4.2 Elementos hidromorfológicos de suporte dos elementos biológicos
4.2.3 Condições morfológicas e hidromorfológicas
Entenda-se por condições morfológicas, todos os parâmetros abióticos dos ecossistemas fluviais entre os quais, segundo a DQA, a variação da profundidade e largura do rio, estrutura e substrato do leito bem como composição e estrutura da zona ripícola. Os fenómenos de erosão natural são significativamente influenciados pela quantidade de água que aportam, ao longo do seu percurso longitudinal. Por outro lado, a estrutura e substrato do leito em muito condicionam a velocidade e direcção do escoamento. Adicionalmente, a composição e estrutura da zona ripícola é um factor determinante para a estabilidade morfológica dos sistemas fluviais, uma vez que, para além do seu papel de zona transição e tampão entre o ecossistema aquático e terrestre, com elevada importância ecológica, apresenta uma importância vital na delimitação natural do leito dos rios, bem como no controlo da amplitude térmica anual do curso de água e no aporte de matéria orgânica autóctone para o leito do rio.
Nas zonas áridas e mediterrânicas os períodos de estiagem são normalmente longos sendo que a fauna local é fortemente condicionada por esta sazonalidade e normalmente é caracterizada por espécies
27 adaptadas a fenómenos de sobrevivência temporal e a flora e vegetação das zonas ripícolas é normalmente pobre ou pouco desenvolvida como consequência da falta de disponibilidade de água em alguns períodos do ano. Por outro lado, os cursos de água perenes, são caracterizados por uma grande diversidade aquática e ripária, já que nas estações mais húmidas do ano, ocorre frequentemente a inundação das planícies aluviais aumentando a conectividade lateral do ecossistema, uma vez que os organismos ai presentes estão bem adaptados a estes fenómenos, nomeadamente os peixes e invertebrados que usufruem desta zonas, seja para fenómenos de procura de alimento, desova ou refugio, quando as condições de escoamento são mais desfavoráveis para a sua sobrevivência.
A conservação do valor natural das planícies aluviais e zonas húmidas adjacentes está largamente dependente das interacções de cariz hidrológico e ecológico entre o rio, as zonas ripícolas e os leitos de cheia, que promovem esta conectividade e inter-dependência que aumenta o fluxo de matéria e energia entres estes sistemas, fundamental para o equilíbrio ecológico dos ecossistemas fluviais, uma vez que estes necessitam de esta relação constante com as suas margens.
Por vezes, a importância deste mosaico de habitats lênticos e semi-lênticos que se desenvolvem nas margens e leitos de cheia do rios, são de uma forma geral mais importantes que o próprio canal fluvial [Garcia & Laville; (2001)], uma vez que são eles que conferem uma heterogeneidade única ao sistema, proporcionando condições estáveis para o estabelecimento e desenvolvimento de plantas aquáticas e vegetação ripícola, que tem um papel importante não só na criação de habitats de reprodução, refugio e alimento para espécies de invertebrados e peixes, mas também na retenção e fixação de matéria inorgânica (nutrientes), que de outra forma atingiria o curso de água, controlando dessa forma o aumento de biomassa na coluna de água com influencia directa nos seus parâmetros físico-químicos, nomeadamente na temperatura, turvação, acidez e oxigénio dissolvido.
Neste sentido, a alteração profunda destes padrões e características, fruto da regularização e canalização dos leitos fluviais, isolando o rio das suas margens provoca uma perda significativa de habitats com consequências na estabilidade e diversidade das comunidades biológicas, provocando um empobrecimento gradual da estrutura e funcionalidade destes ecossistemas.
Desta forma, é de substancial importância avaliar e verificar a influência dos AH e obras hidráulicas adjacentes nestes parâmetros, para uma visão integrada e racional dos recursos dentro de uma bacia hidrográfica, relacionando-os entre si, promovendo o equilíbrio ecológico e a preservação dos ecossistemas.
Para a avaliação, em rios, dos parâmetros acima mencionados deverá utilizar-se o RHS. O RHS é um método de inventariação e monitorização de componentes longitudinais e transversais dos cursos de água, incluindo o canal, as margens do corredor fluvial e o leito de cheia. Este método foi desenvolvido e aplicado na rede de monitorização de rios do Reino Unido desde 1993 [Fox et al. (1998)] e tem sido também aplicado em vários países europeus [Szoszkiewicz et al. (2006)] tendo o INAG adoptado esta ferramenta para a caracterização e avaliação da qualidade hidromorfológica do habitat fluvial. Este método engloba a análise de um conjunto de atributos e índices da integridade ecológica do sistema fluvial entre eles a geometria do canal, tipo de substrato, tipos de fluxo, processos de erosão e sedimentação, estrutura das margens, presença de vegetação, depósitos orgânicos, ocupação e uso do solo da área envolvente e perturbações antropogénicas evidenciadas. Esta análise é feita no corredor fluvial ao longo de um troço de 500 m de comprimento, abrangendo uma faixa de 50 m de cada lado da linha de água. As observações são registadas a duas escalas distintas, em transectos estabelecidos em intervalos de 50 m, denominados spot-checks, e de modo contínuo ao longo do troço em análise, denominado de sweep-up. A Figura 4, apresenta de uma forma esquemática as características recenseadas durante a realização deste método.
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Figura 4 – Características recenseadas nos spot-checks na realização do método RHS
Como consequência da aplicação deste método, o resultado final é expresso sob a forma de dois índices, o HQA e o HMS como consequência da caracterização hidromorfológica dos troços inventariados.
O HQA, que é uma medida da diversidade e aptidão dos habitats fluviais para suportar organismos biológicos, é determinado pela presença e extensão das características do habitat das espécies autóctones de reconhecido interesse. As comparações entre diferentes HQA devem apenas ocorrer para rios de carácter semelhante, ou para troços de um mesmo rio. Este índice é normalmente expresso em valor absoluto e que aumenta com o incremento da qualidade do habitat.
O HMS avalia o grau de artificialização da estrutura física do corredor fluvial. A pontuação HMS é independente do tipo de rio, podendo, por isso, ser utilizada para descrever modificações artificiais ao longo da margem. Contudo, factores biológicos, assim como a presença de espécies alóctones não são incluídos no sistema de classificação. Os valores de HMS aumentam com o incremento do grau de modificação e um valor de zero indica que não existem modificações antropogénicas, podendo classificar-se o local como pristino. Na Tabela 12 estão representadas as categorias do estado físico do canal, expressas em 5 classes de degradação de acordo com o HMI nos locais do recenseamento, associado ao valor de HMS obtido e na Tabela 13 estão representados os valores-limite para a classe excelente, do índice HQA, para os diferentes rios Portugueses, após aplicação desta metodologia.
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HMI Intervalos HMS Termo de Qualidade
I
0 Pristino
0 - 2 Semi-natural
II 3 - 8 Predom. não modificado
III 9 - 20 Obviamente modificado
IV 21 - 44 Sign. modificado
V ≥ 45 Severamente modificado
Tabela 12 – Relação entre o valor de HMS e respectivo grau de alteração de acordo com a metodologia RHS (Adaptado de Raven et al., 1998)
Tabela 13 – Valores limite do índice HQA para a classe Excelente para os diferentes tipos de rios de Portugal Continental (Adaptado de INAG, 2009)
Neste sentido, para a avaliação do estado ecológico e de acordo com as orientações da autoridade nacional em matéria de recursos hídricos, os parâmetros hidromorfológicos a monitorizar em rios e albufeiras estão representados nas Tabelas 14 e 15 respectivamente.
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Tabela 14 – Elementos Hidromorfológicos de suporte e respectivas componentes e indicadores a utilizar na avaliação do Estado Ecológico em rios (Adaptado de INAG, 2009)
Tabela 15 – Elementos Hidromorfológicos de suporte e respectivas componentes e indicadores a utilizar na avaliação do Potencial Ecológico em albufeiras (Adaptado de INAG, 2009)