Para entender-se como se constituem e como funcionam os objetos técnicos, principalmente para detalhar os agentes envolvidos em determinada ação, importa intensificar os estudos no que diz respeito à norma, e por consequência, ao direito ANTAS JÚNIOR, 2005). Nesse caso, o presente estudo, analisa exclusivamente as normas jurídicas, mas entendendo que as demais normas (técnicas, sociais, culturais) são tão importantes quanto as que se está a analisar.
“Os obstáculos oriundos da natureza natural não podem ser considerados produtores de normas, pois não têm qualquer sentido teleológico, não buscam criar eventos produtivos ou úteis, e se ocorrem, é puro acaso” (ANTAS JÚNIOR, 2005, p.
68). Contrariamente, os condomínios horizontais fechados produzem esta consequência, produzem regulação e também a demandam.
A natureza natural também é condicionadora, porém seus eventos resultantes tendem a impor limitações às ações pela força dos processos cósmicos e telúricos que, como não têm qualquer sentido teleológico, não podem ser confundidos com a norma, que é uma construção social. As formas dos objetos técnicos pertencem aos mais variados tipos e qualidades.
Eles não fazem sentido sem relação com outros objetos e com as almas e espíritos. Os homens, portanto, estão sempre em relação com conjuntos de objetos de classes distintas, que funcionam em sistemas. (ANTAS JÚNIOR, 2005, p. 220).
Santos (1996) afirma que o espaço é formado por um sistema de ações e objetos que são indissociáveis. Estes objetos condicionam ações, bem como as ações condicionam novos objetos. A compreensão do sistema de objetos permite a análise de forças produtivas, enquanto que o estudo do sistema de ações possibilita o entendimento das relações sociais de produção, mesmo que seja impossível criar um isolamento das relações. Como estão condicionados uns aos outros, os sistemas de relações são independentes. Entendendo, então, o sistema de ações e o sistema de objetos como processo e resultado, Santos (1996) propõe a análise de um conjunto desta interação.
Voltemos, porém, à classificação mais intuitiva entre objetos e coisas, para lembrar que, hoje, e cada vez mais, os objetos tomam o lugar das coisas. No princípio, tudo eram coisas, enquanto hoje tudo tende a ser objeto, já que as próprias coisas, dádivas da natureza, quando utilizadas pelos homens a partir de um conjunto de intenções sociais, passam, também, a ser objetos. Assim a natureza se transforma em um verdadeiro sistema de objetos e não mais de coisas e, ironicamente, é o próprio movimento ecológico que completa o processo de desnaturalização da natureza, dando a esta última um valor.
(SANTOS, 1996, p. 41).
Para Santos (1996) as ações são orientadas por um objetivo a ser concretizado.
A ação é submissa a normas que podem ser escritas ou não, podem ser formais, informais e a realização do propósito demanda energia. O entendimento de atuação relaciona-se com a noção de práxis e as práticas são atos regulados, rotinas que atuam na produção de uma ordem. Para Antas Júnior (2005, p. 58), existem diferentes densidades normativas na interação entre as ações e os objetos, “conforme a quantidade e a qualidade com que esses dois elementos distribuem-se pela superfície terrestre, e grande parte dessas normas, jurídicas, busca regular tal relação.” (ANTAS JÚNIOR, 2005, p. 58).
Conforme Santos (1978), a forma é maneira visível, concreta de um conjunto de objetos, ou seja, as formas espaciais. Função é a atividade que o objeto realiza. A estrutura é determinada pelo caráter histórico, porquanto nela estão inseridas funções
criadas e funções determinadas. As formas e funções se alteram no tempo e detém características conforme cada grupo social. É um entendimento que relaciona a geografia e o espaço a uma concepção que é, também, histórica. Para Saquet e Silva (2008, p. 40)
A materialidade do território é, assim, definida por objetos que têm uma gênese técnica e social, juntamente com um conteúdo técnico e social.
Objetos organizados em sistemas e com influência direta no uso do território.
Este é usado, reorganizado, configurado, normatizado, racionalizado. Há porções de territórios com objetos e ações, normas (técnicas, políticas e jurídicas), ritmos, heterogeneidades, agentes. São parcelas territoriais formadas no espaço [...]
Nesse contexto, o Estado deixou de aumentar investimentos em âmbitos importantes, limitando a qualidade e a quantidade de alguns serviços, que em tese são de competência pública. O Estado trabalha como um regulador de alguns serviços e, em alguns casos, bens. Como resultado tem-se o crescimento da insegurança e também da violência. A ineficiência de serviços públicos, especialmente, a garantia da segurança, faz com que as classes com alto poder aquisitivo se isolem. A implantação de condomínios horizontais fechados revela-se como uma fase desse processo. O condomínio, entendido como um objeto e relacionado ao uso do espaço geográfico, implica entender que a produção do “território sofreu uma aceleração progressiva com a estruturação do capitalismo através da produção de novos objetos técnicos, e estes, por sua vez, condicionaram a geração ampliada e diversificada de novas ações.” (ANTAS JÚNIOR, 2005, p. 141).
Diferentes discursos vêm sendo utilizados para propagandear e vender este tipo de empreendimento. Em muitas ocasiões, os promotores imobiliários utilizam-se das belezas naturais, da tranquilidade, dos muros, da área de lazer e dos tecnológicos aparatos de vigilância. O que resta aos “indesejáveis” é o outro lado do muro, especialmente porque nesse caso, os condomínios horizontais fechados são destinados à população de alto poder aquisitivo.
Apresentando o conceito de “mixofobia”, Baumann (2009) apresenta diversas maneiras da arquitetura e do urbanismo se apresentarem como verdadeiros retratos do medo. São formas de afastar visitantes indesejáveis, formas de autossegregação como os próprios condomínios fechados, são espaços com espinhos, com a única finalidade de não servir aos inconvenientes. Em muitas ocasiões, esses lugares não são acessíveis em virtude de mecanismos de segurança, como as
cancelas existentes nos condomínios fechados. Para Baumann (2009, p. 43)
“mixofobia” é uma "reação previsível e generalizada perante a inconcebível, arrepiante e aflitiva variedade de tipos humanos e de costumes que coexistem nas ruas das cidades." Para o autor existe uma disposição das pessoas em procurar locais cujos moradores sejam da mesma condição de renda, assemelhem-se entre si, ante as condições adversas da cidade, marcada por diversidade e diferença.
De acordo com Caldeira (2000), os condomínios horizontais fechados são uma espécie diferenciada de novos empreendimentos urbanos residenciais que estão alterando a maneira como as pessoas, tanto de classe média, quanto de classe alta, habitam, vivem e utilizam seu tempo. Para a autora, o isolamento, a propriedade privada e um ambiente relativamente homogêneo, no que diz respeito às questões sociais, são algumas das características destes empreendimentos.
Os empreendimentos estão inseridos, muitas vezes, em áreas de interesse público e de proteção ambiental, podendo ser beiras de lagoas, como é o caso de Capão da Canoa, ou ainda, beira-mar, como é o caso de Xangri-Lá. A figura 6 demonstra que estes aspectos naturais se tornam mecanismos de venda e no outdoor é possível visualizar a venda de uma imagem de proximidade com a natureza.
Figura 6 – Outdoor e informações publicitárias do Condomínio “Capão Ilhas Resort”
Fonte: Acervo pessoal da pesquisadora, 2016 (autoria das fotos: Bibiana Barbosa de Souza e João Otávio Barbosa de Souza). E:
http://imoveis.mitula.com.br/imoveis/terrenos-area-preserva%C3%A7ao-ambiental-capao-da-canoa (Acesso em: 10 set. 2016).
Segmentando o espaço urbano, os condomínios horizontais fechados são decorrentes de um processo de urbanização intensificado, especialmente a partir da década de 1980, no caso do Brasil. De acordo com Antas Júnior (2005), os estados que demonstram altos números de urbanização possuem uma maior quantidade de
infraestrutura, além de um número superior de sistemas técnicos e, logicamente, uma produção numerosa de objetos técnicos. Um meio tecnificado e marcado por componentes informacionais tende a apresentar um conjunto maior de normas, porquanto a densidade de normas é proporcional à quantidade de sistemas e objetos técnicos.
Outra questão que chama atenção quando é analisada a urbanização no período técnico científico-informacional é a que se refere às especificidades dos objetos, pois estes objetos demandam e impõem normas necessárias tanto a sua produção, quanto ao seu consumo. Gilbert Simondon (1989 [1958]), quando aborda a existência dos objetos, classifica-os em dois tipos: abstratos e concentrados. O primeiro tipo seriam os que se encontram perto da natureza, razão pela qual não seriam perfeitos, permitindo que seus integrantes funcionem tanto conjuntamente, quanto isoladamente. O segundo tipo, os objetos concentrados, seriam dotados de tecnicidade, visto que possibilitariam uma ordem mais eficaz do homem sobre eles, mas que exigiria uma racionalidade interna que regulamentaria o seu uso para determinada função.
Segundo o autor, não é uma tarefa fácil determinar qual é a gênese de cada objeto técnico, “porquê a individualidade de cada objeto técnico se modifica no curso de sua gênese” (SIMONDON, 1989 [1958], p. 19)17. A particularidade de cada objeto técnico, então, é inconstante. Daí a facilidade em definir-se a sua gênese pela sua utilização e ser importante investigar o que é um objeto técnico abstrato e concreto.
Em se tratando de objetos técnicos abstratos, tudo deve funcionar em perfeita ordem, autonomamente, porque o sistema é fechado, há uma associação entre as partes, estabelecida previamente. Quanto ao objeto técnico concreto, Simondon (1989 [1958], p. 22) entende que é aquele que “[...] realiza uma convergência de funções numa mesma unidade estrutural [...].”18 Ou seja, cada elemento trabalha um pelo outro, comunicando-se, já que estão conectados e fazem parte de um sistema. Esse funcionamento impinge um uma sensação de evolução marcadamente atravessada por rupturas e novas relações, contudo, de maneira não contínua.
A partir do entendimento de Simondon (1989 [1958]) chama-se atenção para o fato de que um objeto técnico concreto está sempre inserto e relacionado a uma
17 Traduziu-se de: “[...] car líndividualité des objets techniques se modifie au cours de la genèse.”
18 Traduziu-se de: “[…] celui de la convergence des fonctions dans une unité structurale […].”
determinada cultura, que lhe atribuirá valores e significados. Assim, importa estabelecer que o uso de um determinado objeto pode gerar inúmeras consequências.
O objeto técnico apreciado e conhecido segundo a sua essência, isto é, segundo o ato humano de invenção que o fundou, penetrado de inteligibilidade funcional, valorizado segundo as suas normas internas, traz consigo uma informação pura. (SIMONDON, 1989 [1958], p. 247)19.
No caso dos condomínios horizontais fechados, as consequências que importam para esta pesquisa são, principalmente, as normas que são demandadas para a sua regularização; e a compreensão das práticas espaciais que se relacionam com a implementação deste fenômeno nos territórios de Capão da Canoa e de Xangri-Lá.
Mas para além desses efeitos mencionados, os condomínios deixam de ser um mero local residencial, para ser um objeto que está associado a poder, status, destaque e significado de realização pessoal.
Por outro lado, Boaventura de Sousa Santos (2009, p. 37) elenca o fascismo social para expressar um modo de apartheid social que isola, é segregacionista e impõe “uma cartografia urbana dividida em zonas selvagens e zonas civilizadas.”
Assim como para Rodrigues (2013), o entendimento assumido para o presente estudo é o de que a segregação, o isolamento é baseado na propriedade da terra e nos tipos edificados existentes, pensados para aumentar a renda, os lucros e os juros.
Rodrigues (2013, p. 161) assevera que existem zonas selvagens e zonas civilizadas.
As zonas civilizadas seriam os condomínios horizontais fechados, nas quais residem
“os que estão constantemente ameaçados e para se defenderem criam (incorporação imobiliária) e usufruem (compradores/moradores) de enclaves, que contam com áreas verdes, equipamentos coletivos, limpeza, [...].”
Nessa relação contraditória de apropriação e exploração do espaço urbano, Antas Júnior (2005, p. 221) chama atenção para o fato de que
É evidente que a produção de objetos técnicos mais complexos e tendentes à perfeição busca aprimorar os usos em vez de inová-los ou revolucioná-los.
Como o fim a que se destinam tais objetos é mais um dado da política que da técnica, isso sói significar que são dotados de potenciais capazes de revolucionar a sucessão repetitiva dos eventos. São as normas jurídicas que asseguram os usos contínuos dos objetos técnicos, isto é, a repetição constante dos eventos para assegurar a constância das instâncias de poder.
19 Traduziu-se de: “L´objet technique apprécié et connu selon son essence, c´est-à-dire selon l´acte humain d´invention qui l´a fondé, pénétré d´intelligibitilité fonctionelle, valorisé selon ses normes internes, apporte avec lui une information pure.”
A manutenção de determinadas instâncias de poder, no caso dos condomínios horizontais fechados, está associada à discussão em torno da desqualificação dos espaços públicos. A incidência deste tipo de empreendimento imobiliário modifica a relação contida entre a rua e a casa, entre o espaço público e o espaço privado, entre o que é acessível a todos e o que é limitado a alguns que vivem em espaços intramuros.
Padua (2015) insiste para entender os novos produtos imobiliários como representação da vida urbana degradada, eles apresentam-se como solução para todos os problemas do cotidiano, existentes na cidade. O autor também resgata a ideia de que a urbanização forçada por estes empreendimentos imobiliários é baseada na contradição entre espaço público e espaço privado, assim, o bairro seria a mediação.
No espaço urbano, são necessárias mediações entre o espaço público e o espaço privado. Na urbanização contemporânea, essas mediações são subvertidas para a realização de uma programação e de um controle da vida, promovida por uma sociabilidade de lugares fechados homogêneos, cuja mediação entre a esfera do público e do privado são os espaços “comuns”
dos condomínios (ou das academias, hipermercados, shoppings, escolas etc.), que também são estritamente controlados. A separação entre o espaço público e o espaço privado revela uma degradação do espaço urbano, pois o espaço público próximo à moradia, espaço de mediação entre o público e o privado é essencial para a vida humana. (PADUA, 2015, p. 154).
No centro desta discussão entende-se que o espaço geográfico é fonte material e não-formal do direito e que as políticas de produção e reprodução do espaço urbano implicam a produção de normas que influenciam a sociedade como um todo. As decisões são, indubitavelmente ações humanas, as políticas territoriais são, portanto, a implantação de objetos e de sistemas técnicos. Essa indissociabilidade a que refere Milton Santos (1996) e Ricardo Mendes Antas Júnior (2005) é que respalda a proposição de que os condomínios horizontais fechados são objetos presentes no território e mais, além de demandarem regulações, eles também as produzem. Como exemplo pode-se citar as convenções condominiais que regulamentam o convívio no interior dos empreendimentos imobiliários.
Sintetizando, compreende-se o condomínio horizontal fechado também como um objeto e mais, como um objeto que se apresenta enquanto fonte normativa. A partir da ampliação dos objetos, ampliam-se também as ações. A partir da definição do espaço como um conjunto indissociável de sistemas de objetos e de sistemas de
ações, tal como propôs Santos (1996), pode-se deduzir, de acordo com Silveira (1997, p. 38), que
a produção de objetos perfeitos e sua localização seletiva associam-se a um sistema de ações que, por sua vez, se torna mais exato e pragmático.
Cristalizadas em estruturas de diversa natureza, algumas dessas ações tornam-se princípios para outras, aperfeiçoam e completam o modo de usar os objetos e, permitem-nos, assim, reconhecer normas.
As normas jurídicas constituem-se enquanto instrumentos de mediação e legitimação de poder, traduzindo as relações de classe em determinado território.
Nesse sentido, Thompsom (1987, p. 354) diz que
Se a lei é manifestadamente parcial e injusta, não vai mascarar nada, legitimar nada, contribuir em nada para a hegemonia de classe alguma. A condição prévia essencial para a eficácia da lei, em sua função ideológica, é a de que mostre uma independência frente a manipulações flagrantes e pareça ser justa. (THOMPSON, 1987 p. 354).
“O tempo se dá pelos homens. O tempo concreto dos homens é a temporalização prática, movimento do Mundo dentro de cada qual e, por isso, interpretação particular do Tempo por cada grupo, classe social, cada indivíduo”
(SANTOS, 1994, p. 83). Ao analisar-se as dinâmicas de produção e do uso de uma específica porção territorial, percebe-se que a partir de 1990, houve um crescimento no movimento forense, “relacionado à expansão e à intensificação do meio técnico-científico-informacional na formação socioespacial brasileira.” (ANTAS JÚNIOR, 2005, p. 46).
Da interação entre objetos e ações derivam tipos de normas que podem ser agrupados do seguinte modo: [...] A. Normas derivadas de objetos técnicos, ou de um conjunto de objetos técnicos, regendo as ações involuntariamente;
[...] B. Normas que partem das ações sobre o uso dos objetos em função de uma necessidade socialmente aceita; [...] Esses dois tipos de norma têm a característica comum de serem cumpridas espontaneamente. [...] C. Normas que limitam as possibilidades de uso derivadas de um objeto ou sistema técnico em diversas direções ou vetores. A norma surge aqui para validar apenas uma ou algumas dessas possibilidades, seja em função da vontade de uma maioria, seja em benefício de um pequeno grupo que dispõe de meios coativos para legitimá-la. Este é o tipo de norma, em geral, que corresponde à norma jurídica. (ANTAS JÚNIOR, 2005, p. 73-74).
Nesse sentido, importa superar-se a ideia de que o Estado monopoliza a produção do direito e, por consequência, a elaboração de normas jurídicas. Diante da atual configuração territorial brasileira, existem regras elaboradas pelo Estado, mas também pelas corporações, pelos grupos organizados do tráfico de entorpecentes, grupos religiosos, movimentos sociais. A regulação do território é híbrida, porquanto
vários agentes sociais interferem nesta regulação. Estes agentes produzem normas jurídicas, além de somente exercer pressão. O território brasileiro, assim como outros territórios, é regulado de maneira híbrida, porquanto os agentes sociais mencionados e outras organizações intervêm em todo o espaço geográfico, não importando as fronteiras nacionais. Outro ponto importante é que, com a pulverização das tecnologias da informação, bem como do seu uso, restou facilitada a ação de grandes agentes hegemônicos (ANTAS JÚNIOR, 2005).
Assim, o desenvolvimento do setor imobiliário em Capão da Canoa e em Xangri-Lá se apresenta como de maneira paradigmática na inter-relação entre as searas do direito e do espaço geográfico, do território, e sua análise contribui para explicitar algumas das características atuais da regulação exercida no território, especificamente dos municípios em análise e que, de alguma forma, se repete em outros espaços.
Cada um de nós está se tornando peça-chave na regulação local, nacional e planetária. Talvez ainda não estejamos suficientemente cientes disso.
Permitimos guerras, explorações escravistas da força de trabalho (muitas vezes pelas corporações), destruições em massa dos recursos naturais etc., em detrimento de milhões de pessoas que não podem esperar que esta crise de regulação social passe para que sejam levados em conta. O processo de mundialização/mundanização não ocorre malgrado nosso desinteresse.
(ANTAS JÚNIOR, 2005, p. 281).
Para Siebert (2017), o território deveria apresentar-se como norma e, ao mesmo tempo, as normas deveriam atender as configurações territoriais. Mas, igualmente se a regulação é de difícil compreensão, isso se deve à complexificação da organização territorial hodierna. “E isto se deve à justaposição e à articulação entre o internacional, o global e o mundial. Essas três realidades não são excludentes, embora por vezes sejam conflitantes.” (ANTAS JÚNIOR, 2005, p. 273).
É a partir, então, do estabelecimento de categorias conceituais e entendendo que o território é a principal delas, que o próximo capítulo aborda a contextualização histórica dos municípios estudados, destacando-se como ocorreu o processo de implementação dos condomínios horizontais fechados nos municípios em Xangri-Lá e Capão da Canoa.
Para tanto, considera-se a norma para além do que o positivismo jurídico trata, isto é, a norma é oriunda de um processo social, que é marcado pela recorrência de determinado acontecimento social. E a sua produção não se dá de forma neutra, ela é atravessada por discursos e relações de poder, que impregnam a norma de ordem
técnica, também de caráter político, já que ela irradia sobre outras relações.
Exemplificando citam-se as normas internas criadas nos condomínios horizontais fechados, elas influenciam o seu entorno também, quando fixam horários para execução de obras, por exemplo, já que a entrada e saída de trabalhadores será condicionada, sua ação atinge o universo geográfico no qual encontra-se inserido (SANTOS, 1996).
A partir deste entendimento, tem-se que a norma encontra no espaço geográfico e no território usado, uma fonte. A partir deles são demandados regramentos e por tal razão o território é fonte não-formal do direito, que demanda normas que regulamentam os condomínios horizontais fechados, por exemplo, objetos técnicos produzidos pela sociedade no contexto que marca a urbanização brasileira e mundial, sendo resultado da estratégia de reprodução do capital imobiliário. Os condomínios
A partir deste entendimento, tem-se que a norma encontra no espaço geográfico e no território usado, uma fonte. A partir deles são demandados regramentos e por tal razão o território é fonte não-formal do direito, que demanda normas que regulamentam os condomínios horizontais fechados, por exemplo, objetos técnicos produzidos pela sociedade no contexto que marca a urbanização brasileira e mundial, sendo resultado da estratégia de reprodução do capital imobiliário. Os condomínios