2 Um olhar para a legislação: panorama estrutural das políticas de
3.1 Contornos da abordagem sobre o objeto de análise
3.1.3 Condicionamentos jurídicos: o esquema processual civil
Definido os critérios espacial e temporal, faz-se necessário tecer breves comentários a respeito do tipo de pronunciamento judicial o qual será objeto de pesquisa, coleta e análise dos dados. O magistrado, no curso dos processos, pratica inúmeros atos processuais para decidir questões incidentes ou de mérito. Para este trabalho, apenas serão considerados os atos que contenham algum conteúdo jurisdicional de fundo, isto é, que resolvem a matéria levada a conhecimento do juízo. Um detalhamento desse condicionamento jurídico do discurso objeto da pesquisa é necessário para justificar a base de dados adotada para análise.
No rol de atos29 que podem ser praticados pelo juiz de primeiro grau, estão as sentenças, decisões interlocutórias e despachos (BRASIL, 2015, art. 203). Em relação às sentenças, essas têm a capacidade de por fim ao processo ou, pelo menos, à sua fase cognitiva, decidindo ou não o mérito da causa. Na dicção do artigo 203, §1º, do CPC, sentença “é o pronunciamento por meio do qual o juiz, com fundamento nos arts. 485 e 487, põe fim à fase cognitiva do procedimento comum, bem como extingue a execução.”
O novo Código de processo Civil – CPC corrigiu uma impropriedade que ocorria na sua versão anterior, a qual conduzia ao entendimento de que sentença era toda decisão que implicava a extinção do processo com ou sem resolução de mérito, o que nem sempre se verificava. Sentença, portanto, é definida pelos seus efeitos do pronunciamento e não pelo seu conteúdo (THEODORO JÚNIOR, 2018, p. 514).
Ainda a respeito das sentenças, elas são tradicionalmente classificadas em terminativas e definitivas. As terminativas põem fim ao processo, entretanto não resolvem o mérito (art. 485) e, nesse caso, por não ter sido apreciado, o direito de ação ainda subsiste para instaurar um novo processo. As definitivas põem fim ao processo decidindo o mérito no todo ou em parte (art. 487). Nesse caso, não há possibilidade de propor outra cause que verse sobre a mesma lide, pois o processo chegou ao seu fim. Contudo, apenas teve conclusão sua fase de conhecimento, seguindo o processo com as fases de liquidação e cumprimento de sentença, para, só então, ser definitivamente encerrado (THEODORO JÚNIOR, 2018, p. 519).
29 Apesar de ser utilizado o termo ato, onde assim estiver escrito entenda-se também como
A decisão interlocutória tem seu conceito formado por exclusão, em razão de corresponder a qualquer pronunciamento judicial de natureza decisória que não se enquadre no conceito de sentença, ou seja, que não extinga a fase cognitiva nem ponha fim à execução (art. 203, §2º). Despachos são “todos os demais pronunciamentos do juiz praticados no processo, de ofício ou a requerimento da parte” (art. 203, §3º). Em outras palavras, seriam os atos que têm o propósito de impulsionar o andamento do processo, mas não decidem qualquer tipo de incidente (THEODORO JÚNIOR, 2018, p. 516-517).
Todo ato do juiz que possua conteúdo decisório (sentenças e decisões interlocutórias) está sujeito à possibilidade do seu reexame por um órgão hierarquicamente superior, através da garantia do duplo grau de jurisdição. Esse princípio assegura o direito de recurso, já que a parte tem direito a sua pretensão ser reconhecida e julgada por dois juízos distintos, caso não se conforme com a primeira decisão (DONIZETTI, 2018, p. 57; THEODORO JÚNIOR, 2018, p. 58-59).
Dito isso, cabe fazer uma nova distinção entre os pronunciamentos do juiz a partir do viés recursal. As sentenças podem ser impugnadas através de apelação (art. 1.009), as decisões interlocutórias são recorríveis por agravo de instrumento (art. 1.015) e os despachos não permitem nenhum recurso específico (art. 1.001) 30.
Nas ocasiões que são interpostos recursos com efeito devolutivo31 o julgamento caberá, a priori, ao tribunal, que decidirá através de uma decisão colegiada. Cada processo é então distribuído a um magistrado, que se torna o relator do caso. A ele é atribuído a função de coordenar o processo, mas não de decidi-lo sozinho, na maior parte dos casos. O julgamento dos recursos é de competência do plenário ou de algum órgão fracionário, ambos atuando como um colegiado. Em caso de apelação ou agravo de instrumento, essa decisão colegiada será composta pelo voto de, no mínimo, três juízes (art. 941, §2º) (THEODORO JÚNIOR, 2017, p. 1004). A esse julgamento colegiado dá-se o nome de acórdão (art. 204), seja se decidiu uma questão incidente no processo (em agravo de instrumento) ou se pôs fim
30 Caso o despacho ultrapasse seu limite processual e cause algum gravame é possível ser atacado
por algum recurso, contudo essa matéria não será abordada por fugir do propósito deste trabalho.
31 O efeito devolutivo consiste na capacidade que todo recurso tem de devolver o conhecimento da
ao processo cognitivo ou executivo (em apelação). Todavia, o CPC, em alguns casos, permite ao relator realizar julgamentos singulares, valendo seu ato como se decisão do tribunal fosse. Esses casos são denominados como decisão monocrática e têm o poder encerrar o processo ou decidir uma questão incidental (DONIZETTI, 2018, p. 381; THEODORO JÚNIOR, 2017, p. 1004). Essas hipóteses de decisão monocrática do relator não serão mencionadas, por não fazerem parte do foco de pesquisa.
Todo esse esquema de tipos decisórios foi apresentado com a finalidade de permitir uma melhor percepção do recorte institucional adotado na coleta das informações. Nesse sentido, a base de dados escolhida remete aos processos de segunda instância, que versavam sobre decisões colegiadas referentes às ações ajuizadas por indivíduos contra a Secretaria de Saúde do Distrito Federal – SES/DF demandando o fornecimento de medicamentos através do Sistema Único de Saúde. Especificamente em relação aos acórdãos, apenas foram examinados aqueles que julgavam apelação, visto a matéria impugnada mediante agravo de instrumento ser apenas uma questão incidental32 no processo.
Também foi determinante o fato de que apenas as decisões de segundo grau podem formar jurisprudência, o que não ocorre com as sentenças. Além disso, o sistema de consulta de jurisprudência oportunizado pelo próprio site do TJDFT detém um nível de confiabilidade e integridade que tornam possíveis que a pesquisa seja realizada através de uma plataforma virtual apenas para os acórdãos.