CAPÍTULO I – RESPONSABILIDADE CIVIL
1.5 Responsabilidade Civil Subjetiva
1.5.1 Conduta Culposa
O estudo da culpa também é de grande importância para o tema da responsabilidade civil, especialmente no caso em estudo, ou seja, nos casos de acidentes decorrentes do trabalho ou a ele ligados.
Como dito alhures, para os defensores da responsabilidade objetiva, especialmente para os adeptos da teoria do risco, não há necessidade de demonstração da culpa para a responsabilização do tomador dos serviços, bastando demonstração da prestação do serviço pelo trabalhador e a ocorrência do acidente.
Diversamente do conceito doloso, onde há a presença da má fé ou pelo menos, o agente assume o risco do resultado diverso do pretendido no caso de dolo eventual, a culpa é configurada quando o agente não quer produzir o resultado danoso a outrem, mas este ocorre por negligência, imprudência ou imperícia.
Ao conceituar a culpa Stoco (2007, p. 130) define:
A culpa em sentido estrito, entretanto, traduz o comportamento equivocado da pessoa, despida da intenção de lesar ou de violar direito, mas da qual se poderia exigir comportamento diverso, posto que erro inescusável ou sem justificativa plausível e evitável para o homo medius.
No comportamento culposo, o tomador dos serviços não deseja o resultado em desfavor do trabalhador, destarte, por não tomar conduta de cuidado e diligência, acaba provocando o acidente ou deixando que o mesmo ocorra, ou ainda, deixa o trabalhador ser acometido de doença ocupacional pela falta de implantação de procedimentos para evitar infortúnios.
O núcleo da culpa está apoiado na pilastra da obrigação do tomador do serviço, que tem o dever geral de cautela ou de agir de modo a não lesar ninguém.
Savatier apud Dias (1994, p. 110) define:
A culpa (faute) é a inexecução de um dever que o agente podia conhecer e observar. Se efetivamente o conhecia e deliberadamente o violou, ocorre o delito civil ou, em matéria de contrato, o dolo contratual. Se a violação do dever,
podendo ser conhecida e evitada, é involuntária, constitui a culpa simples, chamada, fora da matéria contratual, de quase-delito.
O mesmo autor Aguiar Dias (1995, p. 120) ainda conceitua:
a culpa é a falta de diligência na observância da norma de conduta, isto é, o desprezo, por parte do agente, do esforço necessário para observá-la, com resultado, não objetivado, mas previsível, desde que o agente se detivesse na consideração das consequências eventuais da atitude.
De outra banda, o Desembargador paulista Rui Stoco (2004, p. 132), assim conceitua a culpa:
A culpa pode empenhar ação ou omissão e revela-se através:
da imprudência (comportamento açodado, precipitado, apressado, exagerado ou excessivo); da negligência (quando o agente se omite, deixa de agir quando deveria fazê-lo e deixa de observar regras subministradas pelo bom senso, que recomendam cuidado, atenção e zelo); e da imperícia (a atuação profissional sem o necessário conhecimento técnico ou científico que desqualifica o resultado e conduz ao dano).
O Código Civil de 2002 trouxe de forma sucinta a ideia de culpa no artigo 186 in verbis: “Art. 186. Aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência ou imprudência, violar direito e causar dano a outrem, ainda que exclusivamente moral, comete ato ilícito.”
Segundo o antigo Código Civil, a culpa está pautada na ação ou omissão de forma voluntária mediante negligência, imprudência ou imperícia do agente.
A culpa pode também ser conceituada na forma sintetizada por Gonçalves (2007, p. 11):
A conduta imprudente consiste em agir o sujeito sem as cautelas necessárias, com açodamento e arrojo, e implica sempre pequena consideração pelos interesses alheios. A negligência é a falta de atenção, a ausência de reflexão necessária, uma espécie de preguiça psíquica, em virtude da qual deixa o agente de prever o resultado que podia e devia ser previsto. A imperícia consiste sobretudo na inaptidão técnica, na ausência de conhecimentos para a prática de um ato, ou omissão de providência que se fazia necessária; é, em suma, a culpa profissional.
O tomador dos serviços tem a obrigação de adotar diligências para evitar acidentes e doenças relacionadas ao trabalho, implementando medidas de proteção à integridade física e psíquica do trabalhador, devendo antever as situações e hipóteses razoáveis previsíveis de danos ou ofensas à saúde do trabalhador.
A culpa será aferida diante das circunstâncias que circundam o caso em específico, sopesando se o tomador do serviço poderia ou deveria ter adotado outra conduta que poderia ter evitado a doença ou acidente relacionado ao trabalho.
Assim, o descuido ou negligência do tomador do serviço com relação à segurança, saúde do trabalhador e higiene pode caracterizar culpa no acidente ou doença ocupacional e gerar com isso, direito à indenização para a vítima ou sua família, se for caso de lesão corporal ou morte do trabalhador.
É de bom alvitre lembrar que o dever geral de cautela tem maior relevância e peso nas ações envolvendo acidente do trabalho, quando a atividade exercida for preponderantemente de exposição a riscos ao trabalhador, o que obriga medidas preventivas em prol do trabalhador.
Destarte, o que se defende no presente estudo é a dispensa de prova da culpa para responsabilização do tomador dos serviços, não se verificando o grau de culpa para responsabilizar o tomador dos serviços do trabalhador, já que constitui dever de cuidado, diminuir os riscos inerentes à atividade e o ônus deve ser do responsável pelo capital.
Por isso, o grau de culpa do empregador ou tomador dos serviços no acidente do trabalho, não impede o direito à indenização em favor do trabalhador acidentado ou sua família, em caso de lesão corporal ou morte respectivamente.
Para muitos, o artigo 7º inciso XXVIII da Constituição Federal exige a presença do requisito dolo ou culpa sem verificação do grau de culpa, seja ela por ação ou mesmo por omissão, conforme anteriormente previa a Súmula 229 do Supremo Tribunal Federal.
Vejamos o mencionado artigo 7º inciso XXVIII da Constituição Federal de 1988:
Art. 7º São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que visem à melhoria de sua condição social:
[...]
XXVIII – seguro contra acidentes de trabalho, a cargo do empregador, sem excluir a indenização a que este está obrigado, quando incorrer em dolo ou culpa;
[...]
Depois, a culpa passa a ser considerada como elemento coadjuvante no processo indenizatório, ganhando contornos, especialmente após a edição da Emenda Constitucional n. 45/2004 e Código Civil de 2002, que inseriu o artigo 927, sendo que grande parte da doutrina e jurisprudência passou a se basear no referido artigo 927 do Código Civil para responsabilizar de forma objetiva.
Importante lembrar que antes da edição da Emenda Constitucional n.
45/2004 e Código Civil de 2002, autores de renome defendiam a responsabilidade objetiva como forma de solucionar os litígios que envolvessem infortúnio do trabalho.