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Capítulo 4 – ETNODESENVOLVIMENTO: REPENSANDO A

4.2. Configurando o etnodesenvolvimento

A literatura especializada brasileira sobre a questão indígena tem como referência primeira para a temática do etnodesenvolvimento, a discussão de Rodolfo Stavenhagen (1985). Nela, o autor apresenta os pressupostos básicos para o que ele define como sendo “o desenvolvimento que mantém o diferencial sociocultural de uma sociedade, ou seja, sua etnicidade” (Azanha, 2002, p. 31).

Os pressupostos do etnodesenvlvimento foram expostos por Stavenhagen (1985, p. 18 e 19) organizados em seis itens compilados por Azanha. São eles:

(...) objetivar a satisfação de necessidades básicas do maior número de pessoas em vez de priorizar o crescimento econômico; embutir-se de visão endógena, ou seja, dar resposta prioritária à resolução dos problemas e necessidades locais; valorizar e utilizar conhecimento e tradição locais na busca da solução dos problemas; preocupar-se em manter relação equilibrada com o meio ambiente; visar a auto-sustentação e a independência de recursos técnicos e de pessoal e proceder a uma ação integral de base, [com] atividades mais participativas (Azanha, 1985, p. 31).

Apesar de já indicar essas idéias constituintes do que chama de um “desenvolvimento alternativo considerando fatores étnicos”, Stavenhagen posteriormente (1987) salienta que a discussão continua em aberto, mas que está associada a uma mudança que vem ocorrendo nos últimos 25 anos nas condições de existência das sociedades indígenas e na relação destas com os Estados e as sociedades nacionais na América Latina.

Outra referência na discussão do conceito de etnodesenvolvimento é apontada por Batalla que o define como:

(...) o exercício da capacidade social dos povos indígenas para construir seu futuro, aproveitando suas experiências históricas e os recursos reais e potenciais de sua cultura, de acordo com projetos definidos segundo seus próprios valores e aspirações. Isto é, a capacidade autônoma de uma sociedade culturalmente diferenciada para guiar seu desenvolvimento (Batalla et al., 1982 apud Verdum, 2002, p. 88).

Principalmente, a partir desses dois pressupostos, concepções mais recentes vêm sendo desenvolvidas e que têm como base a experiência brasileira. Assim, Gilberto Azanha aponta indicadores para o que denomina de

etnodesenvolvimento sustentado:

a) aumento populacional, com segurança alimentar plenamente atingida; b) aumento do nível de escolaridade, na “língua” ou no português, dos jovens aldeados; c) procura pelos bens dos “brancos” plenamente satisfeita por meio de recursos próprios gerados internamente de forma não predatória, com relativa

independência das determinações externas do mercado na

captação de recursos financeiros; d) pleno domínio das relações com o Estado e agências de governo, a ponto de a sociedade indígena definir essas relações, impondo o modo como deverão ser estabelecidas (Azanha, 2002, p. 32).

Para garantir a sustentabilidade desse etnodesenvoolvimento, o autor acrescenta a necessidade de algumas resoluções prévias: a) segurança territorial, considerando a inclusive a necessidade de expansão da sociedade indígena, b) usufruto exclusivo dos recursos naturais; c) demanda por produtos manufaturados e meios para consegui-los; tempo empregado na geração de recursos financeiros internos para a aquisição de produtos manufaturados; e) escala ou nível das necessidades impostas pelo contato e identificação de como cada sociedade indígena específica fixa ou fixou

esse nível; internalização dos recursos financeiros gerados pelos canais tradicionais de distribuição e circulação (Azanha, 2002, p. 32).

Tais discussões que se dão no plano da compreensão do próprio conceito passaram a ampliar o espaço até então por ele ocupado. Algumas lideranças indígenas, ONG’s e intelectuais simpatizantes, conforme é ressaltado por Verdum (2002, p. 91), na década de 90 já haviam incorporado a idéia de etnodesenvolvimento. Mais recentemente, a idéia passou a estar presente na fala de um público mais amplo, constituído pelas agências governamentais e multilaterais de cooperação, fortalecido, principalmente pelas recomendações resultantes da Conferência Rio 92.

A idéia de etnodesenvolvimento teve, então, sua gênese associada às preocupações ambientalista voltadas, de maneira mais enfática, para as regiões vitrines das preocupações com a preservação do meio ambiente.

Neste quadro, à região Nordeste é destinada uma parcela bem menor dos interesses e projetos financiados pelas agências multilaterais que, muitas vezes alimentam as próprias políticas públicas locais. Ou ainda, as políticas locais são traçadas em conformidade com as linhas de financiamento estabelecidas pelas agências.

O mercado de projetos, ressaltado por Bruce Albert (2000), deve ser entendido como uma via de mão dupla e os canais que vão se estabelecendo até mesmo pelo Estado relacionam-se aos interesses das agências financiadoras. O Nordeste é só um adendo nesse contexto. O retrato da fome, cartão de visita dessa região, promove uma visão estereotipada de sua realidade e produz uma visão reducionista de suas capacidades e potencialidades sócio-ambientais.

Associada a esse mercado de projetos e à onda ecológica, temos a partir da constituição de 1988, no Brasil, uma rearrumação dos espaços políticos e de negociações com a postura que as sociedades e organizações indígenas passaram a adotar.

Esta mobilização do movimento indígena começou a procurar um novo diálogo com o Estado e a sociedade civil, apresentando como reivindicações questões como a educação diferenciada, os projetos etno-sustentáveis, etc, e pensando a sua presença como parte integrante do contexto sócio-econômico regional.

A novidade não se refere à existência de recursos e projetos voltados para as populações indígenas, mas como tais populações estão se colocando frente às negociações inerentes à efetivação de tais programas.

No Brasil, o período de 1975 a 1977, que antecede às preocupações ecológicas e locais, é citado por Lafer (1981) como aquele em que, nas mais diferentes formas, se imaginam ou se implantam efetivamente pequenos programas de desenvolvimento econômico nas áreas indígenas (Lafer, 1981, p. 19). Para a autora, a idéia central dos projetos citados era a autonomia indígena como melhor forma de promover os interesses indígenas, em contraposição à política protecionista oficial.

No quadro da produção acadêmica sobre a relação das sociedades indígenas e a sociedade envolvente da década de 70, Lafer assinala os trabalhos de Darcy Ribeiro, Edgar de Assis Carvalho, Sílvio Coelho, etc, como representativos para mostrar que a economia indígena não mais reproduz suas primitivas condições de existência, mas liga-se à reprodução do sistema econômico mais abrangente, expondo um quadro crítico da vida material, cultural e política das populações indígenas, quadro este a que a política indigenista é incapaz de dar soluções (Lafer, 1981, p. 21).

O que nos parece interessante é o fato de na década de 70 os projetos salientados por Betty Mindlin Lafer (1981) serem apresentados como forma de se contrapor à política oficial, enquanto, na atualidade, observamos que no nordeste tais projetos estão intimamente relacionados aos moldes como o protecionismo oficial vem tomando forma.

Hélcio Souza também caminha nesse sentido, quando citando Ricardo (1995) e Cardoso de Oliveira, afirma que o surgimento das organizações indígenas pode ser visto como sendo a incorporação, por parte de alguns povos indígenas, de mecanismo de representação política para poder lidar com o mundo institucional, público e privado, da sociedade nacional e internacional, assim como uma tentativa de inserção dos povos indígenas na própria sociedade civil (Souza, 2000, p. 57).

A questão que aqui se põe é: esses novos espaços ocupados, ultimamente, pelas organizações indígenas estão possibilitando a constituição do reconhecimento da pluralidade da sociedade brasileira? Ou nas palavras de Hugo Cardenas (1997, apud Souza, 2000), trata-se de nos perguntarmos se esses novos espaços estão sendo capazes de “democratizar a democracia”.