3 O PROCESSO DE INDIVIDUAÇÃO DO EDUCADOR NA ELABORAÇÃO,
4.1 O que são atitudes?
4.1.3 Confiabilidade e validez das escalas de atitudes
Confiabilidade e validez são dois requisitos indispensáveis para que uma escala seja considerada satisfatória.
Confiabilidade refere-se a uma medida obtida com percentuais de erros estatisticamente aceitáveis (TRIANDIS, 1974). Para ter validade, o instrumento utilizado precisa ser apropriado para o tipo de pesquisa que está sendo realizada.
Conforme já demonstramos teoricamente ao tratarmos do conceito de atitude, a Escala de Atitudes do Tipo Likert atende plenamente aos aspectos quantificáveis da nossa pesquisa. Portanto, a ECAFH é uma escala válida para testagem do nosso objeto. Além da justificativa teórica, também utilizamos métodos qualitativos e quantitativos para validar a ECAFH: entrevistas semiestruturadas com os sujeitos que obtiveram maior e menor
pontuação na escala e testes de correlação postos de Spearman entre o índice de cada subescala e seus respectivos itens.
Richardson e Wanderley (1985) fazem uso de um exemplo utilizado por Kerling (1964) para melhor elucidar a confiabilidade, vejamos: um atirador ao alvo dispõe de dois rifles, um em boas condições mas com muitos anos de uso e outro fabricado com modernas tecnologias. Os disparos realizados com o rifle mais velho e o mais novo a partir de uma mesma posição e distância do alvo, podem ser respectivamente exemplificados na figura a seguir:
Figura 04 - Exemplificação do conceito de confiabilidade Fonte: RICHARDSON, 1985, p.126
Este exemplo nos leva a concluir que com o rifle mais novo obteve-se menor dispersão do que com o mais velho. Portanto, o rifle mais novo oferece maior confiabilidade do que o mais velho. Assim também acontece com as pontuações atribuídas a cada item, o coeficiente de dispersão empregado irá medir o nível de coerência interna da escala.
No caso da escala por nós elaborada, a ECAFH, os critérios estatísticos de validade e confiabilidade adotados foram o Teste de Correlação Bivariada de Spearman e o teste Alfa de Cronbach, respectivamente, sobre os quais discorreremos ao longo do capítulo.
Existem diferentes métodos para se medir o grau de confiabilidade interna de uma escala. Optamos pelo teste de Alfa de Cronbach pelo fato de nos últimos 50 anos ele ter se tornado o procedimento mais utilizado pela maioria dos investigadores que trabalham com escala.
O que indica um valor Alfa de Cronbach?
O índice α estima quão uniformemente os itens contribuem para a soma não ponderada do instrumento, variando numa escala de 0 a 1. Esta propriedade é conhecida por consistência interna da escala, e assim, pode ser
interpretado como coeficiente médio de todos as estimativas de consistência interna que se obteriam se todas as divisões possíveis da escala fossem feitas (CRONBACH, 1951 apud MAROCO; GARCIA-MARQUES, 2006, p. 73 – itálico no original)
Ou seja, quanto mais próximo a 1.0, maior a consistência interna da escala. Em termos gerais, um α, cujo valor é maior ou igual a 0,70 é classificado como sendo satisfatório. No entanto, para alguns cenários que fazem parte da investigação nas ciências sociais, um α maior ou igual a 0,60 é considerado aceitável (MAROCO; GARCIA-MARQUES, 2006). Para esta pesquisa, adotamos α maior que 0,60 e que apresentaremos detalhadamente no item 5.1.1.
A confiabilidade, enquanto critério científico, pode ocorrer de forma interna ou externa. A externa diz respeito
à possibilidade de outros pesquisadores, utilizando instrumentos semelhantes, observarem fatos idênticos e a confiabilidade interna refere-se à possibilidade de outros pesquisadores fazerem as mesmas relações entre os conceitos e os dados coletados com iguais instrumentos (RICHARDSON, 2010, p 87)
No item seguinte, apresentaremos a metodologia de testagem quantitativa da Escala de Compreensão de Aspectos da Formação Humana (ECAFH).
4.2 Metodologia de testagem quantitativa do componente curricular:primeiro percurso
Remetendo-nos à nossa hipótese geral, a qual busca comprovar que um componente curricular estruturado para o desenvolvimento da compreensão do ser humano no que diz respeito a questões voltadas para os relacionamentos interpessoais e das emoções52, e do cultivo de valores e virtudes53, promove um ganho substancial em termos de compreensão de aspectos da formação humana influenciando no seu processo de conduta e tomada de decisões responsáveis54, defendemos que se faz necessário um esforço por parte da educação formal no sentido de promover este processo a fim de oferecer, no mínimo, maior liberdade de escolha aos indivíduos quanto à orientação interior a seguir, cumprindo, dentre outras função sociais,
52
Esta variável é representada pelo índice de relações interpessoais e conhecimento das emoções 53
Esta variável é representada pelo índice conhecimento e cultivo das virtudes 54
aquelas apontadas por López Quintás (2003) como sendo antídoto para o processo manipulatório: estar alerta, pensar com rigor e viver criativamente.
Desta forma, é necessário que a educação sistematize um processo formativo para estes fins a fim de que as pessoas tenham condições de compreender isto de uma maneira mais ampla e substancial em suas vidas de tal maneira que possam livremente ter condições de escolherem e se comprometerem ou não com o seu próprio processo de humanização.
Consequentemente, a formulação de um componente curricular comprometido com a idéia de formação humana poderia ser trabalhado numa instância formal do sistema educacional, na tentativa de promover esta compreensão inicial dos alunos. Eis a razão de termos adotado como objeto de estudo a elaboração, implementação e teste de um componente curricular voltado para formação humana de jovens e adultos do ensino tecnológico do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia - Pernambuco, Campus Recife.
Desta feita, deparamo-nos com um desafio: que caminho metodológico tomar?
Se adotássemos um método exclusivamente qualitativo com entrevistas semi- estruturadas ou grupos focais antes e depois da implementação do componente, depararíamo- nos com limitações quanto à abrangência de nossa amostragem, como também, a pesquisa ficaria extremamente centrada na ótica da pesquisadora enquanto elaboradora e ministradora da pesquisa.
Buscávamos um método que nos possibilitasse chegar a generalizações que pudessem representar toda a população potencial de jovens e adultos em cursos tecnológicos de outras regiões e estados do Brasil, mesmo reconhecendo que o componente curricular e os dados aferidos, só poderiam fazer referência a este componente sendo ensinado por esta pesquisadora uma vez que ainda não temos condições de fazer a mesma demonstração do componente em si, visto este não ter sido ministrado por mais ninguém até agora.
Escolhemos, portanto, adotar um caminho metodológico de cunho tanto qualitativo quanto quantitativo, conforme já mencionamos.
O instrumento de pesquisa de cunho quantitativo adotado foi uma Escala de Atitudes tipo Likert a qual denominamos Escala de Compreensão de Aspectos da Formação Humana
(ECAFH), por nós desenvolvida e aplicada.
Foram necessárias duas versões para o processo de desenvolvimento da ECAFH: a primeira durante o pré-teste com 80 itens e a segunda que se tornou definitiva com 54 itens. Três indicadores constituíram esta última versão, são eles: índice de relações interpessoais e conhecimento das emoções (SRICE), o índice de conhecimento e cultivo das virtudes (SCCV)
e o índice de predisposição para ações e decisões responsáveis (SPADR). Estes índices foram extraídos a partir das variáveis que constituíram as três sub-escalas que constituíram as ECAFH55.
Em função de termos utilizado duas versões da escala, apresentaremos a seguir o tratamento dado para validação da primeira versão e em seguida da versão definitiva.