de conservas de pêssego está em andamento e com ela, infelizmente, se repetem problemas históricos com os direitos dos trabalhadores safristas... atitudes exploradoras e irregulares, como excesso de jornada de trabalho, sonegação de horas-extras, ritmo acelerado de trabalho, ambientes ruins de trabalho, entre outros tantos problemas, como até a falta de respeito por parte de alguns patrões e encarregados...” (janeiro, 2007).
Nos relatos dos trabalhadores que entrevistamos, situações como essas são referendadas, freqüentemente, na intensidade inversa à forma como deixam de ser mencionada nos relatos empresariais.