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[..] 1. componentes semiológicos significantes que se manifestam através da família, da educação, do meio ambiente, da religião, da arte, do esporte; 2.

elementos fabricados pela indústria dos mídia, do cinema, etc. 3. dimensões semiológicas asignificantes colocando em jogo máquinas informacionais de signos, funcionando paralelamente ou independente mente, pelo fato de produzirem e veicularem significações e denotações que escapam então às axiomáticas propriamente lingüísticas. (GUATTARI, 1992, p. 14)

Na caosmose de Guattari (1992), não há estruturas ou sistemas, tudo está conectado ao mesmo tempo e os acoplamentos acontecem através do alinhamento entre os sujeitos e fenômenos, junto às diferentes dimensões citadas pelo autor. Por isso, não faz sentido falarmos de acoplamento estrutural, e sim, somente acoplamento, devido à compreensão da complexidade dessas conexões em uma lógica dissipativa.

Entender os acoplamentos através de uma visão holística, ecossistêmica-complexa e alinhada à Esquizonánalise, pode, em um primeiro momento, parecer assustador. Digo isso, pois esta visão abriu uma vastidão de possibilidades e ramificações no rizoma da minha pesquisa. Ao mesmo tempo, esta compreensão me trouxe, no processo, certo conforto, pois eu sabia, que, por mais longe que eu fosse, haveria sempre mais vislumbres, acoplamentos, dimensões e ramificações do meu foco de estudo para descobrir, discutir e refletir. Isso ajuda a desidealizar e a abandonar a ideia de dar conta de tudo do todo. Assim, aprendi que a visão holística implica abordagem considerando o todo, mas não à presunção de totalidade conclusiva, a respeito dos universos estudados.

Portanto, para esta pesquisa, a partir destas reflexões, usaremos como base as dimensões cognitivas e afetivas e seus atributos, com o objetivo de expandir as reflexões sobre os possíveis acoplamentos cartografados, resultantes das relações entre alguns dos sujeitos presentes no foco de estudo.

No encontro com outros teóricos, encontrei um artigo de Lundåsen (2002), que trabalha com a ideia de riscos, em ambos os casos. Além de reconhecer a ideia de confiança interpessoal, para Lundåsen (2002) o equivalente a ideia de “confidence”

de Luhmann (2000) seria o conceito de confiança generalizada. A confiança generalizada, segundo a autora, seria a confiança na natureza humana, ou seja, confiar nos outros sujeitos que façam parte da minha sociedade, mesmo que eu não tenha uma relação direta com eles.

A confiança generalizada não é um fenômeno novo na história humana. As relações de confiança generalizada estão presentes na história da humanidade há mais de 200 mil anos, e isso só foi possível por conta do desenvolvimento da linguagem e das narrativas. Segundo Harari (2015), foram as narrativas, mesmo que rudimentares, que começaram a mobilizar grupos de mais de 150 homo sapiens, criando, entre seus integrantes, um interesse comum e um elo de confiança, ou seja, mesmo que todos os integrantes não se conhecessem diretamente, era o desejo em comum formatado através da linguagem e das narrativas, que mantinha o grupo unido.

De acordo com Harari (2015), essa capacidade de comunicação, no sentido de criação de vínculo de confiança, talvez seja o que justifica a permanência da espécie até hoje, diferentemente de outras espécies humanas, como o homo de neanderthalensis e o homo erectus, que já foram extintas. Em sentido contrário, podemos refletir, na sociedade contemporânea, que o abandono de relações de confiança, que se expressa em larga escala na humanidade, deve acionar alertas de risco de sobrevivência da espécie.

Além disso, para que a confiança generalizada realmente aconteça, Lundåsen (2002) reflete sobre o papel do Estado. Segundo a autora, sem que haja confiança no Estado, é impossível que se chegue a um nível de confiança generalizada. Os economistas Akerlof e Shiller (2009) destacam que, indo além do Estado, a confiança, que pode ser entendida como a confiança generalizada (LUNDÅSEN, 2002), só é alavancada através de narrativas de prosperidade, que mobilizam a sociedade civil e os veículos de mídia.

A confiança não reflete apenas a situação emocional de um indivíduo.

Também é a percepção da confiança manifestada por outras pessoas. Mais que isso, é uma visão de mundo – modelo popular dos acontecimentos em curso, compreensão compartilhada dos mecanismos da mudança econômica, à luz das notícias da imprensa e das discussões populares. O alto nível de confiança tende a associar-se a histórias inspiradoras, a narrativas sobre novas inciativas de negócios, a contos de como outras pessoas estão enriquecendo. As histórias de nova era tendem a acompanhar grandes surtos de prosperidade nos mercados de ações em todo o mundo. A confiança econômica em tempos passados não pode ser compreendida sem referência aos detalhes de suas histórias. (AKERLOF; SHILLER, 2009, p. 58).

Lundåsen (2002) lembra que já são estudadas correlações entre a maturidade de uma democracia e o seu nível de confiança generalizada. De acordo com a cientista política, é explorando a desconfiança e a fragilidade de algumas democracias que governos autoritários chegam ao poder.

Akerlof e Shiller (2009) também comentam sobre o papel do Estado nos últimos anos. Segundo os economistas, a partir da década de 1970, boa parte das nações começaram a rechaçar políticas keynesianas11, o que fez com que a atuação do Estado começasse a diminuir, ao mesmo tempo que políticas neoliberais12 foram sendo adotadas, tirando responsabilidades da iniciativa privada.

Esse movimento de diminuição do papel do Estado, realizado em muitas economias consideradas de primeiro mundo e, mais tarde também na América Latina, começou a transferir as responsabilidades dos sujeitos do Estado e das instituições privadas para o sujeito cidadão. Segundo Luhmann (2000), aquilo que até então era considerado um perigo e, sendo assim, mediado pelo Estado, começou a ser tratado como um risco e delegado para o sujeito cidadão, que tem lidado, cada vez mais, com o aumento da complexidade social.

O’Neill (2002) também nos faz pensar o quão complexo é para o Estado e as instituições garantirem a confiança nos processos. A filósofa nos recorda que, nos últimos anos, houve uma evolução significativa nos aparatos de segurança que buscam detectar se a confiança foi violada, como: fechaduras, cofres, senhas, cartões de identidade, câmeras de CFTV, criptografia, regulamentações, entre outros recursos. Ao buscar, por um outro lado, tornar alguns processos confiáveis, segundo

11 John Maynard Keynes foi um economista britânico que defendia um a ideia de Estado de Bem-Estar Social, onde intervenções estatais deveriam ser implementadas para garantir a geração de demanda e o pleno emprego.

12 Durante a década de 70, em meio a um crescimento econômico considerado lento e a volta da inflação, políticas neoliberais visando a intervenção mínima do Estado começaram a ser implementadas como uma alternativa ao keynesianismo.

a autora, a sociedade acabou engessando os processos. Ao compararmos a visão de O’Neill (2002) com outros autores consultados, talvez esse movimento da sociedade diga mais sobre a desconfiança vigente do que a confiança propriamente dita. Ou seja, há um sinalizador sobre a dificuldade de legitimar as relações e da necessidade de sitiar o outro, para minimização dos riscos e perigos.

Durante a pandemia de Covid-19, segundo as teorias de Luhmann (2000), vimos algumas situações de perigo serem tratadas como situações de risco, onde a responsabilidade era transmitida para o sujeito. A consequência dessa transferência de responsabilidade é sentida na sociedade, já que, para o sujeito, diariamente, a complexidade só aumenta, principalmente, pelo avanço repentino da digitalização do mundo. Por exemplo, durante a pandemia de Covid-19, em vários países, a decisão de fazer ou não o isolamento social, em momentos críticos, foi tratada como decisão do sujeito. O fato aqui não é ferir a liberdade individual, mas entender que tais decisões podem ferir a liberdade do outro, não colocando em risco somente o sujeito que nega a recomendação, e, sim, toda a comunidade em que ele está inserido.

Dessa forma, Boaventura de Sousa Santos (2021) ressalta que a pandemia de Covid-19 suscitou a discussão sobre o Estado de exceção. Segundo o autor, o Estado de exceção teria nascido ainda com os romanos, como prática que destinaria todo o poder para um sujeito, geralmente um general, em tempos de guerra, para que o mesmo tivesse plenos poderes de lidar com a situação. Quando a situação da guerra acabava, o Estado de exceção deixava de existir, e a lógica anterior de poder era restaurada. No entanto, o ato de declarar um Estado de exceção acabou servindo como recurso para que governos autoritários perpetuassem seu poder, uma vez que o Estado de exceção era declarado sem um prazo definido para acabar. Atos assim foram praticados pelo governo da Alemanha nazista, na década de 1930.

Durante a pandemia, o ato de declarar o Estado de exceção foi incorporado por diversas nações, segundo Boaventura de Sousa Santos (2021). O autor divide os países que declararam o Estado de exceção em duas categorias: Estados de exceção democráticos e Estados de exceção antidemocráticos.

Como Estados de exceção democráticos, Boaventura de Sousa Santos (2021) cita os governos italiano, português, espanhol, argentino e sul-africano, onde a atuação do governo nesses moldes se deu por um período limitado, utilizando medidas e recursos estritamente necessários para combater a pandemia, sem recorrer às restrições da liberdade e da privacidade dos cidadãos. Tais ações só

podem ser efetuadas dessa forma, quando há uma democracia forte e um grande grau de confiança, entre os sujeitos que se relacionam no processo democrático, pois, em alguns desses países, o consenso com a oposição foi necessário.

Por outro lado, em países com Estados de exceção antidemocráticos, onde, segundo Boaventura de Sousa Santos (2021), existe o que o autor denomina democracias com baixíssima intensidade, ou seja, Estados democráticos declarados, governos utilizaram a pandemia para aumentarem seus traços autoritários. Nesses Estados, entre eles, o Brasil, o autor afirma que a atuação política teve três vertentes:

o negacionismo, como o não reconhecimento da ameaça que a pandemia significa;

utilização de bodes expiatórios, para tirar o foco do fracasso no cuidado da vida dos cidadãos; e a utilização da emergência sanitária para legitimar poderes, por tempo indeterminados. Percebe-se, aqui, que a desconfiança é um papel importante de todas as vertentes utilizadas por governos com traços autoritários, para lidar com a pandemia de Covid-19.

No Brasil, vimos uma amostra exata das três vertentes ressaltadas por Boaventura de Sousa Santos (2021), onde a gravidade da pandemia foi negada pelo governo desde o início, o judiciário independente e a imprensa livre foram tratados como bodes expiatórios e a pandemia serviu de cortina para desregularização ambiental, entre outras políticas impopulares.

Se pensarmos essa questão alinhada com o turismo, o não cumprimento das recomendações necessárias para o controle do vírus e a falta de políticas de assistência imediatas para o trade turístico tiveram efeitos catastróficos para o setor, enquanto assistíamos à paralisação das atividades. Dessa forma, quando o Estado é um vetor de desconfiança, fica difícil conscientizar os sujeitos a exercerem o seu compromisso com a sociedade, em um pacto de confiança generalizada, mostrando que as ações de cada um não se resumem a escolhas individuais.

Vale ressaltar que, apesar das teorias aqui trabalhadas tratarem de processos de confiança interpessoal e confiança generalizada, é preciso salientar que, no ambiente digital, essa distinção tem caído por terra. Isso porque os canais dos sujeitos atuantes na política, assim como no mercado, ganharam importância institucional, influenciando ações e crises com suas declarações, por estarem atrelados a grandes esferas de tomada de decisão. Os antecedentes desses sujeitos em relação ao que lhes está sendo depositado como confiança, também não é esquecido no ciberespaço, onde as informações e dados são constantemente trazidos à tona,

através de ações e atitudes passadas do sujeito. Assim, as pessoas constantemente acessam os históricos sobre determinados sujeitos, em redes sociais e portais de imprensa, o que é determinante para que haja confiança ou não.

Por fim, para concluir este capítulo, é preciso ressaltar que, neste trabalho, o conceito de confiança é entendido como uma atitude, desenvolvida pelos sujeitos em tomadas de decisões que envolvam riscos. Nesse processo, o sujeito acessa as dimensões cognitiva e afetiva, onde avalia, através dos atributos competência, benevolência e honestidade, as narrativas que têm sobre os antecedentes do sujeito em que deposita a confiança. Através dessa avaliação, que acontece mesmo que inconsciente, o sujeito decide se irá acoplar em novos agenciamentos.

5 AÇÕES COMUNICACIONAIS DO MINISTÉRIO DO TURISMO VIA