• Nenhum resultado encontrado

Condutas sociais: situadas, interativas e padronizadas

No documento Priscila Pereira Faria Vieira (páginas 50-55)

1. A construção teórico-metodológica da situação de procura. A experiência social e as situações

1.3. Condutas sociais: situadas, interativas e padronizadas

Para os autores mobilizados nessa análise, as condutas sociais são conjuntos de práticas desenvolvidos por diferentes tipos de atores em diferentes situações sociais. Assim, as condutas sociais são situadas, segundo Mead, Strauss e Goffman, e construídas pelos diferentes atores no curso da interação, como disse Blumer (1969). Diferentes conjuntos de práticas são esperados de diferentes atores em situações específicas. Ou seja, há uma expectativa social de que certos personagens, em determinadas situações, desempenhem condutas sociais específicas. Essas são constituídas por conjuntos de práticas peculiares, que englobam ações, gestos, discursos, componentes visuais e estéticos. Está implícita na idéia de conduta uma padronização de comportamentos que responde às expectativas sociais, baseadas em representações sociais, referentes ao papel desempenhado e à situação na qual ela transcorre. Porém, para esses autores, essa padronização coexiste com a re-interpretação dos códigos de conduta por parte dos atores durante a interação. Nisso radica a riqueza dessa abordagem e a complexidade da pesquisa empírica por ela norteada.

Assim, há uma noção proposta por Mead que se tornou fundamental nesse debate e também para essa pesquisa, que é a noção de “atitudes sociais generalizadas”27. As atitudes sociais generalizadas são séries de comportamentos institucionalizados, os quais representam respostas padronizadas e práticas comuns em situações particulares (Mead, 1952, pp. 262, 263). Cada situação pode ter um conjunto de atitudes sociais generalizadas típicas, as quais se esperam dos atores e às quais os atores tendem a desempenhar. Fica claro que, ao tratar disso, ele chega à noção de

“condutas sociais”.

Mas, se Mead ressalta as formas organizadas e padronizadas de ação que variam de acordo com as situações, ele também explora também a capacidade humana de criação de formas alternativas de ação e de variações. Estas, entretanto, se encaixam em um conjunto de reações esperadas para cada situação, pois há sempre um espaço para re-interepretação e re-elaboração das regras sociais. Para essa pesquisa foi fundamental reter das idéias de Mead a noção de “atitudes sociais generalizadas”. Assim, é possível observar essa padronização de comportamentos e respostas na situação de procura de trabalho, o que será desenvolvido no curso dos capítulos empíricos. Essa foi uma questão especialmente investigada para um tipo de ator da situação estudada, o demandante de trabalho. Mas, igualmente relevante, como se verá adiante, foi reter a sua idéia de que existiria uma dimensão criativa e flexível da construção das condutas sociais, tanto quanto seguir as pistas da sua proposta de análise das interações sociais através dos gestos e da comunicação.

Com efeito, na abordagem de Strauss, assim como na de Mead, a linguagem assume papel fundamental na análise das condutas sociais e, consequentemente, na análise dos “mundos sociais”.

Através de nomeações, classificações e linguagens compartilhadas pelos grupos é que se dá o constante processo de formação de coletividades e identidades, que se expressam em condutas.

Goffman, ao tomar a situação como unidade, não trata do indivíduo ou personagem, mas da figuração e da performance, pois a reputação social não se aloja no interior nem na superfície do indivíduo, mas no curso da interação. Ao tratar de performance e reputação, Goffman também trata das condutas sociais. Na construção da performance para Goffman entram igualmente os gestos e os modos de agir. Na procura de trabalho os gestos e os modos de agir, ou seja, a própria figuração e performance, são determinantes do resultado do processo. De fato, e como veremos adiante, não basta procurar, o demandante precisa convencer os outros atores envolvidos na procura de que é um bom candidato; essa questão será tratada em detalhe.

27 Para mais detalhes sobre esse conceito e a discussão gerada por ele ver: Alexander,1987; Becker & McCall, 1990;

Collins, 1994; Haguette, 1987 e Mead, 1952.

A tentativa de tratar das condutas sociais fica ainda mais explícita no conceito de

“representações coletivas” de Goffman, a partir do qual o autor trata de padrões de ação e atuação.

Apesar da possibilidade de criar e manipular informações, os indivíduos situados em determinados grupos têm às vezes, Goffman diz, permissão ou obrigação a manter uma mesma “fachada social”, ou seja, um mesmo tipo de comportamento. São as condutas socialmente institucionalizadas, em torno das quais há estereótipos ou conjuntos de expectativas estáveis. Aos papéis sociais correspondem determinadas representações coletivas ou idealizadas e a cada representação corresponde um conjunto de práticas sociais. Isso também como ocorre na situação investigada; a representação do “bom candidato”, que é construída a partir de um conjunto de práticas, é um dos exemplos de conduta social que se tentou compreender. As práticas sociais seguiriam padrões de ação pré-estabelecidos para tipos de papel social ou para situações sociais específicas; essas tendem a ser reproduzidas com alguma uniformidade e freqüência, funcionando como uma espécie de

“atalho” no constante processo de construção de performances sociais. Para que essas representações idealizadas sejam adequadamente desempenhadas, é, muitas vezes, preciso que os indivíduos abandonem ou escondam ações e emoções que sejam incompatíveis com as condutas que devem ser desempenhadas. Assim, apenas mediante conhecimento dos códigos da conduta e da disciplina social é que se pode representar um personagem por um período longo de tempo, nos termos de Goffman.

Inspirando-nos nessas noções, tentamos captar, ao longo da pesquisa de campo, as condutas sociais de cada um dos tipos de atores envolvidos na situação de procura de trabalho estudada, a partir do conjunto de práticas, ações, gestos e códigos que lhes são característicos, conferindo maior destaque para as condutas sociais dos demandantes de trabalho. Isso, levando em conta que: i) as condutas sociais são interativas e situadas, respondendo à dinâmica interna daquela situação, ii) mas são também padronizadas, respondendo às expectativas pautadas em representações sociais referentes àquela situação e àquele papel social e que iii) tais representações sociais, no entanto, extrapolam os limites daquela situação social específica, pois são construídas e disseminadas em outras dimensões sociais.

Na configuração da situação de procura estudada foram tomados em conta os seguintes elementos:

i) o espaço (encarnado de usos e apropriações sociais),

ii) os atores (com suas características e interações entre si e com o espaço) e

iii) as condutas sociais (desempenhadas pelos atores e condicionadas pelo espaço - e pelos usos que dele se faz -, pela interação com os demais atores e pautadas por representações sociais)

De acordo com a argumentação acima, é impossível pensar:

i) Espaço sem atores ou sem apropriações e práticas sociais específicas

ii) Atores sem espaço para situar suas condutas sociais ou atores sem condutas sociais situadas iii) Condutas sociais desenraizadas dos espaços em que são encenadas ou condutas sociais desencarnadas de seus atores e das interações em que eles estão imersos

Desse modo, através do estudo de uma situação concreta de procura de trabalho, busca-se entender um pouco mais sobre a vivência cotidiana da procura, tal como ela é construída in loco e ao longo da própria atividade de procura, o que possibilita desvendar as relações, processos e códigos que ali tomam lugar. Ou seja, trabalhamos com uma noção de “vivência situada” tentando apreender, em primeiro lugar a própria situação, sem, contudo, desconsiderar que ela é parte de uma vivência social e subjetiva mais ampla, a saber, a experiência da procura de trabalho. Parte-se do pressuposto de que uma investigação sobre a “vivência situada” da procura de trabalho poderia captar, com mais facilidade e espontaneidade, discursos dos demandantes sobre os elementos sociais e subjetivos que estão envolvidos nessa atividade. Com isso, poder-se-ia entender, a partir de uma situação de procura específica, parte da experiência social da procura de trabalho, composta por um repertório de diversas situações sociais.

2 A construção do trabalho de campo na situação de procura:

processo e procedimentos

A construção da etnografia, a escolha dos procedimentos metodológicos e as decisões mais práticas e operacionais do trabalho de campo tiveram como base as orientações teórico-metodológicas depreendidas dos autores antes apresentados. Descrever o processo de realização do trabalho de campo e de construção da etnografia será, então, o próximo passo. Problematizar-se-á, a seguir, tanto o que foi realizado, em quais situações e a partir de quais procedimentos, como o que não foi possível realizar e por quais razões. Assim fazendo, podemos explicitar como essas noções e conceitos foram mobilizados seja nas decisões metodológicas, seja no processo de construção da análise que será apresentada nos capítulos seguintes.

Fiel à inspiração interacionista, a pesquisa teve a intenção de se aproximar ao máximo do

“mundo empírico”, captando a vivência prática e cotidiana da procura de trabalho, através de uma situação social de procura e recobrindo os vários elementos que a compõem, a saber: espaço,

instituições, atores, condutas, práticas e discursos. Tenta-se realizar esse empreendimento através da proposta metodológica da proposta de ir ao “mundo empírico”, nos termos de Blumer, e com a disposição distinta de um “outsider”, buscar a análise da ação através da observação da “vida real”, tal como defende Strauss, ou do “cotidiano”, como na terminologia de Goffman. Justamente por isso a observação participante foi escolhida como estratégia metodológica de inserção naquela situação e de coleta de informações e discursos. Para captar a construção da situação social e todos os fatores que a determinam optou-se, a princípio, pela observação participante28 Tal escolha estava em consonância com o desejo de não apenas observar de perto, mas de “perto e de dentro” (Magnani, 1996), de modo a buscar fazer uma verdadeira etnografia, mesmo ali onde o campo é a cidade. Esse tipo de etnografia urbana pretende buscar os padrões e regularidades das práticas sociais e do comportamento dos conjuntos de atores em espaços da cidade. A idéia é tentar apreender, descrever e analisar certos aspectos urbanos (principalmente relações construídas no dia-a-dia) difíceis de serem capturados nos enfoques metodológicos que abordam o empírico de fora e de longe. Porém, esse tipo de olhar não impede o pesquisador de articular a especificidade do seu objeto com outras questões para compreender fenômenos sociais mais abrangentes.

Se a escolha da observação participante pode (como de resto qualquer escolha) deixar lacunas, ela oferece, por outro lado, maior densidade às informações colhidas sobre as práticas e condutas, além de prover melhor apropriação para as questões relativas ao espaço vis-à-vis o que se obteria usando apenas a técnica das entrevistas convencionais, por exemplo. Claro está que a observação não descarta as conversas e as entrevistas, que também foram sistematicamente realizadas, mas, faz com que estas sejam ditadas pelos acontecimentos ou pela dinâmica de interação próprios da situação investigada. As interações sociais na situação de procura de trabalho foram primeiramente observadas, em um segundo momento elas foram temas-alvo de conversas informais com os atores daquela situação e em um terceiro momento foram detalhadamente questionadas em entrevistas com os atores que se mostraram mais relevantes ao delineamento da mesma situação.

Isto posto, passa-se a uma descrição do trabalho de campo, o qual se realizou em três fases diferentes. Essas três fases tinham objetivos diferentes, se realizaram a partir de engajamentos também distintos e fazendo uso de procedimentos diferenciados. Na seqüência apresentamos cada uma dessas fases do trabalho de campo, tentando evidenciar as decisões práticas que o construíram.

28 A atualização da noção de observação participante para o estudo de grupos ou situações sociais das sociedades contemporâneas não exige uma imersão ou isolamento, mas um contato o mais próximo possível com a realidade que se pretende estudar, atentando para o fato de que, contudo, como pesquisador, o objetivo não é misturar-se ou confundir-se

Em alguma medida, faz-se também o exercício de reflexão sobre a construção desse processo, tentando captar o impacto que as características da situação investigada tiveram sobre ele. Convém registrar que, como soe acontecer num trabalho acadêmico, e para proteger as fontes, todos os nomes dos informantes são fictícios.

No documento Priscila Pereira Faria Vieira (páginas 50-55)