2 DELIMITANDO O CAMINHAR
2.3 CONEXÕES E ESCALAS: A TRIANGULAÇÃO
Maria Cecília Minayo (2012) alerta que teoria, métodos e técnicas são interdependentes e estão condicionadas ao universo de investigação. Essa alquimia soma-se às características das investigadoras que temperam o trabalho. Neste tripé, é importante ter ciência de onde partimos e estamos imbricados, por isso, o contexto da observação não pode ser esquecido e será apresentado no capítulo 3.
Fazer ciência é trabalhar simultaneamente com teoria, método e técnicas, numa perspectiva em que esse tripé se condicione mutuamente: o modo de fazer depende do que o objeto demanda, e a resposta ao objeto depende das perguntas, dos instrumentos e das estratégias utilizadas na coleta dos
DELIMITAÇÃO DA UNIDADE-CASO
• Projeto Turismo de Base Comunitária no Cabula e Entorno. • Coletivo de Arte e Cultura
COLETA DE DADOS
• Entrevistas; Observação; Questionários; Análise de documentos
SELEÇÃO, ANÁLISEE INTERPRETAÇÃO DO DADOS • Triangulação
ELABORAÇÃO DE RELATÓRIO • Tese
dados. À trilogia acrescento sempre que a qualidade de uma análise depende também da arte, da experiência e da capacidade de aprofundamento do investigador que dá o tom e o tempero do trabalho que elabora (MINAYO, 2012, p. 622).
Minayo chama atenção, ainda para os substantivos das pesquisas qualitativas que, na perspectiva da autora, seriam quatro: experiência, vivência, senso comum e ação. A experiência está relacionada como os seres humanos compreendem a si próprios e aos que os rodeiam. A vivência é resultado de uma reflexão pessoal a partir do que foi experienciado. É pessoal e intransponível mesmo para indivíduos que passaram pela mesma experiência. O senso comum é o que resulta da síntese entre a experiência e a vivência. Enquanto a ação, humana e/ou social é “definida como o exercício dos indivíduos, dos grupos e das instituições para construir suas vidas e os artefatos culturais, a partir das condições que eles encontram na realidade” (MINAYO, 2012, p. 622).
Para alcançar as premissas identificadas por Minayo, no bojo de relações estabelecidas pelo CULTARTE, nos valeremos da triangulação. Ao passo que “a triangulação permite que o fenômeno em estudo seja abordado de diferentes formas, ou por meio de métodos múltiplos, em tempos e com bases em fontes diferentes” (ZAPPELLINI; FEUERSCHÜTTE, 2015, p.244).
Zappellini e Feuerschütte (2015) empreenderam uma sistematização que reúne o conceito de triangulação atribuído por diferentes autores (Quadro 1).
Quadro 1- Sistematização das concepções de triangulação AUTOR(ES) CONCEITO Denzin (1970) Denzin e Lincoln (2005)
Combinação de diferentes metodologias para analisar o mesmo fenômeno, de modo a consolidar a construção de teorias sociais.
Patton
(2002) Combinação de diferentes fontes e métodos de coleta de dados. Davidson
(2005)
Combinação de diferentes fontes e métodos de coleta de dados, em que a análise desses dados é feita em conjunto, e não considerando dados individuais.
Flick
(2009a; 2009c; 2013)
Combinação de diferentes métodos, grupos de estudo, ambientes, períodos de temo e perspectivas teóricas para lidar com um fenômeno.
Estudo de um tema e um problema de pesquisa com base em duas perspectivas privilegiadas, assumindo diferentes visões a respeito da questão de pesquisa e combinando diferentes tipos de coleta de dados sob a mesma abordagem teórica para a produção de mais conhecimento do que seria possível com base em uma só perspectiva.
Stake (2005; 2011)
Método que utiliza dados adicionais para validar os ampliar as interpretações feitas pelo pesquisador, adotando diferentes percepções para esclarecer o significado, por meio da repetição das observações ou interpretações.
Fonte: Zappellini e Feuerschütte, 2015.
Assim, compreendemos por triangulação:
um procedimento que combina diferentes métodos de coleta e de análise de dados, diferentes populações/sujeitos (ou amostras/objetos), diferentes perspectivas teóricas e diferentes momentos no tempo, com o propósito de consolidar suas conclusões a respeito do fenômeno que está sendo investigado (ZAPPELLINI e FEUERSCHÜTTE, 2015, p.246-7).
Zappellini e Feuerschütte (2015) realizaram uma revisão sobre o conceito e utilização da triangulação, por meio do estudo de diversos autores, propõem cinco tipologias. São estas: a) Triangulação de dados/fontes: são levantados e considerados diferentes de dados, sem uso de distintos métodos. Esses dados são coletados a partir de momentos, locais e pessoas distintas; b) Triangulação de investigadores: diferentes entrevistadoras e/ou investigadoras se debruçam sobre o objeto da pesquisa, de modo a minimizar vieses. Os dados obtidos devem ser comparados. Diante da dificuldade de se compor um grupo para esse tipo de aplicação, pode-se, ainda, submeter os dados coletados por uma pesquisadora a um grupo de pesquisadoras com o objetivo de discutir interpretações coletivas. Tal procedimento forneceria triangulação de teoria, devido às diferentes formações
dessas pesquisadoras; c) Triangulação de teoria: diferentes perspectivas teóricas e hipóteses são utilizadas na abordagem dos dados; d) Triangulação metodológica: utiliza-se formas distintas de coletar dados, havendo a possibilidade de combinar dados qualitativos e quantitativos, todos em consonância com as questões norteadoras da pesquisa; e) Triangulação interdisciplinar: é a junção de teoria e prática de diferentes disciplinas para trabalhar o problema de pesquisa. Nesse trabalho, adotaremos a triangulação metodológica e a triangulação interdisciplinar.
Sobre os resultados, a triangulação pode apontar para a convergência, para a complementação e mesmo para a divergência ou contradição. Todas essas possiblidades precisam ser tratadas com o devido rigor, e compõem parte elementar da análise pretendida.
Sem que passemos por um ideal positivista que determina que as pesquisas qualitativas precisem ser validadas todo tempo, ou que o erro possa ser banido das investigações qualitativas, ou de qualquer exemplo de investigação, advogamos que a triangulação permite uma maior aproximação com campo de investigação. Assim, não se trata de aumentar a confiabilidade e sim somar elementos que favoreçam uma análise mais real e próxima diante da complexidade que é a experiência humana, em especial, no coletivo.
Acrescentamos, ainda, que muito embora se utilize diversas fontes de coleta de dados, os dados são analisados no conjunto; as conclusões são extraídas do todo. Cientes que muito dos dados que obtivemos permeiam a memória das entrevistadas, discutiremos as nuances da memória, a seguir.
2.3.1 Trilhas da Memória
Mas as coisas findas muito mais que lindas, essas ficarão. (Carlos Drummond de Andrade) Sem negar a carga ideológica dos nossos traços epistemológicos, não poderíamos compreender essa pesquisa sem o pressuposto do ouvir, do dialogar. Por isso, o trabalho que apresentamos é, também, um passeio pela memória de mulheres que nos permitiram, por meio oralidade, conhecer suas trajetórias, vivências, caminhadas e planos para o futuro.
A entrevista é resultado do encontro entre entrevistada/colaboradora e pesquisadora, que não se deu apenas no momento agendado, mas sim durante nosso processo de acompanhamento do grupo CULTARTE, sejam feiras, cursos, reuniões pois acreditamos que “da qualidade do vínculo vai depender a qualidade da entrevista” (BOSI, 2003, p. 60).
Essa trajetória nos permitiu laços de confiança mútua, e podemos perceber como isso se revela ao longo das entrevistas. Para nós, seria “O enlace da memória
com modos de narrar” (MEIHY; HOLANDA, 2013, p.14):
A entrevista de história oral é sempre um processo dialógico, isto é que demanda a existência de pelo menos duas pessoas em diálogo. [...]. O contato direto, de pessoas a pessoa, interfere de maneira absoluta nas formas de exposição das narrações (MEIHY; HOLANDA, 2013, p.19).
As entrevistas foram realizadas em local, data e hora escolhida pelas entrevistadas/colaboradoras, seguindo alerta de Meihy e Holanda (2013, p. 56). Assim, essas mulheres puderam escolher locais que lhe permitissem afinidade, segurança ou mesmo contar com objetos que acionam suas memórias e que, por diversas vezes, foram utilizados para ilustrar ou comprovar determinada fala. Afinal, “se não fosse assim, a entrevista teria algo semelhante ao fenômeno da mais-valia, uma apropriação indébita do tempo e do fôlego do outro” (BOSI, 2003, p. 61). Seguindo essa linha, acreditamos que:
Narrador e ouvinte irão participar de uma aventura comum e provarão, no final, um sentimento de gratidão pelo que ocorreu: o ouvinte, pelo que aprendeu; o narrador, pelo justo orgulho de ter um passado tão digno de rememorar quanto o das pessoas ditas importantes (BOSI, 2003, p.61).
Embora, essa aproximação com os sujeitos da pesquisa possibilite uma maior interação e possibilidade de inserção no campo, não significa dizer que se faz desnecessário a atenção de análise e procedimentos que é inerente da fonte oral, aqui entendida como “a documentação oral quando apreendida por meio de gravações eletrônicas feitas com o propósito de registro torna-se fonte oral” (MEIHY, HOLANDA, 2013, p.14. grifo dos autores). Ecléa Bosi (2003) atenta para as distâncias e aproximações entre o tempo vivido e o tempo da memória, que o narrador nos traz:
Pela memória, o passado não só vêm à tona das águas presentes, misturando com as percepções imediatas, como também empurra, “desloca” estas últimas, ocupando o espaço todo da consciência. A memória aparece
como força subjetiva ao mesmo tempo profunda e ativa, latente e penetrante, oculta e invasora (BOSI, 2003, p. 36).
Esse campo empírico que nos aproximamos, por meio da fonte oral “é o reino da percepção registrada e nele mora a subjetividade” (MEIHY; HOLANDA, 2013, p. 123). “A fonte oral sugere mais que afirma, caminha em curvas e desvios obrigando a uma interpretação sútil e rigorosa” (BOSI, 2003, p. 21).
Se diante do exposto, do entrelace entre presente e passado, permeados pela subjetividade, optamos por trabalhar com o oral é porque estamos certas de que:
A memória oral é um instrumento precioso se desejarmos constituir a crônica do quotidiano [...]. A história, que se apoia unicamente em documentos oficiais, não pode dar conta das paixões individuais que se escondem atrás dos episódios (BOSI, 2003, p.15).
Ainda que recaia sobre a subjetividade, sobre a identidade dos sujeitos, as experiências individuais são resultados do processo e do construir por meio da interação social. Desse modo, acreditamos que o importante desses experimentos é o vislumbrar de possibilidades, de aprendizagem, de comunicação e inclusão de mais pessoas e mais comunidades nas ações positivas que o turismo pode dinamizar (CORIOLANO et al., 2009, p. 57).
Após definirmos os alicerces do caminhar, o convite para adentrar no antigo quilombo Cabula está posto. Seguiremos por sua história, cores e nuances de seus moradores e suas moradoras.