CAPÍTULO 3 – CONFLUÊNCIAS: NATUREZA, SAGRADO E TRADIÇÃO
3.2 CONEXÕES E CONFLITOS: ENTRE O PASSADO E O PRESENTE
como se observou nas figuras 3.3 e 3.7 viu-se aflorar extenso manguezal (figura 3.8) que vem se adensando ano após ano.
A paisagem festiva anteriormente descrita foi alterada com o crescimento demográfico do bairro pela chegada de novos moradores, pelo potencial turístico ali implementado com a orla, a construção e modernização de casas, de bares e atrativos para a praia que foram, aos poucos, alterando o modus vivendi da localidade.
Na festa de Bom Jesus dos Navegantes, a dimensão profana como as apresentações folclóricas no “cassino”, o parquinho e a feirinha montados na “pracinha”, a corrida de barcos, jogos, bailes, bebidas já não acontecem há décadas. Tais atividades sucumbiram às brumas do tempo, porém permanecem vivas nas lembranças dos mais velhos como já mostrado anteriormente pelos relatos.
Figura 3.8 Assoreamento da Maré do Apicum - 2008 Fonte: Acervo fotográfico de Isabella Corrêa
As bases conflitivas da relação homem-natureza apresentaram-se inicialmente relacionadas às tensões causadas pela degradação da Maré do Apicum que inviabilizou o cortejo fluvial do padroeiro realizado em longa data. O aterramento desse braço de rio, a poluição, as invasões no ecossistema de manguezal foram fatores de pressão à tradição da festa.
Ademais, esses problemas elencados levaram a uma visão depreciativa do manguezal ali florescido considerado pelos moradores como veículo de sujeira do rio pela lama, empecilho ao fluxo das águas e, por conseguinte, da não realização da procissão:
Carregar Bom Jesus era muito bonito antigamente! Não tinha essa lama, não tinha nada, não tinha esses mangues todo pro lado de cá! Era areia e depois começava lama, o mar era fundo, era canoa, era tudo. A gente tomava banho que só aí! Era uma delícia! Hoje em dia, tá a bagaçada que você vê! Não é brincadeira não! C.02
Fizeram promessa, por incrível que pareça o mar afastou e a procissão continuou e até hoje, quer dizer, continua embora por terra! A procissão fluvial acabou por causa das erosões que aterraram o rio, os órgãos públicos não tiveram interesse em desobstruir o rio! Então, hoje não tem mais condição de fazer a procissão fluvial. Mas, é o que vem. A cidade cresceu, junto com o desenvolvimento vem destruição, né. [...] Esse rio aqui era ariado de fora a fora no cais. Hoje, é cheio de lama! C.16
Ah, o rio era maior, cheio, dava pra colocar muitos barcos e agora a maré secou, eu acho que foram as várias construções, invadindo, invadindo.
Inclusive a Coroa do Meio ela foi se expandindo mais, crescendo, aí diminuiu o rio! C.17
Ói, antigamente a festa de Bom Jesus era por água. Hoje, não é mais por água! Não tem água pra puxar! O mangue tá tomando conta da maré toda. Não tem, só tem lama C.12
Convém acrescer que toda tradição tem como característica a invariabilidade de práticas a fim de garantir laços com passado quer seja este real quer seja forjado. Visa à reprodução simbólica dos sentidos, dos significados sendo uma estratégia de consolidação de ideias, valores e projeções (HOBSBAWM, 1984). Desse modo, os elementos que conferiram o caráter de tradicionalidade à festa do Bom Jesus dos Navegantes foram a repetição do ritual da procissão fluvial no mês de janeiro com o cortejo terrestre de volta à igreja, o conhecimento de sua antiguidade, a longevidade de sua devoção situando-a sempre na lembrança dos primeiros tempos e das pessoas que organizavam e mantinham o evento consoante à representação que faziam do meio natural. Dito de outra forma, a tradição foi a base conectiva que reforçou a relação homem-natureza na festa.
A tradição lançou bases à formação de uma relação devocional na Atalaia e, por implicar numa continuidade com o passado, tornou-se a base referencial da localidade. (CANDAU, 2011; DELGADO, 2006) Essa assertiva concebida foi verbalizada pelos fiéis os quais evidenciaram sua afetividade para com a festa, em especial com o rito da procissão sendo o acontecimento mais importante elencado em suas vidas religiosas e na vida do bairro donde a centralidade da fé e do festejo é o seu patrono Bom Jesus dos Navegantes, como se nota nos relatos:
Pra mim é uma tradição melhor que a Atalaia teve. Era a coisa mais falada é a procissão de Bom Jesus, né?[...]. Então pra mim é uma tradição [...] não tinha outra coisa melhor, não tinha outra festa melhor que é a procissão de Bom Jesus. C.01
A tradição daqui dos católicos [...] Era, todo mundo era católico e a festa de Bom Jesus no bairro. C.11
Agora que está tirando, deixou de ser no mar pra poder ser por terra, né. Bom Jesus dos Navegantes sempre foi pelo mar... Agora, tirou pra ser por terra. Muita gente ignorou muito isso […] porque era tradição, né, mulher! Pelo mar e pronto! C.13
Figura 3.9 Procissão terrestre ocorrida em 2008 (Avenida Paulo Barreto) Ao fundo, o marco da Associação dos Pescadores da Atalaia
Fonte: Acervo fotográfico de Isabella Corrêa
[...] a gente já acostumou desde pequenininha, não é? Naquela: vamos para a igreja! Bom Jesus, Bom Jesus! Apesar de que eu amo também Maria. Mas, a gente é mais devoto de Bom Jesus porque foi o primeiro nome que a gente conheceu, Bom Jesus! E a gente via nas procissões, né, sentia a fé do povo, então faz com que a gente vá aprimorando as coisas e vai tendo fé também! C.19
Não obstante, esse mesmo sentimento conduziu a uma reapropriação do espaço festivo em que pese à continuidade da orientação fluvial, embora somente terrestre até o ano de 2010 a procissão seguiu (ida e volta) o mesmo percurso de outrora. O restabelecimento do espaço deve-se ao fato da necessidade que tem o homem religioso de estar imbuído de uma atmosfera sagrada e, portanto, faz a distinção do “[...] espaço sagrado, do não sagrado. Os espaços são demarcados pelo poder da mente de extrapolar muito além do percebido [...] os homens procuram materializar seus sentimentos, imagens e pensamento neles.” (ROSENDHAL, 1996, p.36) Nota-se, inclusive, nas figuras 3.9 e 3.6 (A) donde se alude a temporalidades festivas distintas, que os devotos em acompanhamento ao andor revelam o fator de continuidade dos papéis exercidos na procissão pela permanência dos sujeitos quer seja com o carregamento do andor votivo quer seja pelo pagamento de promessa.
A igreja como espaço festivo também revelou ser outra base constituinte do patrimônio religioso cuja última reforma empreendida se deu no aspecto estrutural entre os anos de 2000 a 2002. A reforma mesmo tendo como justificativa a necessidade de ampliação do templo que já não comportava a crescente demanda das pessoas nos atos religiosos institucionais foi alvo de críticas. Para os moradores alterou significativamente suas “características” postas com muita ênfase nos relatos, sobretudo pela mudança de sua
conformação anterior (ver ANEXO B) cujo altar e portas faziam-se orientadas em direção leste, ou seja, para a Maré do Apicum e para o oceano cujo sentido original, conforme a primeira capela dava-se em honra ao padroeiro:
A igreja era muito bonita. A igreja era virada pra o mar. A frente dela era pra maré. Aí veio uma arquiteta não sei de onde e fez uma igreja redonda que eu nunca vi uma igreja redonda, to vendo essa. [risos] Quer dizer, o padre celebra a missa com as costas pro mar, o que é errado. O santo fica virado pra cá, o santo tem que ser no meu entender, no que eu vi, era para o mar. C.05
Fizeram uma igreja que ainda não vi ninguém dizer que gostou daquela igreja, ninguém! Porque eu sei que senhor Bom Jesus é dono do mar, ele teria que ficar com os braços abertos pro mar, né? Mas, não, é de costas. Fizeram assim uma cruz na parede. Agora, o santo fica na chuva, no sol [...] Tá lá pra quem quiser ver! Não é um absurdo? O bichinho, a sol, sereno, à chuva? C.14
O fator conflitivo pelo qual a tradição apresentou grande sinal de tensão foi a mudança do roteiro terrestre estabelecido em 2011 que não mais se realizou em orientação às águas da Maré do Apicum. Seguia pela avenida até as proximidades do Hotel Atalaia, onde antigamente descia o andor e retornava à Igreja.
Dentre as principais causas elencadas pelos moradores tem-se a chegada do novo pároco e suas inovações, a intervenção da Diocese, a chegada de pessoas de “fora” que vieram morar no bairro e inseriram-se na paróquia sendo “novas” na festa de Bom Jesus dos Navegantes. Estas substituíram as pessoas mais velhas que, naturalmente foram deixando suas atividades na igreja e na festa. Alguns destes eram antigos agentes do evento que por “[...] sua vinculação afetiva e pessoal “aos costumes do lugar”, respondem pelos esforços de preservação dos rituais de maior tradição [...] (BRANDÃO, 1978, p.45)”.
Vale ressaltar que foi um ano crítico na festa pela mudança de pároco posto que o antigo aposentou-se e foi o marco de muitas transformações como a ocorrência de duas festas alusivas ao Bom Jesus dos Navegantes em 2011 (janeiro e novembro) a respeito das mudanças implementadas.
A mudança no percurso terrestre por parte da paróquia deveu-se ao reordenamento geográfico concernente à configuração territorial instituído pela Diocese a qual traçou desde o ano de 200142 uma nova delimitação à Atalaia no tocante ao campo de atuação religiosa:
Hoje, o nosso limite de paróquia vai do restaurante “Miguel” até a Petrobrás. Terminou a Petrobrás, terminou o nosso limite geográfico. [...] Então, essa é a nova circunscrição jurídica da paróquia. [...] O bispo
zelando pelo povo cria novas paróquias. Porque novas paróquias significa um outro padre, uma outra assistência. [...] Então, a assistência é melhor para o benefício do povo de Deus. [...] Isso é uma coisa normal que tem na Igreja. [...]C.04
O desmembramento da extensão paroquial da Atalaia e a consequente alteração do roteiro processional implicaram a supressão de maior parte dos espaços festivos tradicionais, tidos como pontos de referência, lugares de memória religiosa da Festa de Bom Jesus dos Navegantes. Hoje, esses lugares pertencem à circunscrição da Farolândia não sendo mais contemplados pela passagem da Procissão. Os pontos já anteriormente descritos estão situados à rodovia Paulo Barreto, direção norte/centro (percurso de ida) e à Avenida Beira Mar (o antigo percurso de retorno), direção sul até chegar à Igreja, situada à rua Antônio Alves. São eles: margem da Maré do Apicum, Associação dos Pescadores da Atalaia, antigo Farol da Atalaia, povoado Saquinho e Praça Alcebíades Paes.
Figura 3.10. Roteiros da procissão de Bom Jesus dos Navegantes. Fonte: http://maps.google.com.br/maps?hl=pt-BR&q=atalaia,+farolandia
Organização: Rodrigo Lima
A figura 3.10 ilustra os roteiros da festa. O tradicional que ocorreu até 2005, o roteiro de 2006 a 2010 o qual buscou aproximar-se do anterior respeitando a orientação do meio natural (as águas) e os mais recentes- 2011 e 2012- que após o desmembramento da paróquia movem a procissão para o sul percorrendo as ruas em orientação contrária à Maré do Apicum.
As figuras 3.11 e 3.12 ilustram a procissão de 2008, correspondentes ao segundo roteiro ocorrente.
Figura 3.11 Cortejo alusivo a Bom Jesus dos Navegantes em 2008 (Avenida Paulo Barreto) Fonte: Acervo fotográfico de Isabella Corrêa
Figura 3.12 – Procissão terrestre ocorrida em 2008 (Avenida Beira Mar) Fonte: Acervo fotográfico de Isabella Corrêa
A festa de janeiro de 2011 teve como circuito processional a orientação contrária a que antes se fazia compreendendo a Avenida Antônio Alves ponto de saída da Igreja em direção sul: Rua Arício Guimarães Fortes (rua paralela ao terminal de ônibus da Atalaia), Rua Anísio da Silva Tavares, Avenida Melício Machado, Avenida Monteiro Lobato (rua do Cemitério Helena Alves Bandeira) e Rua Luiz Chagas ( onde está a lateral da Igreja, rua de chegada). A figura 3.13 mostra a procissão nesse terceiro roteiro.
Figura 3.13 Procissão terrestre de Bom Jesus dos Navegantes – Jan.2011 Fonte: Pesquisa de Campo, janeiro 2011.
Conforme relatos dos fiéis, essa foi, sobremaneira, a maior mudança da festa, alvo também de críticas entre moradores especialmente os mais antigos, dentre eles, colaboradores e partícipes na Festa de Bom Jesus dos Navegantes ao longo da vida. Coletivamente, a insatisfação foi demonstrada com faixas colocadas em pontos referenciais da festa no Bairro a exemplo da Associação dos Pescadores da Atalaia donde se verifica na figura 3.14 em que se lê: “A Atalaia tem história, aqui não é Farolândia! Exigimos respeito a cultura da nossa comunidade!”
Figura 3.14 – Faixa de protesto na Associação dos Pescadores da Atalaia Fonte: pesquisa de campo,janeiro 2011
No cenário celebrativo de janeiro de 2011 essa manifestação evidenciou explicitamente uma memória ali reivindicada. Foi um ato deveras expressivo que denotou a singularidade da procissão na festa de Bom Jesus dos Navegantes como um bem dos “filhos da Atalaia” C.01, indubitavelmente o seu patrimônio.
Nesta dimensão tanto a faixa como as opiniões expressas pelos relatos em seguida corroboram a necessidade de assegurar “[...] a continuidade de um processo de reprodução, preservando os modos de fazer e o respeito a valores como o do ritual religioso.” (FONSECA, 2009, p.72):
Bom Jesus não é como política! Tá como uma política, não é? Não é não?
Eu acho que Bom Jesus podia ir até onde fosse a festa, podia até o Saquinho ou pra lá do Saquinho, não tinha problema nenhum, né? Também quando tivesse a procissão da Farolândia podia vir pra cá [...] Mas não, tem essa separação![...] Achei isso extremosamente ruim! Achei tanto que nem fui esse ano! C.01
Logo que matou aí tudo, aí esse mangue todo que aterrou a Coroa do Meio com esses esgotos [...], minha fia. Aí encheu tudo de lama como tá vendo, [...]. E aí pronto a procissão foi indo, foi indo, foi indo e agora tá uma tristeza que a nossa alegria aqui todo ano é a festa de Bom Jesus. E agora não está, botaram pra lá, disseram que aqui agora não é mais Atalaia! Aqui agora é Farolândia! Tão comendo a Atalaia! [riso] C.14
Ademais, constatou-se que houve uma repercussão coletiva no bairro no tocante às reações mais veladas ao fato. Dentre elas a ausência das pessoas na igreja, sobretudo na procissão em sinal de protesto, o desligamento da paróquia, a reclamação dos idosos pela quebra do costume, outros por motivo da distância do deslocamento. A insatisfação com a falta de uma atitude mais expressiva por parte dos fiéis frente à Igreja fez-se presente:
[...] Muita gente sente a dor e fica calado, tem vergonha de dizer. A maioria do povo reclamou e foi. Teve gente que adoeceu. [...] Então, quando foi o povo pro lado da Petrobrás, eu sozinho com meu Bom Jesus dos Navegantes vim pro lado do centro, né, que é acompanhando o rio. C.03
E diminuiu bastante. As pessoas estão discordando desse percurso que estão colocando agora. Tanto é que cada ano é um percurso. Eu acho que a procissão é o povo. Não é só o padre, nem aqueles que coordenam a igreja. É o povo! Então, eu acho que o povo deveria ser consultado![...] Eu aceito, mas não concordo. C.07
Na versão da Igreja, a motivação da mudança, para além da nova demarcação paroquial, foi o fato de que a Festa de Bom Jesus dos Navegantes e mais especificamente a procissão terrestre realizada por um único percurso não contemplava a todos os paroquianos. Ademais, a falta de condições em fazer a procissão fluvial dada à poluição do rio já não mais justificou a celebração pelo referido percurso. Novos tempos são, portanto, enfatizados para a festa da Atalaia em que a ação paroquial adota como objetivo o incentivo à criação de uma dimensão de comunidade religiosa em que pese à orientação dos praticantes da religião quer seja com participação mais efetiva em missas aos domingos, quer seja nos movimentos, nas pastorais para reforçar os laços vinculados às atividades da Igreja, como se verifica em seguida:
Já aqui não é só devoção. É uma paróquia que antes era capela! Mas, agora é paróquia! Então, tem uma dimensão que em todo território o povo também. A gente vai para uma procissão para um outro território, claro que é a mesma Igreja. A divisão é pra melhor atender questão dos sacramentos. Mas, é a mesma Igreja. Mas, por que ir pra um lado onde tem outra parte do povo aqui? Não tem mais fluvial! Então, todo esse questionamento eu fiz, porque não fui eu que acabei! O fluvial quando cheguei aqui já tinha cinco anos que não existia mais na Maré do Apicum. Era só pela avenida [...] porque que a vida toda passou por aquela avenida. Mas, a gente tem que acompanhar o tempo, né? Agora, claro, digo e repito que se fosse possível que eu chegasse aqui e ainda tivesse fluvial eu ia continuar! É a tradição de um povo, né? [...] Mas, a poluição tomou conta, ninguém tomou conta da Maré do Apicum. C.04
Vale ressaltar que houve opiniões divergentes sobre a mudança43 em questão a respeito de posturas a favor e indiferente ao acontecimento. Já outros manifestaram seu posicionamento de resistência à mudança, pela continuidade de sua participação na festa, na procissão, inclusive nos ritos da Igreja mesmo estando territorialmente circunscrito na Farolândia:
Eu acho essa mudança muita adequada, sabe? No meu ponto de vista, como houve desmembramento que eu lhe falei que aqui eram muitas comunidades, né. [...] Repito, essa mudança de roteiro/trajeto é muito bom para que a Igreja tenha visibilidade! Que ela também percorra aqueles fiéis que estão afastados! Que estão digamos à margem! C.20
Ói, eu sou tradicionalista, né. Realmente, eu, veja bem, não concordei, mas aceitei porque o poder de decisão é do pároco, poder de decisão dele e o bispo. Então, cabe a mim [...] não concordar, mas aceitar. Não sou eu que vou mudar. É um padre jovem, entende que assim é melhor, está mais realístico. Então, as pessoas ou aceitam, ou o que vão fazer? Vai deixar a paróquia? Quer dizer, a gente não tá na paróquia por causa do padre, a gente tá na igreja por causa de Jesus, né, Então, [riso] é o que eu faço. C10 É o percurso mudou [...] mas vai se fazer o que ,né? Porque no começo até eu mesmo estranhei, veja! Eu que andava na igreja estranhei, achei estranho, né, porque a procissão toda a vida foi por aqui e, de repente, fica só para banda de lá! Mas, mesmo assim eu continuo participando até o dia que Deus quiser! C.02
Eu nasci aqui, me criei me batizei, me crismei, só não fiz casar. Mas, todo o sacramento que teve possibilidade de eu fazer, eu fiz. Engajei na Igreja, fui catequista e hoje eu sou. Já entrou padre, já saiu padre, já morreu padre que passou por aqui [...] Não é agora, na minha velhice como diz a história, que eu vou me transferir, vou pra outra igreja sendo mais longe. Porque diz que até o canal, até Miguel [...] é Farolândia! C.19
Na atualidade é a paróquia o único agente da festa de Bom Jesus sendo exclusivamente a instituição idealizadora, promotora e organizadora do evento. Bom Jesus
43Dos vinte e dois entrevistados/colaboradores, doze moradores antigos manifestaram o descontentamento pela
mudança do roteiro tradicional, quatro declararam-se a favor, três afirmaram estarem indiferentes e três abstiveram-se de emitir suas opiniões.
dos Navegantes é uma festa da Igreja, né? Na Igreja. Então, é a Igreja que é a mentora. [...] é que levanta o estandarte da Festa. É a grande protagonista da Festa [...] C.20 O pároco delega a sua equipe de leigos, participantes dos movimentos pastorais da paróquia responsáveis pelos preparativos da festa. São por ele coordenados grupos de patrocínio, de procissão, ornamentação e divulgação que trabalham meses antecedentes ao evento e são responsáveis pela elaboração festiva como organização, quermesse, elaboração do temário das novenas, definição do roteiro, cartazes e divulgação do evento na mídia a exemplo da rádio Cultura.
O “bazar dos Navegantes” é uma nova atividade, estratégia elaborada pela comissão festiva tendo em vista angariar fundos financeiros a serem aplicados na compra de materiais para a festa.
Já a quermesse tem o patrocínio de pontos comerciais, lojas do bairro e empresas donde se realiza a venda de comidas, bingo e venda de camisas para o pagamento das despesas com a festa. Costumeiramente, a quermesse ocorria no dia festivo após a procissão e, atualmente passou a realizar-se na semana que a antecede e em outro espaço que não o entorno da Igreja ocorrendo em praça adjacente ou outros espaços do bairro como escolas a fim de não quebrar o sentido religioso.44
De igual forma acontece com os ritos, são presididos pela paróquia. A novena em substituição ao antigo tríduo: [... ] é a adoração a Jesus sacramentado [...]o novenário em que é celebrado o santo sacrifício da missa que é o cume da ação da Igreja, de toda a vida da Igreja,[...] é a liturgia, a sagrada liturgia[...] sendo que no dia festivo tem além da missa solene, a procissão. C.04. A novena acontece durante nove noites que antecedem o dia festivo e nesse período ocorre adoração com orações proferidas e cantadas como é caso das ladainhas. Em seguida tem-se a benção do santíssimo e a missa em cada noite possui uma temática seguida nas homilias sendo celebrada por padres convidados de outras paróquias e concelebrada pelo pároco local.
Declaradamente, o papel e orientação da Paróquia na festa é conduzir a comunidade