3.4 Interação sociocultural
3.4.1 Conexões conflituosas causadas pelo celular
O uso excessivo do smartphone corrobora, muitas vezes, para o desenvolvimento de relações conflituosas, percebidas nesta pesquisa, principalmente, na esfera familiar. A jovem Caroline, por exemplo, relatou já ter tentado a conexão do smartphone em todos os pontos de sua residência e em apenas um conseguiu acesso: “Aqui em casa eu uso bem na beirinha da minha cama, é o único lugar que pega o celular. Fico todo o tempo nesse lugar pra pegar”. Ao ser perguntada sobre o que os pais acham dessa prática, a jovem afirmou que reclamam bastante, pedindo para que ela saia do lugar e pare de usar o aparelho.
Essa relação geracional conflituosa também pôde ser notada no depoimento de Tainara. A jovem, de 15 anos, é irmã de Taís, de 17 anos, e contou que a mãe, Dona Soldalice, não aprovava o seu relacionamento amoroso, proibindo-a de manter contato com o namorado. Quando descobriu que a jovem ainda conversava com ele, confiscou o celular e não devolveu mais. Mas, Tainara conseguiu um aparelho emprestado e continuou falando com o namorado pelo celular. Em uma conversa informal, na residência de Dona Soldalice, foi possível observar o caráter negativo conferido ao aparelho:
Eu nem queria que elas tivessem esse negócio de celular, aí o pai delas disse que ia dar. Quando eu peguei o celular, ela [Tainara] ficou doida, ela estava triste, chorando, aí o pai dela é que deu. Às vezes, tem muita coisa que isso daí traz que, pra mim, não é tudo de bom. Tem pessoas que usam e sabem usar, pra não deixar nada acontecer. Ele [o celular] é importante pra fazer trabalho do colégio, mas tem muita coisa que... não é certo. Ela fica muito no celular, eu tenho que ficar falando... E a Taís está esperando filho, é muito complicado, muito mesmo pra gente que é mãe. Porque é assim, a gente tenta dar uma coisa pro filho da gente, mas é pra pessoa fazer uma coisa que dê futuro, não uma coisa que não dê futuro. Ó essa aí, tá grávida, aí tu acha que isso, pra mim, é futuro?
No momento da entrevista com as irmãs Taís e Tainara, a relação delas com a mãe estava marcada por uma tensão, pois Taís havia descoberto, há poucos dias, que estava grávida. Dona Soldalice sugeriu que, sem a possibilidade de conversar pelo celular, a filha não teria um maior envolvimento com o namorado, que reside em Belém e, consequentemente, não teria engravidado. No final do ano de 2015, em uma das visitas realizadas à Murutucu, Rayane, que é prima das jovens Taís e Tainara, relatou que Tainara também estava grávida de seu namorado. A entrevistada Evelyn também relatou que a mãe já confiscou seu celular, que é chamado pela jovem de “filho”, tamanha a sua ligação afetiva com o aparelho: “Ela pegou meu celular e disse que eu estava mexendo muito, porque eu tinha ganhado meu celular recentemente, e eu só queria estar com ele. De vez em quando, ela diz que vai pegar meu celular e jogar no meio do rio, aí eu falo: ‘Ah não! Meu filho!’ e faço o que ela está pedindo”.
Nos depoimentos colhidos junto aos entrevistados, percebemos que, por vezes, a necessidade de usar o aparelho se sobrepõe às necessidades básicas, como a alimentação, conforme acompanhamos no depoimento da entrevistada Jéssica. A jovem contou que, no período em que estava trabalhando como secretária em uma loja de Belém, costumava permanecer nos finais de semana em Murutucu e passava os dias da semana na casa que a família possui no Porto da Palha, pois facilitava o seu deslocamento ao trabalho. “Quando eu estava lá em Belém, eu estava bem magrinha, porque eu passava o dia no celular e esquecia de comer, esquecia de me alimentar, aí ela [a mãe de Jéssica] pegava no meu pé. Em Murutucu ela não briga, porque não dá área”, relatou.
Cléo, irmã de Jéssica, comentou o uso excessivo do celular pela irmã:
Ela é viciada no Whatsapp, aí a mamãe é obrigada a estar brigando com ela, pra ela ir se alimentar. Era só no celular direto, direto, direto mesmo, sabe o que é direto? Viciada... aí a mamãe brigava com ela porque ela passava o dia inteiro no celular, não procurava o que fazer, não se alimentava, estava ficando seca, agora é que ela tá mais ou menos porque a gente tá aqui [em Murutucu] e a área é muito ruim, mas quando a gente vai pra Belém, ela só chega da faculdade, se joga na rede e fica lá... Olha, ela vai almoçar, às vezes, duas horas da tarde.
A entrevistada Joice, por sua vez, relatou que não permite que o celular atrapalhe as atividades de sua rotina, mas apontou que o irmão, Daniel, não impõe limites ao uso do aparelho, o que faz com que a mãe, Dona Janice, chame a sua atenção constantemente. Joice comentou um fato que é alvo de discussão entre mãe e filho: quando Daniel está conduzindo alguém de rabeta, às vezes, manuseia o celular e se distrai, o que acarreta riscos tão graves
quanto o uso do celular ao volante de carros. A jovem contou um episódio que ocorreu devido à mistura perigosa entre celular e a direção: “Quando ele está levando alguém na rabeta, fica usando o celular, não olha pra frente. A gente tem que ficar gritando: ‘Olha pra frente!’. Teve um dia que ele ficou com medo, porque ele ia passando por cima de um povo que estava remando naqueles caiaques”.
Durante conversa informal realizada com Dona Janice, em sua residência, ela apontou que, às vezes, também fica chateada com Daniel, pois o filho não costuma fazer as tarefas do cotidiano que ela solicita: “Eu digo: ‘Olha, meu filho, vai fazer tal coisa, aí ele fica... demora pra fazer as coisas porque tem que olhar o celular, aí eu fico aborrecida com ele por causa disso”, destacou. Percebemos que o ambiente vivido pelos jovens exige que eles estejam inseridos em atividades rotineiras, como manutenção da área de colheita do açaí, extração do fruto, principalmente no caso dos meninos; e, com relação às meninas, limpeza da residência e preparo das refeições. Os pais também costumam solicitar que os filhos os acompanhem nas idas a Belém, para compras de mantimentos. Esses hábitos cotidianos, por vezes, são alterados devido ao uso do celular, que atrai a atenção dos jovens em boa parte do dia.
Outro fator de desentendimento entre mãe e filho tem relação com o uso da Internet. Dona Janice afirmou que é adepta do whatsapp e interage com a família por meio de um grupo no aplicativo. Quando não está com crédito no celular e, consequentemente, não tem acesso à Internet, pede que Daniel ligue o roteador de seu aparelho, para que possa compartilhar a rede com a mãe, mas ele não atende à solicitação, para que a velocidade da sua conexão não seja reduzida: “Às vezes, ninguém tem crédito, aí ele não quer ligar a Internet dele. Eu não gosto, porque tenho grupo no whatsapp, aí, às vezes, quero falar alguma coisa, um boa tarde, boa noite”.
Alguns dos jovens também comentaram que o uso do celular alterou o rendimento escolar. É o caso de Evanilson. Ele afirmou que o aparelho interferiu nos estudos, pois passou a tirar notas baixas devido ao seu uso contínuo:
Os meus pais ficam “mordidos” quando tiro nota vermelha e culpam o celular, o papai principalmente, porque ele me vê o tempo todo com o celular. Aí, ele ameaça bater e tirar o celular: “Olha, se tu não passar de ano, eu vou tomar o celular, vou te dar uma surra”. É isso que ele fala.
Dessa forma, percebemos que os pais, muitas vezes, confiscam o smartphone dos filhos como uma medida punitiva. Devido ao fato de os pais não terem vivenciado essa relação íntima com a tecnologia quando eram jovens, observamos que eles não conseguem administrar e
ponderar a relação com o smartphone, para que o aparelho seja utilizado de forma adequada pelos filhos, agindo de maneira extrema ao proibir seu uso.