3 CAPÍTULO III – A PESCA NA REGIÃO DE VÁRZEA
4. CAPÍTULO IV – ACORDO DE PESCA
4.1 CONFLITOS DE PESCA
Desde a década de 1970, os conflitos de pesca vêm se desenvolvendo na Amazônia, causados pela disputa ao acesso a ambientes de pesca. Furtado (2004) ressalta a territorialidade pesqueira35 construída a partir dos costumes nativos que conflitam com o direito posto, com as políticas públicas e externalidades que acabam afetando as relações que têm os pescadores com o meio ambiente, e alteram as formas tradicionais de manejo. Estes conflitos levam as comunidades pesqueiras a reagirem por meio de ações coletivas, buscando soluções. A territorialidade para o pescador, segundo a autora, é o próprio espaço de trabalho onde, por meio do direito costumeiro, busca o reconhecimento por parte de grupos externos, que disputam o mesmo recurso, de suas regras locais. Nestas ações coletivas reivindicam espaço na gestão e nas tomadas de decisão sobre o setor, Furtado (2004).
Mello (1993) e Merona (1993) citam o diagnóstico de Arno Meschkat (1961), perito da FAO, sobre a situação de sub-exploração da pesca na Amazônia, no final da década de 1950, sugerindo a modernização das técnicas de pesca com a introdução de malhadeiras com fio de nylon e o uso de motores potentes. A intensificação da explotação pesqueira, a partir da evolução tecnológica da pesca tem causado declínio da produtividade pesqueira. Esta situação e a legislação inadequada às peculiaridades regionais contribuíram para o surgimento dos conflitos de pesca. As comunidades ribeirinhas tentam proibir a entrada de pescadores comerciais de fora nos lagos de pesca, resultando em conflitos entre comunitários e pescadores (Hartmann, 2001, McGrath et al., 1999). Furtado (1993a) refere-se a estes lagos como "lagos da confusão".
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A territorialidade da pesca para Furtado (2004) é "...um espaço construído e disputado por diversas categorias de pescadores (artesanais, industriais, esportistas e aqüicultores)".
Para Ruffino (2005); McGrath et al. (1993; 1999); Castro e McGrath (2001); Furtado (1993); e Hartmann (2001) a falta de credibilidade no poder público e o declínio na produtividade pesqueira são as causas na proliferação dos conflitos de pesca na Amazônia. O descrédito no governo seria conseqüência da falta de estrutura suficiente de gestão, técnicos e recursos financeiros para a elaboração e execução de um ordenamento apropriado à pesca na Amazônia, e a falta de proximidade com o conhecimento tradicional do pescador. McGrath et al. (1999) afirmam que o regime de livre acesso ao recurso pesqueiro incentiva os pescadores a pescarem sem preocupação em manter o recurso a longo prazo; e que a ausência do controle do Estado possibilita a criação de reservas de lago pelas comunidades onde são definidas e implementadas as regras locais. Nestas reservas, o uso do recurso é exclusivo dos moradores locais. Doria et al (2008) descrevem o conflito causado pela discrepância entre a legislação do defeso e o conhecimento sobre a ecologia das espécies de peixes dos pescadores do Vale do
Guaporé em Rondônia, onde o período de defeso estabelecido pelos órgãos ambientais
gestores da pesca não corresponde à época de reprodução das principais espécies como tambaqui, pescada, tucunaré e surubim. Isaac et al (1998) afirmam a falta de participação e identificação dos pescadores nos processos de gestão centralizado pelo governo. Esta falta de envolvimento dos usuários dos recursos pesqueiros seria o principal motivo do não cumprimento das normas existentes, e os acordos de pesca uma forma da sociedade civil garantir sua participação nas tomadas de decisão a cerca das regras de pesca.
Hartmann (2001) descreve vários conflitos relacionados ao uso dos recursos pesqueiros em várias localidades dos Estados do Pará e Amazonas. O autor identifica, pelo menos, três grandes causas: as disputas entre pescadores das comunidades ribeirinhas e pescadores itinerantes; a disputa por espaço entre pescadores e criadores de gado; e a construção de barragens que afetam não somente os estoques pesqueiros como promovem a desestruturação de comunidades ribeirinhas. Na região do Baixo Amazonas, (McGrath et al.
1993; 1999) creditam os conflitos de pesca ao declínio da produtividade pesqueira nos lagos comunitários causada pela ação dos pescadores comerciais itinerantes. A proibição da entrada destes pescadores pelas comunidades acaba, muitas vezes, em confrontos verbais, ameaças, e destruição de equipamentos, (Hartmann, 2001).
Os conflitos de pesca também envolvem outras categorias de pescadores, além dos pescadores de subsistência e comerciais. Batista et al. (2004) refere-se aos conflitos entre pescadores amadores e os profissionais. Os pescadores profissionais reclamam o direito de capturar o peixe com destino de venda, enquanto pescadores amadores argumentam que é impraticável as duas modalidades de pesca no mesmo espaço. Há competitividade pelos mesmos peixes, e as formas de captura são incompatíveis se ocorridas de forma simultânea.
Conflitos de pesca ocorrem, historicamente, em qualquer região onde a pesca tenha importância fundamental na reprodução dos modos de vida de seus usuários. A ameaça a estes valores levam as comunidades ao desenvolvimento de arranjos sociais que visem proteger seus interesses. Em contrapartida, os pescadores comerciais itinerantes, ou até mesmo os que integram comunidades locais, também, têm os mesmos ambientes aquáticos como espaço de produção, e onde desenvolvem sua territorialidade, passíveis das externalidades provenientes das políticas pesqueiras impostas pelo poder público (Furtado, 2004). Batista (2003:292) defende que o pescador comercial
é o explorador que faz o elo entre a riqueza dos recursos presentes nos rios e lagos com a população, principalmente a urbana... contribuindo assim para o bem estar social nestes centros, através de sua função ecológica de predador sobre os recursos pesqueiros demandados por estas populações.
Respondendo à pressão exercida pela pesca comercial em seus ambientes de pesca, as comunidades ribeirinhas têm se organizado para desenvolver e implementar seus manejos, criando regras próprias a despeito daquelas determinadas no ordenamento oficial. Em muitos destes manejos, o pescador comercial tem sido excluído ou limitado em seu poder de captura.
Ximenes (2008) entende manejo como iniciativas coletivas que ocorrem a partir da percepção de pressão sobre os recursos comuns.