3. O BRASIL NOS ANOS DE AUTORITARISMO
3.3. A Igreja Católica no Brasil: antecedentes e os anos 1950/60
3.3.1. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil - CNBB
Em uma reunião no Palácio São Joaquim, sede do arcebispado do Rio de Janeiro, no dia 14 de outubro de 1952, fundava-se a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, a CNBB. Estavam presentes os vinte arcebispos brasileiros, ou seus representantes, o núncio apostólico e um bispo recém-consagrado e ligado à Ação Católica no Rio de Janeiro, que iria secretariar a reunião. Ali se aprovou um regulamento e instalou-se a Comissão Permanente encarregada de gerir o novo órgão.
A Comissão era composta dos cardeais Carlos Carmelo de Vasconcellos Motta, de São Paulo, e Jaime de Barros Câmara, do Rio de Janeiro, como membros natos, juntamente com três arcebispos eleitos na ocasião: Vicente Scherer (Porto Alegre, RS), Mário Villas Boas (Belém, PA) e Antônio de Almeida Júnior (Olinda e Recife, PE), ficando como suplentes os arcebispos Augusto Álvaro da Silva (Salvador, BA), Antônio dos Santos Cabral (Belo Horizonte, MG) e Antônio de Almeida Lustosa (Fortaleza, CE). A Comissão escolheu o cardeal Carlos Motta, cuja procedência eclesiástica impunha-se aos demais, como presidente, enquanto este indicava Helder Pessoa Camara, bispo auxiliar do Rio de Janeiro, para atuar como Secretário-Geral, gesto aclamado por todos os presentes.
Em 1952, pelos esforços de Dom Helder Camara, foi criada a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB. Seguidor das ideias de Dom Sebastião Leme, Dom Helder pôde contar com o apoio do Núncio Apostólico Dom Carlo Chiarlo e do Monsenhor Montini (eleito em 1963, como papa Paulo VI) para finalmente dotar a Igreja Católica no Brasil da liderança capaz de facilitar as ações apostólicas visando sua modernização. Inaugurou-se, então, uma nova fase nas estratégias de participação da Igreja no poder temporal no Brasil. Agora havia um organismo centralizador da hierarquia que, apesar de subordinado ao Vaticano, respondia mais prontamente aos anseios dos bispos brasileiros. 80
Scott Mainwaring, em seu livro Igreja Católica e Política no Brasil,81 conta que a CNBB foi, e continua sendo, a grande articuladora das ações da igreja brasileira. Segundo ele, a instituição legitimou algumas práticas pastorais, fazendo
79
GÓMEZ DE SOUZA, Luiz Alberto. A JUC: os estudantes católicos e a política. Petrópolis: Vozes, 1984. p. 61.
80 Idem, p. 53.
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abortar outras, conduzindo o episcopado e a Igreja Católica em geral no Brasil, ora a enfrentamentos com o governo, ora acomodando divergências em prol de um entendimento mais amplo entre sociedade e governo. Mais do que a expressão de uma unidade aparente, a instituição era palco de disputas internas entre pelo menos três grandes grupos:
(...) por volta de 1955, havia três grupos bem definidos na CNBB: os tradicionalistas, os modernizadores conservadores e os reformistas. Os primeiros eram aqueles que continuavam a apoiar as estratégias utilizadas até então, de busca da hegemonia da Igreja e defesa de seus privilégios. Eram os que mais se opunham à modernização.
Os modernizadores conservadores eram aqueles que propugnavam uma maior abertura da Igreja ao mundo, visando deter os avanços do comunismo e do protestantismo pela adoção mais plena da doutrina social da igreja, onde não se podia ignorar os apelos de uma maior justiça social. Opunham-se, no entanto, a mudanças radicais e não definiam como se chegaria a este estado na sociedade brasileira.
Os reformistas compartilhavam os desejos de modernização com o grupo anterior, com uma maior participação pastoral da Igreja e sua maior inserção nas camadas mais populares. Indo mais além, sua preocupação não era pelo avanço do comunismo no Brasil, mas a permanência de estruturas sociais injustas, onde a pobreza, a ignorância e a falta de oportunidades eram comprometedoras de uma vida verdadeiramente cristã. Esse grupo, sob a liderança de Dom Helder, iria inspirar diversas experiências de aproximação popular que marcariam forte presença política no Brasil da década de 1960, como o Movimento de Educação de Base – MEB e outros oriundos da reestruturação da Ação Católica.82
Ainda assim, nunca os bispos deixaram transparecer as divergências internas, passando sempre uma posição unitária em seu trato com o governo e a sociedade. Mesmo quando os setores mais progressistas apoiavam as comunidades eclesiais de base, fruto mais dinâmico da Teologia da Libertação na América Latina, ou acolhiam jovens estudantes perseguidos pela ditadura que recém se instalava no governo, a CNBB como instituição não hesitava em apoiar o novo regime.
Em abril de 1964, os militares tomaram o poder, a fim de “salvar a civilização ocidental cristã” do “comunismo ateísta”, isto é, para defender a oligarquia dominante, ameaçada pelo surgimento de movimentos sociais sob o presidente eleito, João Goulart. Em junho de 1964, depois de dois meses de reflexão, a Conferência dos Bispos (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil-CNBB) publicou uma declaração apoiando o golpe:
“Em resposta às expectativas gerais e ansiosas do povo brasileiro, que viu a marcha acelerada do comunismo na direção do poder, as forças armadas intervieram a tempo, e impediram o estabelecimento de um regime bolchevique em nosso país... Ao mesmo tempo em que agradecemos a Deus, que respondeu às preces de milhões de brasileiros e nos libertou do perigo comunista, estamos gratos, também, aos militares que, com sério risco de vida, se ergueram em nome dos interesses supremos da nação.” 83
82
CARNEIRO JR., p. 45/46.
83 LÖWY, Michael. A guerra dos deuses. Religião e política na América Latina. Petrópolis: Vozes, 2000. p. 140.
Tampouco a CNBB deixou totalmente sem apoio os grupos perseguidos pela repressão militar. Mesmo que através de atitudes muito mais diplomáticas e de composição entre elites, do que se poderia supor de uma instituição a serviço dos pobres, a Igreja soube zelar pelos seus padres, religiosos e muitos dos leigos que se desencaminharam para organizações de esquerda. Kenneth Serbin, no livro
Diálogos na sombra, aponta as negociações entre generais e membros da alta hierarquia eclesiástica que ajudaram a descomprimir as relações que se deterioravam entre Igreja e os condutores da “Revolução de 1964”, por conta de prisões e torturas de seus membros na fase mais dura da ditadura militar.
O avanço em direção às camadas mais carentes da população que a Igreja mundial experimentava depois do Concílio Vaticano II, em especial a da América Latina, havia trazido também uma maior abertura aos leigos desde o início dos anos 1960.
Tendo sido analisado o contexto político e militar do Brasil do início dos anos 1960, durante a conjuntura da Guerra Fria, e os esforços de setores da sociedade civil, como a Igreja Católica, pela manutenção de seu poder de influência junto ao governo que se instalava, cumpre agora conhecer a figura de Alceu Amoroso Lima e sua luta, enquanto formador de opinião e líder católico, pelo retorno à normalidade democrática e a adoção das reformas que acreditava serem indispensáveis a uma sociedade mais justa e ética, enfim, mais cristã.