CAPITULO 5 – DIFICULDADES E CONQUISTAS
5.1 Dificuldades
5.1.1 Conflito entre polícias
A disputa por recursos orçamentários provoca um acirramento de ânimos entre os comandos das polícias civil e militar, isto somente para se tratar da esfera estatal. Esta forma competitiva de relacionamento é repassada para os escalões inferiores da hierarquia. Se nos altos escalões as divergências não chegam as vias de fato, o mesmo não ocorre nos níveis inferiores, de forma tal que não são tão estranhos os conflitos eclodirem por diversas causas. Um caso típico é registrado abaixo:
Dois policiais militares e um civil trocaram tiros na manhã de ontem, no Parque Arariba (zona sul). Um PM morreu e os outros dois ficaram feridos. O PM Odirlei da Silva Santos, 28 anos, levou dois tiros e morreu a caminho do hospital. Ele e outro PM de 29 anos, fazem parte do serviço reservado do PM. Armados, eles
estavam à paisana. Segundo a Secretaria de Segurança Pública do Estado, eles teriam ido ao bairro para cumprir um mandado de prisão preventiva expedido contra um morador da região. Os dois faziam rondas em uma viatura descaracterizada. Ontem, eles estacionaram o Santana na rua Isaias Tarandach, quase em frente à casa do policial civil João (nome fictício), de 39 anos (JORNAL AGORA, 20/07/2007, p. A12).
Estas ocorrências, que raramente aparecem em jornais e periódicos, e desconhecemos pesquisa que relate o nível de incidentes entre policiais civis e militares, revelam um pouco o nível de tensão existente entre as duas instituições. Inúmeros são os enfrentamentos que podem envolver dois policiais, três, quarenta ou batalhões inteiros. Outro exemplo:
Uma operação policial mal sucedida reforçou a rivalidade entre a PC e a Polícia Militar do Distrito Federal. O clima de tensão entre as duas corporações ocorreu no Guará 2, onde um agente da Divisão de Operações Especiais (DOE) acabou baleado por um soldado do Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar (BOPE). Por algumas horas, mais de 20 homens de cada unidade encararam, de arma em punho, em uma quadra residencial da cidade. Cada um assumiu postura em defesa dos colegas de farda (GOULART, 25/07/2008, p. 27).
A rivalidade que se encontra em todas as unidades da Federação, em algumas mais acentuadas e em outras mais mitigadas, também se faz presente em MS e também se apresenta de diversas formas.
Se a Polícia Militar em São Paulo, e em outros estados, age descaracterizada, tanto em vestimentas quanto em veículos (o que não é típico da Polícia Militar, pois que é ostensiva, como na ocorrência relatada em São Paulo; PC, extraordinariamente pode querer atender a população uniformizada (o que não é sua característica operacional visto que é de investigação e, portanto, sigilosa, discreta). Foi o que ocorreu quando da inauguração e funcionamento da Metropol em campo Grande, uma delegacia modelo que foi desarticulada para que nela mais tarde, em 2001, fosse instalada uma unidade de policiamento integrado. O que não ocorreu de forma tal que nem delegacia modelo nem policiamento integrado vingaram.
A Metropol que funcionará no mesmo prédio da 1ª DP, será composto por 68 policiais, três Blazer’s, um trailler para o apoio em operações na cidade e ainda uma viatura de cartório, todas elas equipadas com informática, rádio e telefone. Os policiais irão trabalhar uniformizados [...] (JORNAL DO SINPOL, 04/1999). A rivalidade é constantemente negada pelos altos escalões das policias que chegam a elaborar planos de trabalho conjunto, cumprindo ordens superiores para transmitir a imagem de harmonia e unidade de comando na gestão da segurança publica como, por
exemplo, o Plano de Policiamento Integrado elaborado pelo 3º BPM (Batalhão de Polícia Militar e DRPC/Delegacia Regional de Policia Civil), elaborado para Dourados onde no manual de procedimentos, no item B, quanto aos procedimentos dos policiais, preconiza que:
Os policiais militares e os policiais civis empregados no Plano de Policiamento Integrado terão como objetivo principal à ação conjunta de procedimentos, através de trocas de informações, auxílio mútuo, orientações de caráter geral e outros inerentes ao serviço (JORNAL DO SINPOL, 04/1999).
E, não obstante o 3º BPM e o Delegado Regional de Policia Civil assinarem em conjunto, na mesma página, o plano de atividades em conjunto este, como muitos outros, ficou somente neste patamar, no do plano. Assim procedendo, transmitem os escalões políticos de governo a mensagem de que atacam as determinações. Contudo, a realidade vai desgastando a imagem, transmitindo através de ofício, circulares e memorandos.
A imagem real em casos extremos pode explodir nas ruas:
Policiais civis em greve. Guerra perto de Palácio dos Bandeirantes fere pelo menos 23” [...] Cerca de 2 mil policiais civis em greve entraram em confronto com tropas da Polícia Militar perto do Palácio dos Bandeirantes, sede do governo estadual, no Morumbi, na Zona Oeste da capital. Foi o maior confronto entre policiais civis e militares já visto na história do estado, que deixou pelo menos 123 feridos. (POLÍCIA X POLÍCIA, 17/10/2008, p. 1).
Casos externos e raros como este são importantes para a percepção não só das contradições existentes entre as policiais, bem como no descompasso entre a cúpula administrativa162 das polícias, mas sim aos manuais de procedimentos das academias.
Os conflitos entre as policias civis e militar vão desde a disputa por recursos, cargos e espaços de comando na estrutura de governo, enfrentamento nas ruas e caso de greves, informações sobre combate a criminalidade com omissão e despiste das mesmas, até há acidentes entre seus componentes, pois que andam armados:
162 “A cúpula da PC do estado de São Paulo divulgou ontem uma nota em que critica Sergio Marques Roque,
presidente da associação dos Delegados de PC de SP, um dos líderes da greve, pela entrevista à Folha no domingo. [...] Assinada pelo delegado-geral da PC, Maurício José Lemos Freire, pelo delegado-geral-adjunto e por outros 21 diretores de departamentos e órgãos policiais – como o Detran (Departamento Estadual de Trânsito) -, a nota diz que ‘o governador José Serra em nenhum momento permitiu ingerências indevidas [...] nos destinos da instituiçao’. [...] A afirmação é uma resposta à Roque, que disse em entrevista que a maioria dos cargos mais importantes da PC são preenchidos por indicação política e que os grevistas travam uma batalha ‘contra a ingerência política na polícia’” (CÚPULA DA PC, 10/10/2008, p. C7).
Um policial militar disparou pelo menos quatro tiros contra o delegado Sérgio Luditza, 43, na noite de anteontem, em Carapicuíba, na Grande São Paulo, por suspeitar que ele corre risco de morte”. [...] Em SP, Delegado leva quatro tiros de PM. Abordagem Suspeita Autor de disparos se assustou ao ver a arma da vítima; família diz que houve omissão de socorro (HISAYASU, 21/11/2005, p. C3).
E mesmo sendo um acidente o comportamento em relação ao policial ferido da tão alardeada “Co-irmã” é sintomático:
O meu irmão chegou a gritar que a PM parasse de disparar porque ele era delegado. Os policias saíram do local sem prestar socorro. É um abuso. Quem o atendeu foram outros PMS que passaram por lá, e um deles o reconheceu. Ele não morreu porque Deus é muito bom”, disse a irmã do delegado, a oficial de justiça Sueli Luditza, 39 (HISAYASU, 21/11/2005, p. C3).
Um procedimento que é rotineiro, ao envolver as corporações, pode levar a um erro que pode ocorrer e que, mesmo sendo demonstrado que os policiais tenham agido dentro da legalidade, é possível perceber o grau de tensão que envolve rotineiramente as corporações “Co-irmãs”.
Estes conflitos, que são observados em nível nacional e estadual, também são um elemento a mais a ser administrado quando da atuação em conjunto dos policiais. No DOF este fator tem sido bem equacionado durante estes 22 anos, pois que os policiais trabalham sob mesmo teto, seja da sede situada a Rua Coronel Ponciano, seja dentro de uma viatura onde rotineiramente estão policiais civis e militares sob um mesmo comando, o que é impensável fora do Departamento.