Capítulo 3 A perícope de João 6.1-15: segunda aproximação
3.3. Contexto da Perícope
3.3.1. Conflito com “os judeus”
Percorrendo as páginas do EJ, nota-se em destaque a presença de um grupo: os judeus. Diferente, por exemplo, dos samaritanos que aparecem praticamente apenas em uma perícope (4.1-42), “os judeus” estão espalhados por todo EJ, aparecendo em narrativas e diálogos polêmicos com Jesus. O curioso é que, em alguns momentos, “os judeus” aparecem como amigos de Jesus, mas em diversas outras passagens, são opositores não só a Jesus, mas como à vontade do Pai. Comparando o EJ com os sinóticos temos ainda outra surpresa: o EJ menciona “os judeus” em 70 passagens, 33 das quais eles aparecem como inimigos de Jesus; este dado é tanto mais chocante quando se tem em conta que esta expressão aparece raramente nos Sinóticos – 5 vezes em Mateus, 6 em Marcos e 5 em Lucas.175 Percebemos nitidamente um interesse marcante ao longo da obra joanina sobre “os judeus”. Com tantas referências sobre eles, podemos concluir que, de alguma forma, “os judeus” foram importantes na formação da comunidade joanina. Porém, diante da alternância entre relatos de afinidade e oposição, como podemos entender, de fato, quem são “os judeus” no EJ? Para o evangelista, qual foi a verdadeira relação entre a comunidade joanina e “os judeus”? Teriam “os judeus” alguma relação com o Judaísmo da época de Jesus ou da redação do EJ?
Maria Aparecida de A. Almeida entende que a comunidade joanina nasceu com pessoas que estavam sofrendo com a restauração do judaísmo depois da destruição do Templo (ano 70 d.C.) e o Sínodo de Jâmnia176 (80 d.C.). Segundo Almeida, este grupo de fariseus/judeus refaz
174 Sobre esse distanciamento, ver tópico 2.4.1. no capítulo 2.
175 Cf. WENGST, Klaus. Interpretacion del evangelio de Juan [Tradução: Manuel Olasagasti]. Salamanca:
Sigueme, 1988. p. 41.
176 Em 68, quando do assédio de Jerusalém (>Voc. Guerra Judaica), os fariseus, com a anuência do poder romano,
saíram da cidade para refugiar-se em Jâmnia/Javné, a uns 50 km a oeste de Jerusalém. Depois da destruição do Templo (em 70) e do fim da guerra, os rabinos (mormente fariseus) começaram a recompor a comunidade judaica na base da Sinagoga, sem o Templo. O “Sínodo de Jâmnia”, como é chamado, tomou a decisão de excluir os cristãos da nova comunidade judaica. Incluíram na oração cotidiana do judeu a birkat ha-minim, uma maldição dos hereges (minim). As razões disso podem ser diversas. Em primeiro lugar, os cristãos proclamavam Jesus como Messias, o que os judeus nacionalistas não podiam aceitar, sobretudo depois da destruição do Templo, uma situação nada “messiânica” (no entender deles). Além disso, os cristãos atribuíram a Jesus missão e dignidade divinas, o que os judeus consideravam blasfêmias (cf. Jo 5.18 etc.). Enfim, unindo-
e reconstrói o judaísmo a partir exclusivamente da Lei, em perspectiva farisaica e deuteronomista, negando, portanto, que Jesus seja a “consumação-perfeita” messiânica de Deus. Para a autora, os textos de Jo 9.22; 12.42; 16.2 nos mostram o quanto o Jesus joanino reprova os judeus e seu desconhecimento de Deus (5.37-47; 8.19,55) e o quanto “os judeus” também tornam evidente sua não-aceitação a Jesus numa atitude agressiva: a exclusão da
sinagoga judaica.177
Já Konings entende que depois da destruição do Templo, que acarretou o fim dos sacrifícios e do sacerdócio, os rabinos (mestres leigos) da tendência farisaica de Hillel reconstituem a comunidade em torno do estudo da Torá, em Jabneh/Jâmnia, perto da atual Tel- Aviv. A relação entre a sinagoga judaica e a comunidade cristã é agora de conflito aberto. Para Konings, o Evangelho de João conheceu sua redação final na atmosfera de conflito com esse novo judaísmo, chamado de “judaísmo formativo”, depois de 80 d.C. Talvez as alusões à exclusão da sinagoga (Jo 9.22; 12.42) se refiram a uma decisão do grupo de Jâmnia (mas a perseguição dos cristãos nas sinagogas pode ser bem mais antiga, como provam os textos de Marcos e da fonte Q usada por Mateus e Lucas).178
Embora “os judeus” ocupem um lugar de destaque no EJ, Almeida entende que o evangelista parece ter uma aversão odiosa sem limites para com eles. Porém, destaca que o termo judeu no EJ não designa uma etnia, nem uma cultura, nem um povo. Para Maria Aparecida, quando usado por João com conotação adversativa, este termo não indica os judeus em geral – presentes tanto na Judéia como na Galiléia – para falar dos seus costumes, suas leis ou sua religião, mas se refere aos opositores de Jesus e seus discípulos: “um grupo especial no ambiente judaico que tem peso político e social e até certo poder de decisão; uma ideologia que está tomando corpo numa estrutura de poder”.179 Ao usar o termo “os judeus” em sentido hostil,
o escritor joanino aponta o grupo judaico dominante, quer no tempo de Jesus, quer no tempo das comunidades joaninas (constituídas de judeus e não judeus). Almeida acrescenta ainda que o problema é que João não distingue estes dois momentos e projeta anacronicamente a situação ulterior sobre a narrativa do ministério de Jesus. Para ela, João funde em um só horizonte o ano
se a outros grupos (samaritanos, gregos), os cristãos de origem judaica deixavam de colaborar na construção de uma comunidade étnica; eram considerados traidores. >> Cf. KONINGS, 2005, p. 200.
177 ALMEIDA, Maria Aparecida de Andrade. Eu sou a Luz do mundo: um estudo do significado do termo luz em
João 9,1-41. 2008. 167fl. Dissertação (Mestrado em Ciências da Religião) – Faculdade de Filosofia e Ciências da Religião da Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo. p. 150.
178 KONINGS, 2005, p. 32. 179 ALMEIDA, 2008, p. 126.
30 d.C. e o ano 90 d.C.180, mas não há razão para deduzir, do uso deste termo, que o Evangelho de João seja anti-judaico. A respeito da expulsão dos cristãos da sinagoga, Almeida escreve:
A comunidade joanina rompe com o sistema baseado no cumprimento rigoroso da Lei. Isso ameaça a autoridade dos judeus/fariseus. Então, os cristãos são expulsos da sinagoga e começam a ser perseguidos. Diante das perseguições e das crises internas e externas, sentem a necessidade de reafirmar sua própria fé e definir a sua identidade. As pessoas que começam a enxergar aceitam a proposta de Jesus e passam a viver de um jeito novo. Em meio a esse sofrimento, a comunidade vivencia uma nova relação de comunhão.181
Segundo Maria Aparecida, uma das políticas das lideranças de Jâmnia foi justamente a culpabilização do povo judeu, imperfeito no cumprimento da lei mosaica segundo os mesmos, pela destruição do Templo. Por isso, a crença na messianidade de Jesus foi interpretada pelos fariseus como infidelidade à lei, como heresia. Almeida entende que a reação da comunidade joanina se expressa em termos de desprezo pela autoridade farisaica e de rechaço ao “Judaísmo” por eles apregoado. Por esse motivo, a exclusão e a separação do judaísmo era um momento de trevas para quem proclamava Jesus como Messias. Os dissidentes ficavam sem proteção, sem trabalho, sem relações sociais e comerciais, separados de sua tradição religiosa, dos serviços e ritos religiosos. Segundo Almeida, sem a religião judaica, permitida pela lei do império, os judeus cristãos deveriam assumir outra religião que fosse reconhecida pelos romanos, caso contrário, seriam vistos como inimigos. A situação da comunidade joanina era de muita insegurança. De um lado, as autoridades religiosas e do império mantinham sobre ela uma vigilância continua. De outro lado, a multidão passou a ver os dissidentes cristãos como pessoas suspeitas, gente perigosa.182
Segundo J. Louis Martyn, temos que ler o Evangelho de João num nível duplo: o nível da vida de Jesus e o nível da presença poderosa deste Jesus no âmbito de sua comunidade. O Evangelho de João reflete um estágio inicial de banimento no judaísmo formativo. O ponto de partida do trabalho de Martyn é a expulsão dos cristãos da sinagoga, que ele classifica como dado anacrônico, pois esta medida contra os cristãos só foi executada a partir dos anos 90 d.C. Sua aplicação à vida de Jesus é um indício de que outros dados semelhantes podem ser mais um reflexo dos problemas e preocupações da comunidade joanina do que dados históricos sobre Jesus.183
180 Cf. BROWN, 1999, pp. 42-43. 181 ALMEIDA, 2008, p. 140. 182 Id., Ibid., p. 137.
Para Klaus Wengst, ainda que o Jesus do Evangelho de João apresente as Escrituras, Moisés e a Lei a seu favor e ainda que o mesmo se qualifique como judeu, fala, no entanto, em “vossa lei” (8.17; 10.34), como se tampouco ele não fosse judeu. Também chama seus antepassados do deserto de “vossos pais” (6.49). É indiscutível que esta distância que estabelece no EJ e que apresenta o judaísmo como alheio a Jesus não concorde com a realidade do Jesus terreno. Este tipo de exposição é compreensível, em compensação, como expressão do contraste entre judaísmo e cristianismo da época do evangelista. A mesma distância acontece quando este fala da “páscoa dos judeus” (2.13; 6.4; 11.55), da “festa dos judeus” (5.1; 6.4) e da “purificação dos judeus” (2.16). O julgamento aparece aqui como um coletivo religioso bem definido frente a Jesus – e é, no plano do evangelista, frente à comunidade que aceita e crê – com sua Escritura, festas e costumes.184
Senen Vidal, sobre o conflito com “os judeus”, escreve que é a etapa do surgimento da comunidade joanina como uma nova instituição: “o trauma profundo de sua expulsão do seio do judaísmo equivale ao trauma de um autêntico ‘nascimento’ em uma vida independente”.185
Segundo Vidal, o testemunho principal são os escritos que surgem nesta época (aproximadamente o ano 80 d.C.), precisamente com o escrito etiológico (justificativo) da comunidade joanina.
Para Vidal, a expulsão dos cristãos da sinagoga (cf. 9.22; 12.42; 16.2) se explica apenas a partir da situação especial do judaísmo depois do ano 70 d.C. Segundo o autor, foi neste tempo quando se iniciou seu processo de uniformização a partir da corrente dominante do rabinismo fariseu (daí utilizar o termo “fariseus” para designar as autoridades judaicas nos textos de João e dos evangelhos sinóticos redigidos neste tempo).Vidal entende que sua delicada situação política, social e religiosa não podia suportar as diferenças e tensões do judaísmo do tempo anterior e, em consequência, se excluiu de seu seio diversos grupos e movimentos considerados “heréticos”, dentro dos quais se incluíam os grupos de judeus cristãos (entre eles, os joaninos). Para o autor, a sanção oficial desta expulsão foi a famosa “benção dos hereges”, agregada neste tempo (em torno de 80 d.C.) à antiga 12ª bênção da oração sinagogal das “18 bênçãos”. Por outra parte, atesta Vidal, todo movimento “messiânico”, como era o joanino, significava um perigo social e político para aquele judaísmo dependente, mais do que nunca, da simpatia do poder romano (cf. 9.1-34). Isso explica que a confissão de fé em Jesus como profeta messiânico
184 WENGST, 1988, p. 50. 185 VIDAL, 1997, p. 44.
se convertera na razão fundamental da expulsão dos grupos joaninos do seio da sinagoga. Sobre isso, Vidal ainda escreve:
Os grupos joaninos sofreram um grande revés, perdendo também membros e simpatizantes influentes, que passaram a ser “cristãos ocultos” (cf. 3.1-11; 12.42-43). Mas isso significou seu nascimento em uma existência como uma
comunidade com entidade própria, organizada e configurada fora das práticas
e celebrações do judaísmo (mesmo perdendo alguns traços de sua antiga tradição >> cf. 4.1-42; 20.17).186
Portanto, a ênfase joanina não é mais, como na etapa anterior, a de renovação do judaísmo, mas sim, como indica Vidal, a de superação e substituição de seus ritos e práticas: culto do templo, festas, sábado, ritos de purificação. Daí se explica a veemência e a dura polêmica dos textos do Evangelho de João. Mas Vidal percebe que ao mesmo tempo, isso possibilita a abertura da comunidade joanina ao mundo gentio, supondo que dentro da comunidade havia membros que já não entendiam as práticas judaicas e nem o aramaico; por isso precisamente se escreve em grego.
Para Carlos Josué, a partir dos anos 70 (pós destruição do Templo), um novo grupo entra na comunidade joanina,187 acentuando ainda mais o conflito com as “autoridades judaicas”, ocasionando a expulsão dos cristãos da sinagoga. Expulsos pelos fariseus, apresentados como autoridades (cf. 9.13-17; 7.32,45; 11.45-47,57). Nascimento acrescenta que as autoridades judaicas eram tolerantes com os cristãos que anunciavam a ressurreição de Jesus (cf. At 5.33- 42), contudo não toleravam os que criticassem o templo (já destruído) e apresentassem Jesus como igual a Deus.188
Nascimento também destaca que o evangelista põe muita ênfase na afirmação que Jesus é o Messias, precisamente o que alguns judeus negavam. Com mais frequência que os sinóticos o autor usa o nome Christós, e é o único que transcreve o nome Messias (1.41; 4.25). Identifica a Cristo com figuras preanunciadas no Antigo Testamento: o Servo de Javé (1.29,34), o cordeiro de Deus (1.29), o rei de Israel (1.49), o Santo de Deus (6.69). Segundo Carlos Josué, a primeira parte do Evangelho apresenta Jesus posicionando-o diante das instituições de Israel: a expiação, o Templo, o culto (2 – 4), as festas (Sábado, Páscoa, Tabernáculos, Dedicação [5 – 10]). O autor justifica essa atitude do evangelista como reação diante da incredulidade dos judeus e indica
186 VIDAL, 1997, p. 45.
187 Segundo Nascimento, até então a comunidade era formada por: cristãos judeus que comungavam a mesma fé
das outras comunidades que surgiram dos Doze discípulos (1º grupo); judeus de concepções peculiares antitemplo (cf. 2.14-15, 19-20) (2º grupo); samaritanos (cf. 4.1-42) (3º grupo). >> Cf. NASCIMENTO, 2010, p. 71.
que a maneira de usar a expressão “os judeus”, denota uma atitude controversa: “em boa parte se usa o termo técnico para designar as autoridades religiosas, especialmente as de Jerusalém, que são hostis a Jesus”.189
Já Grégory Baum diz que toda a hostilidade para com os “judeus” era por causa do acento novo dado à escatologia. O autor joanino afirma que as promessas feitas já se cumpriram em Jesus Cristo, que a graça da salvação está presente, não no advento futuro. Essa perspectiva histórica, segundo Baum, obriga o evangelista a adotar uma atitude de serenidade diante das perseguições e até da expulsão. O julgamento do mundo começa na pessoa de Jesus. Os que não creem em Jesus não receberão a vida, e a cólera de Deus pesa sobre eles (3.36).190
Segundo Nascimento a comunidade do Discípulo Amado viu-se diante de todos esses desafios, os quais foram aproveitados para seu fortalecimento. O critério de pertença à comunidade não era mais a etnia judaica e se tornou o crer decididamente em Jesus; não haviam cristãos de uma categoria inferior por seguirem Jesus Cristo, mas eram acolhidos pelo fato de aceitarem que Jesus era o Messias encarnado, morto e ressuscitado; Nascimento ainda acrescenta que também a prática litúrgica foi um diferencial dos judeus da sinagoga; um novo calendário, um novo ritual (batismo), nova catequese. Segundo o autor, a comunidade, aos poucos, se tornava autônoma, independente, original, distinta do judaísmo, mesmo tendo saído dele.
A partir de todos esses esclarecimentos, podemos afirmar que o conflito entre a comunidade joanina e “os judeus” (Judaísmos e autoridades judaicas) foi decisivo na história da comunidade. Diante de toda perseguição originada da expulsão da sinagoga, compreendemos a preocupação do evangelista em animar os joaninos a permanecerem firmes na fé. Com o rompimento com o Judaísmo, os cristãos joaninos estavam desprotegidos e enfraquecidos. Assim, coube ao evangelista incentivar a unidade dos cristãos joaninos e a esperança na vida eterna a partir da fé em Jesus Cristo; isto através de um estilo literário marcante em toda obra joanina.
189 NASCIMENTO, 2010, p. 62.
190 BAUM, Grégory. Les Juifs et l´Évangile. L´Évangile de Saint Jean. (Lectio Divina 41), Paris: Les Éditions du