3. Metodologia e técnica de recolha de dados
4.5. Condicionantes da satisfação e do desempenho
De acordo com as hipóteses em estudo, pretendemos neste subcapítulo apurar se existem relações entre as variáveis. No anexo 25, estão disponíveis os outputs da
análise estatística que serviram de base à elaboração das figuras que apresentamos mais adiante.
Muitas vezes, a forma de estar na profissão está intrinsecamente ligada com a empresa onde se trabalha. É esta relação que, apesar de fraca375, está explanada na fig. 6. O sentir-se confiante na sua actividade profissional é o mais apontado pelos gestores comerciais. Dos 36 gestores que o afirmaram, 41,7 % trabalham na Leroy Merlin, 38,9 % integram a Media Markt e os restantes 19,4 % exercem a sua actividade profissional na Decathlon.
Analisando cada empresa separadamente, verificamos a mesma tendência de resposta. Na Decathlon, a maior parte dos inquiridos (30,4 %) apontam o sentir-se confiante como primeira opção, seguida de perto pelo optimismo (26,1 %). Nesta empresa, ninguém se mostrou preocupado na sua actividade profissional. Em relação à Media Markt, também o sentir-se confiante é referido pela maior parte (31,8 %) dos gestores comerciais, seguido de perto pelo sentir-se envolvido, apontado por 29,5 % dos inquiridos. Existem, no entanto, algumas pessoas preocupadas com a sua actividade (9,1 %). Por último, constatamos que na Leroy Merlin o sentir-se confiante é também a resposta escolhida pela maior parte (44,1 %) dos inquiridos e o sentir-se envolvido aparece em segundo lugar, com 38,2 % de respostas. Na Leroy Merlin, os gestores comerciais não se mostraram nem preocupados nem ameaçados na sua actividade profissional.
Assim, verificamos que os únicos que se sentem preocupados na sua profissão pertencem à Media Markt. É muito interessante referirmos que, poucos meses depois de ser aplicado este questionário, a Media Markt fechou a sua primeira loja em Portugal.
Fig. 6 — «Como se sente na actividade profissional?», segundo a empresa onde trabalha.
Fig. 7 — «Como define a qualidade do contacto com a equipa?», segundo a ascensão ao escalão
sénior.
Chegar ao escalão sénior de um desporto federado implica muitas mudanças, nomeadamente uma maior entrega e uma maior responsabilidade, treinos mais exigentes e horários mais apertados. Assim, pretende-se saber se o facto de os gestores comerciais terem chegado ao escalão sénior enquanto praticantes desportivos tem impacto na qualidade do contacto com a equipa de trabalho. Esta relação é fraca e está reflectida na fig. 8376. Verificamos que a maioria (53,5 %)377 dos gestores comerciais chegaram ao escalão sénior. Em geral, a qualidade do contacto mais apontada em ambos os casos (gestores comerciais que chegaram ao escalão sénior e gestores comerciais que não chegaram) foi o cooperativo, que é referida quer por grande parte (39,6 %) dos gestores comerciais que chegaram ao escalão sénior quer pela maioria (56,5 %) dos que não chegaram a este escalão. O motivo pelo qual uma percentagem superior de inquiridos não seniores optaram por esta qualidade poderá estar ligado com a maior interajuda nas equipas de atletas não seniores, em comparação com os seniores. A segunda qualidade mais destacada por ambos os tipos de atleta é a importância do contacto com a equipa, considerada por 37,7 % dos inquiridos que chegaram ao escalão sénior como atletas federados e por 21,7 % dos gestores comerciais que não chegaram a esse escalão. Ao compararmos as percentagens, verificamos que esta qualidade é mais
376 V de Cramér = 0,219.
apontada por quem chegou a atleta sénior, o que poderá estar relacionado com a importância dada a uma equipa para o sucesso numa carreira de atleta federado.
Fig. 8 — «Sente-se bem a liderar a sua equipa?», segundo o tipo de desporto que praticou como atleta federado?
Propusemo-nos também apurar, ainda quanto aos gestores comerciais, se sentirem-se bem a liderar a sua equipa tem alguma relação com o tipo de desporto federado praticado. A relação existente, apesar de fraca378, conduz a realçar que, dos praticantes de desporto individual, temos um empate entre "várias vezes" e "sempre" (46,2 %, nas duas categorias). No caso dos gestores comerciais que praticam ou praticaram desporto colectivo, a maioria (70,5 %) afirmam que se sentem sempre bem a liderar a sua equipa. Não é de estranhar, assim, que a maioria (83,3 %) dos que praticam ou praticaram ambos os tipos de desporto também confirmem que se sentem sempre bem a liderar a sua equipa.
Outra das relações que se pretendia identificar através deste inquérito era entre o tempo de prática da actividade desportiva e o impacto do passado/presente desportivo no desempenho profissional (fig. 9). Verificamos que a relação entre as duas características é fraca379; contudo, identificamos que, dos praticantes de desporto entre um e cinco anos, a maioria (69,2 %) pensam que o seu passado/presente desportivo tem
378 V de Cramér = 0,198. 379 V de Cramér = 0,263.
importância no seu desempenho profissional. Dos gestores comerciais com prática desportiva de cinco ou mais anos, a esmagadora maioria (90,4 %) consideram que o seu percurso ligado ao desporto tem uma importância fundamental no seu desempenho profissional. Assim, qualquer que seja o tempo de prática desportiva, é evidente a importância no desempenho profissional.
Fig. 9 — A importância do passado/presente desportivo no desempenho profissional, segundo
o tempo de prática de actividade desportiva.
Fig. 10 — A importância do passado/presente desportivo no desempenho profissional, segundo a
prática de desporto como atleta federado.
E, no que concerne ao tipo de desporto praticado, será que este tem alguma relação com a importância dada ao passado/presente desportivo para o desempenho profissional (fig. 10)? Apesar de a relação entre estas questões ser muito fraca380, aqui as respostas não surpreendem: temos uma grande maioria dos praticantes de desporto (independentemente do tipo praticado) a confirmarem a importância da prática desportiva no seu desempenho profissional (85,2 % para o desporto individual e 82,0 % para o desporto colectivo). Dos gestores que praticam ou praticaram ambos os tipos de desporto, todos são unânimes em afirmar que o seu percurso desportivo tem uma importância fundamental no seu desempenho profissional.
Um elemento comum em todos os praticantes de desporto (seja ele federado ou não) é a presença de um treinador. Será que esta figura tem algum impacto no desempenho da actividade profissional? Assim, relacionou-se a recordação dos treinadores no seu dia-a-dia profissional com a importância do percurso desportivo no desempenho
profissional. Desta relação muito fraca381, constatamos, pela observação da fig. 11, que a maioria dos gestores comerciais consideram que o seu percurso desportivo tem uma importância fundamental no seu desempenho profissional, quer se recorde quer não dos seus treinadores (87,4 % e 73,3 %, respectivamente).
Propusemo-nos ir mais longe e analisar se o facto de actuar como treinador desportivo enquanto líder de equipa na sua profissão estaria relacionado com a importância dada ao passado/presente desportivo no desempenho profissional. Verificamos que esta relação é inexistente382 e que, quer o gestor comercial actue como treinador desportivo enquanto líder de equipa, quer assim não se comporte, a maioria (respectivamente, 85,5 % e 83,3 %) continuam a afirmar que o seu passado/presente desportivo tem uma importância fundamental para o seu desempenho profissional, conforme se pode ver na fig. 12.
Fig. 11 — A importância do passado/presente desportivo no desempenho profissional, segundo a
recordação dos treinadores no dia-a-dia profissional.
Fig. 12 — A importância do passado/presente desportivo no desempenho profissional, segundo a actuação como treinador desportivo enquanto líder
de equipa.
Por último, quisemos saber se as várias competências adquiridas na prática desportiva federada teriam alguma relação com a importância do passado/presente de prática desportiva federada no desempenho profissional. Das 15 competências analisadas (fig. 13), somente a liderança revela uma relação fraca383 com a importância do
381
V de Cramér = 0,140.
382 V de Cramér = 0,026. 383 V de Cramér = 0,263.
passado/presente desportivo no desempenho profissional. Dos gestores comerciais que responderam que a liderança era uma das competências que tinham adquirido na prática desportiva, a grande maioria (95,8 %) consideram que o seu passado/presente desportivo tem uma importância fundamental no seu desempenho profissional.
Fig. 13 — A importância do passado/presente desportivo no desempenho profissional, segundo as competências.